Primeiras Piadas

por Leonardo Zeine
Foto de Leopoldo Cavalcante para "Primeiras Piadas", de Leonardo Zeine.

Leonardo Zeine é mestre em linguística pela USP e doutorando em Filosofia da Linguagem pelo Max Planck Institute, em Frankfurt.


Brincando de ser ele 

O dia havia sido quente, a tarde inútil. Os peões começavam lentamente após o almoço a tomarem posição. 

Os convidados foram chegando, as garrafas foram chegando e, algum tempo depois, sem alarde, todo o pão já havia sido comido. 

Os namorados, mais amantes do que nunca, estavam vestidos de rosa. Dentre os outros presentes, cada um maquinava o próprio problema. 

O dia havia sido quente, a tarde inútil. Os peões começavam lentamente, após o almoço, a tomarem posição. 

Depois da festa, a ressaca. As dores de cabeça e o sexo com gosto de orgia, sexo rosa. Palavras apressadas, fogos de todas as cores. 

R: Casa comigo? 

J: Caso. 

R: Casa também? 

J: Caso de novo.


Os meninos se arrumavam 

Os meninos se arrumavam para o banho. Ainda contando vantagem de bola, os braços teimando em estar suados. 

Caminhavam alegres: o poeta, o belo, o grandalhão e o estudioso. Como anjinhos, vagueavam pelos caminhos do quartel, imiscuídos sem espaço aos soldados.

Já sob o musgo verde do vestiário de concreto, iniciam, a sós, a lenta cerimônia. As camisas de algodão são dobradas: lá estão as axilas; as meias pretas retiradas: o entre-dedos; os shorts azuis caem aos pés: o inflado molde. 

Conta-se, que um soldado desavisado entra no mesmo vestiário para o banho sem divisórias.

Assustados com a presença de um mais velho, mais forte, mais gasto, interrompem o curso já treinado das explorações e passam a cobrir-se. Vão um a um ao chuveiro e assistem desolados o rio pelo que são levados; todos eles a um ralo comum. 

O soldado, com aqueles enormes culhões nas mãos, tomando a água fria nas costas, encara um a um os meninos: o poeta, pobre coitado, sofre como que sofre a galinha; o estudioso finge nem se dar ao trabalho; o grandalhão acha graça; o belo envergonha-se. Diz o soldado: 

— Podem se despir. Todos têm um, cada um tem o seu. 

O poeta, duro como um porrete, corre em direção à cabine, temeroso de que algo lhe aconteça. O estudioso, agora livre de certas amarras, se ensaboa meticuloso: pelo por pelo. O grandalhão ri de ronquinho. O belo apalpa seu orgulho, finalmente aceitando desejar a própria pele.


de G. 

— Já disse e repito: nenhum interesse em fazer dinheiro com qualquer que seja o esquema de corrupção. 

Madame de G. 

— Uma coisa assim, um tanto cafona, meio de cá pra lá, quiprocó de Santo Antubas. 

— Já abri as pernas, meu querido, foi-se o tempo. Não me sinto “incorruptível” —, mexendo mais que os dois dedos de cada mão. 

— Então sente-se, vamos. É hora do tabaco, depois pensamos no amor.


O Poço 

— São um milhão de metáforas que vim arrolando com o tempo, das coisas que vi. O tradutor, o espiral, o poço sem fundo, o arco e a flecha. 

— Vá, fale mais! Que me importa. 

— O que eu acho realmente é que não tenho dom para a pobreza. Nem dom, nem coragem. Coisa estúpida de se dizer. Mas o trabalho… veja. O trabalho é repugnante, é óbvio, as impressoras são grudentas demais, é óbvio, os documentos são excremento submolecular, é óbvio. Tudo isso bastante claro. 

— E? 

— E que a transição entre asco e ódio me produziu carvão. Superado, o que quero dizer. Assintótico. Meu setor de cobranças indevidas, isto é, o setor de cobranças que não deveriam ser feitas, segue às mil maravilhas. Não sou chamado para festas, não fui padrinho de meu estagiário. Mas com alguma esperteza, me pus onde ele corre. Um pouco de tempo, algum esforço, mas se não fosse com isso, seria toda uma vida atrás de um amor impossível. Não quero ser monge. Reservo-me as noites, paciente. E não imagina como tenho energia! Um garoto, realmente um garoto. Minha vida não é a longa greve que fora a do Monstro. Acaba que não me importa. 

— Não o culpo. 

— Nem nunca te dei o direito. 

Silêncio breve. 

— Às trincheiras! —, com riso gordo e dentes disformes. 

— Somos sujeitinhos repugnantes. E há de sair algo daqui mesmo.


Foto de Leopoldo Cavalcante.

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