5 poemas de Rafael de Souza

por Rafael de Souza
Arte: Still Life with Cake, de Raphaelle Peale.

Rafael de Souza é natural de Pedra, no Agreste de Pernambuco. Estudou durante boa parte da infância na região rural, até que, em 2004, realizou o sonho de estudar na sua cidade natal. Cursou Letras em Arcoverde, e hoje está no último ano de doutorado em Literatura na UnB. Já publicou três livros de poesia. O quarto, de título Os grilos também sabem voar, está em pré-venda pela editora Urutau.


DESLEIXO

Deixei teus olhos caírem
no esquecimento
e de tal abismo
nunca mais voltaram.
Hoje, dizem, são moedas
cor de amêndoa
que retumbam
de um fundo poço
e só podem ser vistas
contra o líquido sol
do entardecer.


JÚPITER ENFADADO

O tédio por ficar aqui em cima,
contemplando as passadas dos mortais,
não me exerce encanto, nem me anima…
Sendo sincero, não aguento mais!

Quero, sim, mergulhar numa piscina,
quando não me espojar nos lodaçais
que nem um louco, porque me fascina
desde jovem… Quero pescar no cais,

comer o peixe dos meus companheiros,
com eles beber o vinho de Baco,
cuja garrafa eu mesmo levarei,

e ficar amigo dos mais ordeiros…
Que me chamem logo de deus velhaco,
mas tragam de volta as tábuas da lei!


RECOMPENSA

Ninguém roubará aquilo que é teu.
Seja lá o que façam, não importa,
pois só tu sabes o quanto valeu
e o quanto bateste em janela, em porta,

até uma se abrir… O quanto ardeu,
só tu sabes — e tua mãe, que, absorta,
tanto esperou por ti, pobre plebeu,
e cantarola, adubando-te a horta.

Ela e tu sabem… Vai lá e desfruta:
come agora com ela aquela fruta,
ambos à mesa, como quem, na Ceia

de Da Vinci, se lambuza, e daquilo
ri, e confabula, com rejubilo,
sem (porém) cobiçar a coisa alheia.


IMPREVISTO

Não sei se fico ou se vou,
se sigo ou espero, parado…
Confiante, com medo — ou
se escolho aquele ou este lado…
Não trouxe mapa comigo,
nunca antes fiz fogueira;
não sei construir abrigo…
Ficarei a noite inteira
esperando vir alguém
me buscar, contanto (Deus
queira!) não seja do além…
Mas um lume os passos meus
clareia, e então dou-me conta
de que dormindo eu estava,
de que o dia já desponta
e mamãe me acorda, brava…


BREVE LIGAÇÃO TELEFÔNICA

Vou à estação, mas não tardo.
Espera-me: a maré avança;
e, junto dela, o imenso fardo
que conduzes desde criança

acompanhará a marola,
a qual aos vencidos consola…

Espera-me: ainda não é
tarde; e tu não perdeste a fé
que trazes junto da maré.

Espera-me enquanto, aqui só,
aguardo a vinda do arrebol.


Arte: Still Life with Cake, de Raphaelle Peale.

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