A eletricidade do sentimento

por Enzo Santana Macedo
Fotografia: Praia de Copacabana, ao fundo a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Nascido no ano de 2006, em Teresina (PI), Enzo Santana Macedo é filho de baianos e criado no Maranhão. Sempre teve gosto pela leitura, logo não demorou para que pensasse também em criar histórias.


Apesar dos anos de convivência, um fato ainda surpreendia Elisa: o marido era mais teimoso que o próprio filho. Para ele, a necessidade de passear em família ia além do passeio em si, e isso a deixava num estado de irritação profunda. Não podiam ir à praia nessas condições. As nuvens no céu, juntas e cinzentas, eram um mau agouro para ela, símbolos de mar revolto e vento frio. Robson, porém, ignorava isso como se a natureza obedecesse às suas vontades. Ela, uma mulher precavida, sabia do tempo fechado ao ver a previsão do tempo, tão desacreditada pelo homem ao seu lado. Preferia ficar em casa, isso mesmo, porque era sempre a organizadora de tudo, das malas aos lanches da estrada. De qualquer forma, não deixou de arrumar as coisas, botar o filho numa cadeirinha e passar protetor no rosto enquanto Robson tirava o carro da garagem. Era sempre assim. 

Pela janela, via paisagens emanando melancolia. Rumavam à decepção, ela tinha certeza. Ao olhar para trás, checava o filho, cujo otimismo era parecido com o do idiota no volante. Gracinha. 

Não seria um passeio em família sem o filho, dissera Robson, e, afinal, não tinha quem cuidasse dele por um dia ou dois. Não foi por falta de procura. Ela gastou muitas palavras educadas tentando achar alguém disposto a cuidar de uma criança de colo que quase não dava trabalho. Em troca, foi bombardeada de negativas, também educadas.  A maioria, pelo menos. Assim, ela o levava ao lado de uma bolsa enorme com mamadeiras, fraldas, lenços umedecidos e todas as coisas necessárias para cuidar de uma criatura minúscula. Era surpreendente juntar tudo num lugar só. Acariciou a bochecha do filho, tão macia, com cuidado, para evitar acordá-lo. Difícil acontecer; ele dormia melhor que a mãe. Ela sempre botava o dedo embaixo do nariz do coitado, em noites insones e ansiosas, para confirmar respiração regular e saudável. 

Virou-se para a frente. Já via o mar, cinzento feito as nuvens. Refletia seu humor. Isso a resignou, já chegaram, enfim, não dava mais para voltar de ré. Não foi difícil achar uma vaga no estacionamento, visto que a maioria dos banhistas achava pouco oportuno ir à praia quando estava prestes a chover. Que bela contracorrente eles eram. Ao reparar no olhar lançado pela esposa, Robson não se deixou abalar.

— Relaxa, é chuva de verão. 

De fato, era só um chuvisco, só um vento frio lambendo sua espinha, só uma areia densa e lamacenta. Martelava na cabeça o mesmo pensamento, repetidas e repetidas vezes: não faz sentido ir em praia sem sol. Ela nem se deu ao trabalho de tirar a canga. Colocou o filho, já acordado, em seu colo, tal como uma canguru-fêmea.

— Deixa ele brincar na areia. 

— Eu prefiro assim. 

Dito isso, sem mais discussões. O marido vestia apenas uma sunga, ela prestava atenção na pança de cerveja, nas pernas magras, nos cabelos grisalhos. Era uma análise crua, não podia negar. Ele a chamou para que fossem ao mar, mas ela não cedeu. Preferia ficar com Graciliano — nunca perdoaria o marido por ter usado o nome do primeiro filho para homenagear o avô —, aninhada no guarda-sol. A água, tanto a do mar quanto a que caía do céu, seria apenas de Robson. Ela continuaria seca. 

