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“A monstra é linda e canta uma canção” – a flor cortante de Monique Malcher

por Adriane Figueira
colagem da artista plástica monique malcher para resenha de adriane figueira sobre o livro Flor de Gume, de Monique Malcher

Adriane Figueira é paraense, nascida e criada às margens do Tapajós, mas vive há uma década na capital carioca. Tem um gato amarelo chamado John Lennon. É licenciada em Letras (UFPA), mestra e doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas (USP). Entusiasta da escrita, pesquisadora, revisora, professora e poeta intimista. Revoada do dragão (Patuá, 2021) é seu primeiro livro. Filha do raio e da tempestade, uma lírica desassossegada. Escreve quase todos os dias para não sucumbir ao labirinto dos sonhos e das vontades.


Você sabe o que é “boca de lobo”? No Pará é uma técnica, uma espécie de nó feito com os punhos da rede para deixá-la mais elevada, distante do chão, para “encurtá-la”. Mas por que começar falando sobre isso? Porque estamos prestes a fazer uma longa viagem de barco e as redes são as nossas “camas”, espaços de sono e sonho. 

Monique Malcher é um nome em ascensão no cenário da literatura brasileira contemporânea e um expoente nortista – mulher amazônida do oeste paraense, artista múltipla. Inspiração para todas que escrevem hoje. Agora, também, premiada com o Jabuti na categoria Contos. Flor de gume é o título da sua obra de estreia, editada por Jarid Arraes e publicada pela Editora Jandaíra em 2020. Todas as ilustrações do livro foram feitas pela própria Monique.

Movidas pelas águas inquietas em que a autora navega e que nos convida a navegar, estas reflexões pretendem semear a poética desse rio profundo. Um modo de divulgar, ainda mais, o trabalho dessa mulher-potência que está viva e trabalha e que deve ser lida e celebrada todos os dias. Embarquemos!


Flor de gume é uma reunião de pequenos contos ou prosas poéticas, divididos em três momentos: “Os nomes escritos nas árvores, os umbigos enterrados no chão”, “Quando os lábios roxos gritam em caixas de leis herméticas” e “O reflorestar do corpo, o abandonar das pragas”. Ao fazer referência aos haicais — formato curto de poesia —, os títulos das três partes passam a funcionar de modo independente, porém conectados.

Os percursos abertos pelas narrativas nos encaminham para uma tríade possível: começos, entremeios e recomeços que prefiro utilizar no plural por uma questão de significado afetivo e pela poesia que grita em cada palavra lançada no papel por Monique Malcher. Os contos são cíclicos, as vozes silenciadas de tantas mulheres encontram ressonância nas paredes e chãos da poesia de Monique, ou, como é o caso do Flor, nas águas dos rios da Amazônia, nas teias da memória, nos fluídos orgânicos.

Viajar de barco, embalar na rede ou simplesmente adormecer ao som dos gritos abafados da criança-jovem-mulher-velha, é um exercício ao qual a leitora se propõe, um pacto infinito e silencioso de compartilhar os medos, as descobertas, a violência e o afeto, pois nem só de dor vive a menina dos olhos de rio, há também deslumbramento. A flor que corta é ainda flor e persiste no trajeto entre idas e vindas, entre vida-morte-renascimento.


A linhagem feminina é a tônica do Flor. Silvia é a protagonista em quase todas as histórias e é por meio de suas percepções e memórias que navegamos por águas tão profundas e revolvemos sentimentos tão contraditórios. Há um percurso que como leitora gosto de seguir. Não pulo etapas, mas saboreio com cuidado cada reflorestar desse espaço denso e gigantesco que é a vida de uma mulher — águas fartas e fundas, um rio que corre para o mar aberto.

Retomando o início desse texto, “Boca de lobo” é o primeiro conto do Flor. Nele encontramos a pequena menina que assiste solitária o barco cortar o rio, a paisagem alagada em movimento. Há o medo que atravessa o espaço do olhar, há uma criança que treme ao imaginar um afogamento — seu afogamento. O barco é o território movente, a entrada, a estrada, a origem: “Cortando o rio para chegar em casa, mas ali também era nossa casa…” (p. 17).

A floresta interior é um elemento essencial, os olhos passeiam curiosos por suas umidades, seus perigos, a vastidão vital que a circunda e o apodrecimento das raízes. É difícil falar sobre a prosa poética de Monique Malcher sem, inevitavelmente, me debruçar no afeto. Eu contorno seus textos com um carinho genuíno e admiração orgulhosa, a narradora de Malcher testa a nossa disponibilidade para a escuta e o acolhimento.

