2 poemas de Janaina Sales

por Janaina Sales
Foto de Janaina Sales em "Olho de boca" (Editora Patuá, 2022).

Janaina Sales nasceu em Piedade-SP, em 1991. É doutoranda em Letras pela Unesp (Assis-SP), onde também é professora-bolsista de língua francesa pelo Departamento de Letras Modernas. Gosta de poesia desde antes de se entender por gente. Teve crônicas selecionadas para publicação por meio de um concurso literário promovido pela Unesp, cujo fruto é o livro Vozes do Confinamento (Ed. Unesp, 2022). Os poemas aqui publicados fazem parte de Olho de boca, seu livro de estreia, recém publicado pela Editora Patuá.


ANIMAL MARINHO

Era uma vez a suavidade do peixe
na língua do mar
O mar se descobre fêmea
lábios, corpo semovente
o pensamento era o
mesmo líquido
contrário-abismo

cabeça
tronco
cauda

O corpo de um peixe
é também a
cabeça
e a
cabeça
é também o
peixe

Não será possível saber
se foi colocado lá
ou se o mar
se deitou sobre ele



A primeira vez que eu vi um cavalo

Foi na parede da caverna onde eu morava
Foi uma vez que o meu avô desenhou um animal na palma da minha mão
Foi há alguns segundos quando vi um boi debaixo das árvores
e o imaginei
besta domada, pelo brilhante, reflexo do sol, pura beleza.
Mais macho e mais fêmea.

Não pude nunca deixar de vê-lo na lua, quando se pensa sobre sua nudez.
Durante a noite, não posso me desfazer de sua imagem.

Um cavalo está parado no meio da casa
e só existe um bico de luz aceso para ele.

Um cavalo se deita para dormir
ora a um deus centauro
que também não ouve.



Você acabou de ler uma seleção de poemas de Olho de boca (Editora Patuá, 2022), livro de estreia de Janaina SalesGostou dos poemas? Adquira-o completo clicando aqui!

Mais sobre a obra

O olho de boca projeta e engole, como um instrumento cosmogónico e mágico, o início do mundo, tateando, com dedos novos, inflamados e “vida dentro/ do corpo”, “eternidades/ pinturas rupestres/ animais amalgamados/ pedras preciosas/ rochas milenares”, e desmantelando, ao mesmo tempo, os preceitos de certa escrita tradicionalmente grave. Tão destemidos quanto orgânicos, os poemas da estreante Janaina Sales distinguem-se pela graça e rigor com que reescrevem várias passagens da literatura em língua portuguesa, desde Camões a António Vieira, e perfuram a sisudez do cânone — questionada, além do mais, a partir de um espaço primário e desconhecido.

Patrícia Lino

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