O raio veio como sua raiva: silencioso. Num piscar de olhos, Robson esteve sob os holofotes de Deus. Foi igual acender a luz de um quarto escuro apenas por uma fração de segundo. Ela viu a luz, mas sequer ouviu um trovão. Viu o corpo do marido tombar no chão, prestes a ser engolido pela água, tão traiçoeira naquele momento. Elisa gritou por ajuda antes mesmo de se levantar, como se pudesse, assim como o marido atingido pelo raio, desafiar a realidade e fazer aparecer um salva-vidas bem na sua frente. Acima de sua cabeça, muitos clarões entre as nuvens. As ondas o arrastavam cada vez mais, e ela não teve escolha senão correr para socorrê-lo. 

Mesmo no verão, pareceu pisar em pedras de gelo enquanto o levava para a areia. Ela tentou carregar, mas não deu conta. Graciliano chorava. As ondas batiam na areia. Os pingos de chuva atingiam seu rosto, assim mesclados às lágrimas. Ela o largou, ciente de que continuar arrastando não ajudaria em nada, e correu até seu celular. Discou 190 com as mãos trêmulas, e depois desligou. O número do SAMU é 192. Apesar de se sentir frágil quando foi atendida, a voz saiu como um foguete. 

— Meu-marido-foi-atingido-por-um-raio-eu-tô-sozinha-com-meu-filho-meu-marido-não-acorda-por-favor-manda-ajuda. 

— Senhora, senhora, por favor, respire fundo. Só vai poder ajudar seu marido se estiver calma, entendeu? A senhora pode checar se seu marido ainda está respirando?

Elisa colocou a mão na garganta, aliviada em sentir o movimento contínuo, semelhante ao que sentia em Graciliano, quando observava seu sono angelical. Pôs um dedo embaixo de suas narinas, apenas para confirmar o ar indo e vindo. 

— Ele tá respirando. 

— Ótimo, já enviamos uma ambulância. Por favor, espere. 

Ela odiou o jeito de falar da atendente. Como se fosse fácil esperar por uma ambulância de tal forma que se espera um lanche atrasado. Robson ainda respirava, mas a que custo? Não saiu da chamada, nem de perto do marido. Ficou quieta.

Graciliano ainda chorava, largado embaixo do guarda-sol — um guarda-chuva, naquelas circunstâncias, o que a fez pensar se guarda-chuvas não viram para-raios. Ficou indecisa entre amparar o filho e continuador do lado do marido atordoado. Logo percebeu que não poderia dar conta de tudo ao mesmo tempo. Na barraquinha, enquanto sussurrava “vai ficar tudo bem” para o menino que não entendia nada, conseguiu avistar a ambulância, sua sirene ligada e o barulho contínuo de urgência. 

Os paramédicos desceram ao encontro da vítima. Robson, bem obediente ao pedido da esposa, não tinha saído de lá. Foi posto numa maca, uma máscara de ar em seu rosto, uma rapidez tão grande que Elisa quase não conseguiu acompanhá-los para dentro da ambulância. Levava o filho num braço e a bolsa no outro. 

Arrancaram e Elisa se sentiu em outra realidade. O trajeto foi rápido, como deveria. Ambulâncias têm permissão para ultrapassar limites de velocidade e sinais de trânsito. De um jeito peculiar, isso a estressou ainda mais. Temia que batessem num carro. Ela ninou o filho sem sucesso durante todo o trajeto, até descer, desajeitada, junto com a maca. 

Ela não podia acompanhar ele na emergência, então ficou na sala de espera. Depois de tanto tempo chorando, o menino dormiu, um considerável alívio para todos ao redor. 

A rapidez dos acontecimentos foi impressionante. 

