5 poemas de Bruna Gonçalves

por Bruna Gonçalves
Arte: The Nubian Giraffe, de artista desconhecido.

Bruna Gonçalves nasceu no Rio de Janeiro, em 1997. É historiadora, professora de História e mestre pela Universidade Federal Fluminense. Inventário dos objetos de decorar e ferir (Editora Urutau, 2023) é seu primeiro livro de poesia. Faz parte da equipe de poetas do Fazia Poesia.


há dois dias espero
notícias suas
mensagens submersas
em letras de músicas em
guardanapos usados
na cafeteria.

há dois dias a rainha
da Inglaterra aguarda
a entrega do Sunday
Morning
o seu jornal
predileto.

há dois dias indo
aos lugares
com a única expectativa
de despir os casacos e deixar
que observem comentem.

há tanto tempo se sabe
reconhecer uma pessoa
abandonada:
basta um batom vermelho
uma blusa branca chicletes
de menta no bolso um estado
de espírito impassível
o caminhar largo o olho
que chega antes da face.

no zoológico esperam
há dois dias a chegada
do novo animal:
uma girafa
vinda da Indonésia cujo
pescoço de girafa
é o maior do mundo.

a multidão aglomera-se
para assistir a chegada,
sei que junto dela
desembarcam alea-
-toriamente, no portão 4,
dezenas de pessoas.

uma delas: você
(além da girafa,
você) espero-te ali
com uma caixa
de trufas uma mini orquídea
no banheiro ponho um batom
vermelho a blusa branca
chicletes no bolso o estado
de espírito e a passos largos
ao portão 4
o maior pescoço do mundo vigia
o olho que chega antes da face.


os velhos navios
melhor deixá-los
ancorados do que
retirá-los dali:
o custo benefício.

tornam-se quinquilharias
flutuantes e não é raro
que as âncoras de velhas
precisem de reparo.

e se não os mantém, o vento
repousa sereno sobre eles
e carrega-os por léguas adentro
até outro oceano.

mergulhadores arqueólogos
vivem o dilema
das cidades submersas:
posto o fascínio de lado
resta viver com elas.

cerca de metade dos
navios que vês na Baía de
Guanabara já morreram
há cinco milhões de anos
(as luzes são do tempo
das grandes festas).

se amássemos os navios
como os nossos bichos
de estimação ou de pelúcia
daríamos nomes a eles e mesmo
que ocupassem muito espaço ou
pesassem uma tonelada
deixaríamos que dormissem
toda noite sobre nós.


Anna Magnani, 1959

na fotografia vejo
a axila de uma mulher
à luz do sol uma axila
exposta sob a pata do animal.

tantos animais um dia tentaram tocar
essa axila lamber cheirar e conseguiram
disseram sentir por ela
imagino
fascínio assombroso.

uma axila queimada de sol sob
a lente do fotógrafo
sem pêlos que a encubram
que a protejam da radiação uv.

se espreguiça a mulher
deitada
corre em círculo o antebraço
até o dedo indicador adentrar
a cavidade, dentre tantas existentes
esta que segue à mostra.

o dedo faz sobre ela
movimentos concêntricos como se
a imagem se lesse em braile
pressinto pela foto
que você sabe deixar
uma axila à vontade.


Ménage à trois

ler poesia ensina
a usar figuras de linguagem
cujo encaixe exato o
ritmo é mérito
do poeta.

no entanto o fluxo
do poema segue
o seu próprio curso a
leitura elegante é mérito
do leitor.

aprender a cortar o
poema em versos depende
mais da oralidade que
da escrita e se te engana
o poema é mérito
dele próprio.

o poeta sabe
pendurar as estrofes
em ordem exata
como quem constrói uma escada
ou projeta os cômodos.

a maleta de utensílios
do poeta requer:
martelo prego chave
de fenda para fixar
as estrofes pregar os quadros
nas páginas (de papel
ou eletrônica).

se te empresto a chave
do poema convido que leia
comigo ou opine sobre um
verso revise intua um título.

já fui eu mesma poeta
de aluguel emprestei um terreno
amplo as chaves do imóvel
esperei recebê-lo de volta
bem cuidado ainda que
gasto pelo uso.

abandonar o poema
ainda inacabado para
deixá-lo respirar por
alguns dias tornar-se
leitor onde foi poeta.

saber concluir o poema colocá-lo
à venda expulsar os inquilinos
habituais conceder aos
desconhecidos a visita
tudo isso é mérito
dos três: leitor poema poeta.

mas se permitir escalar
os cinquenta andares em lances
de escada e mesmo ofegante
chegar ao topo onde vês tudo
até despencar subitamente
é mérito seu.


nada é permanente na ressonância magnética
doze minutos duram décadas e te esquecem
lá dentro um incêndio
lambe a cidade e ninguém
suspeita o seu nome
na lista de convidados.

pudera a sua presença ser intuída
do outro lado do globo
se vai à Índia
alguém que te espera
no aeroporto de Macau.

dia desses descobriu viver
uma moça argentina
vida idêntica a sua
trabalha nos mesmos
horários frequenta
os mesmos lugares
veste roupas similares e gostaria
de aprender português — pensa
em ensinar a ela os pronomes
possessivos.

um gato que nasce
agora nesse exato instante
sob o viaduto do aterro
sem o olhar de curiosos ninguém
escuta o seu choro frio
e nada desconfia
que um dia será seu.


Arte: The Nubian Giraffe, de artista desconhecido.

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