Poema nº 1 a 3

por Viegas Fernandes da Costa
Foto de Luísa Machado para ilustrar os poemas de Viegas Fernandes da Costa.

Viegas Fernandes da Costa nasceu em 1977 em Blumenau (SC) e atualmente mora em Nossa Senhora do Desterro (SC) – cidade também conhecida pelo nome de Florianópolis – onde leciona História no Instituto Federal de Santa Catarina. É autor dos livros Sob a luz do farol (2005), De espantalhos e pedras também se faz um poema (2008), Pequeno álbum (2009), Sob a sombra da Tabacaria (2015) e Coliseu tropical (2021). Seu livro Sob a sombra da Tabacaria recebeu o Prêmio Catarinense de Literatura. Possui textos literários publicados em diversos periódicos e antologias. É graduado em História, pós-graduado em Estudos Literários e mestre em Desenvolvimento Regional. Foi colunista de diversos jornais e apresentador do programa Dica de Literatura na TV Universitária de Blumenau.


poema nº 1

para onde vão os peixes
quando mortos da morte
esperada, e não
afogados em óleos e esgotos ou
asfixiados no lixo

para onde se vão
cansados do nado e do tanto
d’água de mar e de rio e de lago
esquivos das iscas, das redes, dos barcos
tão cheios de homens famintos

para onde quando não boiam
inchados, tampouco fritos
na farinha, escapados
da vitrine de peixaria onde
exibidos em postas mutiladas

assim caminhava o menino no mercado, a pergunta
queimando na boca
como anzol incandescente


poema nº 2

estar aqui nesta vitrine, exposto
como o corpo dissecado na lição
de anatomia do doutor tulp
– rembrandt não tinha instagram!

vejo você no reflexo do espelho
reclinado sobre ombros, espiando entre nucas
julgando minhas vísceras, revolvendo as imundícies
escondidas nos meus dentros

qual a palavra estilete? bisturi de verbo ou imagem?
que me corta a pele e os músculos e
me perfura o crânio? qual
a sonda uretral? a vírgula, o ponto final?

plantar instantâneos em campo de esquecimentos,
as cinzas recolhidas das piras para as urnas
(há diversos modelos com excelente acabamento à pronta entrega)
insepultas no livro de rostos

doutor tulp dissecou a mão esquerda de aris kindt
cujos dedos seguravam o revólver
– era o século dezessete quando
óleo sobre tela fazia moda nos salões


poema nº 3
quando ouço o galo cantar
entre susto e surpresa concluo:
sonho morte ou delírio
porque impossível
no vigésimo e sexto andar
deste prédio rodeado de prédios
tudo plantado em concreto
postes carros sirenes
ouvir um galo cantar!

mesmo que madrugada fria
não importa
mesmo que solidão urbana
a cidade não permite galos
vivos e cantantes, apenas
pombos, mas estes
não cantam, arrulham

se ouço o galo cantar
talvez a existência de um velho
migrante esquecido escondendo
seu galo na sala de estar, lá
no vigésimo e quinto andar
o galináceo entretido
ciscando entre tv e sofá
e vendo nascer o dia
por entre as frestas da cortina


Foto de Luísa Machado.

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