Ela precisou ir para casa, carregando apenas o filho, suas coisas e a certeza de que Robson viveria. Dias depois, voltou sem muitas expectativas. Ele estava acordado, e trocaram algumas palavras doloridas. Ele ficou feliz em ver o menino, mas não tinha força para segurá-lo no colo. Seguiram-se várias visitas, num progresso lento até resultar em alta. Ainda havia sequelas para a vida toda: queimaduras de segundo grau, músculos flácidos e sistema nervoso descontrolado. Coisas que precisavam de atenção mais elaborada. Sem poder pagar um cuidador, ela mesma arregaçava as mangas. Um médico, amigo da família, aparecia em casa uma vez por semana e fazia o que tinha que fazer. Dava-lhe uma ou outra instrução e depois ia embora. Alguns parentes generosos lhe ajudavam a sobreviver. Apareciam à sua porta, sempre com alguma lasanha ou escondidinho, um brinquedo novo para Graciliano e, é claro, dinheiro para pagar as contas. Conversavam com o acamado — ela ouviu esse termo de uma enfermeira para outra, e o aderiu para si —, e depois iam embora sob algum pretexto. Conforme ele não melhorou, ela conseguiu uma licença de trabalho para manter os cuidados. E assim, a vida seguia seu curso: seres humanos se adaptam ao ambiente onde são deixados. 

Graciliano foi crescendo. Ao mesmo tempo que agradava a Elisa, também a preocupava. O marido já não seguia o ritmo do filho. Ela própria perdia a noção do tempo. Semanas se tornaram meses, imperceptíveis feito água evaporando. 

E afinal, estar no controle das coisas era mais satisfatório do que ela imaginava. Ela cuidava do marido com destreza, achava mais fácil sem suas teimosias. Quando a licença acabou, passou a trabalhar de casa, para ficar mais perto do homem da sua vida. O filho acabou vivendo a vida como podia. Seu pai não lhe era um empecilho, e assim começou a falar, a andar. Era sempre a mãe que o levava à escolinha. A estabilidade é relativa. Ela deu um jeito nas coisas, seus amores se desenvolviam na sua frente. 

Nisso, a melhora de Robson significava um pouco mais que um abalo em seu mundo. Ele voltou a andar com dificuldade, passos trôpegos, até recuperar o gingado normal. Voltou ao trabalho, à sua autonomia. E nos momentos menos esperados, despejava ordens, incapaz de perceber as mudanças no lar. Elisa se esforçava para tolerar, mas era em vão. Brigas constantes atormentavam a todos. 

Numa noite, pela primeira vez na vida, ela teve vergonha de existir. Estavam os dois bêbados, ele mais do que ela. Graciliano, já em idade de frequentar a escola, tinha ido dormir na casa de um primo. Em casa, somente um casal relaxado. A oportunidade perfeita para um vinho de supermercado, depois outro, até perder a conta das taças. E nesse delírio alcoólico, eles quebraram uma tomada. Elisa, tão alta naquela noite, jamais saberia explicar como. Ela só tem uma lembrança vaga de terem mudado um móvel de lugar. Outra cena vívida é que Robson, depois de ignorar seus avisos, bebeu até cair, inerte, próximo aos fios desencapados. A partir daquele momento, só havia uma mulher de pé naquela casa, e não era aquela que o marido e o filho viam todos os dias. Outra. Alguém muito bem escondida, revelando-se apenas na hora certa. Quando o momento apareceu, ela não hesitou. Pinçou um dos fios desencapados com um alicate e aproximou do marido com cuidado cirúrgico. Por dentro, sentia-se um feixe de sentimentos. 

Robson acordou no dia seguinte sem se lembrar de nada, e ela o invejou por isso. As lembranças em sua memória, vívidas e embaralhadas, foram de tamanha tortura que ela perdeu o controle de suas versões. Não sabia por que não continuou com aquilo, já que tinha todas as oportunidades de fazer parecer um acidente, mas se arrependeu como se o tivesse feito. Os dias passavam cada vez mais errôneos, ela se sentia defeituosa. 

Era impossível manter uma família assim. Ao ir embora, deixou Graciliano.


Fotografia: Praia de Copacabana, ao fundo a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

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