Não é possível, neste espaço, falar detidamente de todas as histórias. A cada braçada que dou, submerjo-emerjo com o olhar abismado e maravilhado. Como um corpo aguenta tanta dor, tanto encarceramento? Nossa menina peregrina e sente saudades do que ainda não veio, resiste silenciosa dentro de um cômodo pequeno, embaixo da cama, assiste estupefata o desamor, a violência que lhe rouba a infância e os sonhos. Tropeçamos com o peso do desamparo, as sandálias também não nos cabem, nem os saltos nos são confortáveis. 

A mãe, as avós, toda a linhagem que se dissolve e se reinventa. A força feminina que alimenta o gesto, que engendra os nomes das coisas todas. A cadeira de mogno que espera resistente, o voo e o pouso — o descanso de um corpo ausente. O espaço do esquecimento e da escuridão se consome, a criança morre aos poucos e cede seu lugar a adolescente: “Foi no escuro que os meus olhos encontraram o caminho, não para algo melhor, mas para algo diferente, algo sincero, uma vida sem a preocupação de estar bem o tempo todo. É no escuro que eu vejo verdadeiramente.” (p. 80).

As caixas herméticas não propagam sons. Quando nos deitamos sobre elas tudo é imediatamente encerrado, lacrado, enterrado, seja por terra, fogo ou cimento. Aqui, não. Os lábios roxos gritam, se recusam a deixar partir, conjugam e conjuram um novo verbo, o verbo parir. O parir de novos trajetos, de novas e velhas vinganças, a transformação do ódio, do silêncio e dos arrependimentos. O desfazimento do que é vivo e destrói e machuca.

As palavras sempre ficam penduradas na memória, como os cajus no cajueiro que são colhidos e deixam nódoas. Palavras desenhadas no papel, no tecido e em cada objeto não-perecível. A raiz do corpo é o afeto, como uma árvore frutífera que alimenta e faz sombra. 

Saudade é chave e fechadura nas paragens dessa margem que nunca acaba. Navegamos em devir e choramos com despedidas precoces, a morte física não perdoa e atropela os nossos planos de eternidade. A vida se esvai com a corrente, mas a herança permanece sempre nascente. Remamos para a foz, para o desconhecido que nos aguarda do outro lado, na outra vida que reescrevemos e que nos espera afoita: “Tem um lado de mim que sempre vai cortar, mesmo que o outro caia.” (p. 90).

Silvia agora é uma mulher adulta e convoca seus fantasmas para dançar a dança das Beladonas, das Vênus, das Monstras que sangram e se comprazem diante dos ciclos lunares: “Só quem permanece em mim vai dançar na lua que se aproxima.” (p. 119). O tempo é de colheita, chega de pragas que destroem e corroem o que é vivo, chega de venenos que não se transformarão em antídotos. É iniciado o expurgo dos demônios que habitam o corpo e entram por todos os poros.

O homem que abusa, mata e humilha é expulso desse lugar feminino. A violência com rosto masculino não cabe nesse espaço, o horror está banido terminantemente desses domínios. As aranhas engendram suas teias, as sereias com pernas nadam em redemoinho e provocam tsunamis, as mais velhas anunciam ao longe que é tempo de revolução, as fogueiras espalham as cinzas que fertilizam a terra, o mar saboreia as águas doces que o rio oferece. O aviso foi lançado com os raios que riscam o firmamento.

Jiboias se espalham por todas as colunas e pilastras de uma casa, rosas vermelhas são plantadas no jardim das existências e das despedidas, cartas de tarô são lançadas e desenham probabilidades — a vida em suspensão pede passagem. O movimento das ondas inscreve e apaga pegadas, os substantivos e adjetivos são femininos. A mulher que escreve está de volta ao seu lugar de origem — núcleo fulgurante. A flor é o objeto cortante que desfaz os nós, perfura o concreto e ara o solo: “Tudo era silêncio, e pari palavras para aguentar.” (p. 149).


MALCHER, Monique. Flor de gume. São Paulo: Jandaíra, 2020.


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Mais sobre a obra

“Eu nunca escrevi diários! Isto aqui é um extravasamento, um inventário estilhaçado, sem datas fixas no calendário, sem horários demarcados — guiado por Kairós”. Assim escreve no preâmbulo a autora de cacos retidos na margem, nomeando Kairós como preceptor de sua jornada entre a prosa e a poesia e, nesse simples ato, recusando a medida, a exatidão e a linearidade.

O tempo da palavra de Adriane Figueira é o do extravasamento. Os textos desse livro são desenhos sutis, quase oníricos, de um labirinto de memórias e vertigens que, solitário e vigilante, assoma como possibilidade de um contágio verbal que desoculta as tempestades da nossa experiência.

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