A Fresta #11 – Alexandrian em cinco duplas (PT. III)

por Natan Schäfer
Desenho de Ariyoshi Kondo.

A Fresta é uma coluna quinzenal dedicada às realizações do movimento surrealista e seus entornos.


Alexandrian em cinco duplas: uma quina sobre o escritor Sarane Alexandrian

PARTE III: 
Um fragmento de “Poesia e objetividade” seguido de uma opinião prescindível

Poesia e objetividade (fragmento)

(…)

Se a poesia é verdadeiramente UMA e, apesar disso, multiplicada proporcionalmente à escala dos indivíduos, caso os denominemos com o nome de poetas, tem de existir regras precisas para os capitães do time que, embora sejam variáveis com o tempo, sejam indiscutivelmente admitidas e observadas tanto de um lado como do outro. Basta estudar o papel do poeta no mundo para perceber que quase sempre ele corresponde a uma necessidade sobrenatural mitológica da sociedade. Nas tribos primitivas, onde a poesia é uma realidade comum, o autêntico poeta é o feiticeiro, aquele que possui o MANA inspirador e que, pelo conhecimento familiar do anjo, é o único capaz de conjurar a conspiração das sombras. Nas civilizações avançadas, como por exemplo as orientais, o poeta é aquele que é admitido na intimidade dos deuses e que se esforça para inculcar os princípios de sua sabedoria suprema nos simples mortais; também não é raro vê-lo assumindo um valor profético. Podemos então seguir através das eras o enfraquecimento constante da crença na natureza onisciente do poeta, sua relegação por parte da sociedade ao degredo dos valores ideológicos, e as tentativas que esta mesma sociedade continuamente empreende para sujeitá-lo a uma tradição imutável. Entretanto, hoje em dia, seguindo o impulso inicial dado há cerca de dois séculos por certos gênios de primeira ordem, vemos duas reações simultâneas e concomitantes se manifestarem: de um lado a que tende à exaltação do homem e à sua transfiguração no plano poético; de outro lado, a que tende a devolver a atividade do poeta sua força e nobreza originais. E, de fato, a partir dos impasses morais dos criadores que desejam adaptar métodos antigos a tempos novos, método cuja utilização nenhum rejuvenescimento seria capaz de legitimar, podemos prever que os sucessos intelectuais futuros somente poderão ser garantidos se os poetas, através de uma educação especial da sensibilidade, assumirem por si próprios, através uma verdadeira virada de mesa, o valor mitológico de HERÓI, isto é, ao mesmo tempo de exemplo simbólico de emancipação total e de personagem humano elementar. Mas estas respostas novas a necessidades novas não podem constituir, de maneira alguma, uma escapatória aos problemas de expressão e especulação intelectual (…).

Uma opinião prescindível

Em outubro de 1947 Sarane Alexandrian publica no 62º número da revista Fontaine, dirigida por Max-Pol Fouchet, o texto “Poesia e objetividade”. O ensaio daquele jovem desconhecido de vinte anos viria a chamar a atenção de André Breton, que antes mesmo de lê-lo, lhe escreve a seguinte carta:

Quarta-feira, 12 de março de 1947

Prezado senhor,

Max-Pol Fouchet ainda não me permitiu ler “Poesia e objetividade”, mas a carta que você me enviou diz o suficiente para que eu suponha uma profunda concordância entre nós, concordância menos fundada na recepção que você tem feito do que até agora terá podido ser minha mensagem do que na própria natureza de seu projeto pessoal que, em grande parte, se confunde com o meu. Estou extremamente curioso para saber mais precisamente de que textos será composta a sua coletânea “A Revolução do Amor” (adoro este título) e lhe dou plena liberdade para dispor dos meus.

Eu consideraria do maior interesse publicar algumas de suas páginas no catálogo da exposição surrealista, nas quais apenas seria necessário transpor as principais ideias expressas em sua carta e, sobretudo, aquelas que tocam a criação de uma “mística erótica”. Infelizmente, os atrasos de impressão me obrigam a expedir todos textos até o dia 20 de março. O que você acha?

Será um prazer conhecê-lo. Você poderia me telefonar (Trinité 28-33)? Peço que, por gentileza, confie na minha mais viva simpatia.

                                                                                                        André Breton

Imbuído de todo vigor da juventude e demonstrando uma grande perspicácia, que anos mais tarde faria Alain Jouffroy acusá-lo de pretenso Diderot [1], logo após os primeiros contatos com André Breton, Sarane Alexandrian se torna, como dizem os jornais de então, seu “braço direito” e o “teórico nº 2 do surrealismo”. No entanto, como dissemos na parte II desta quina, ele não permanece ocupando o posto por muito tempo. 

Em meio as tensões já existentes no interior do grupo de Paris na segunda metade da década de 1940 ocasionadas pela posição anti-política de Alexandrian e seus amigos do Contra-grupo H, reunidos ao redor do pintor romeno Victor Brauner, logo se daria um acontecimento decisivo que as levari ao paroxismo: em 1948 o pintor Arshile Gorky comete suicídio. Depois de ter se encontrado com Breton em Nova Iorque em 1944, Gorky trouxe um grande aporte para o movimento surrealista, realizando uma pintura que abria caminhos novos entre as disputas da pintura figurativa e a, assim chamada, pintura abstrata, denominação aliás questionada pelos surrealistas. 

Segundo Marcel Duchamp, Gorky não teria se suicidado devido ao câncer contra o qual vinha lutando, mas por descobrir que sua esposa mantinha um caso com o pintor Roberto Matta, outra figura então central do movimento. Por conta disso, Matta foi julgado pelos membros do grupo surrealista de Paris, que acabaram decidindo por sua exclusão, alegando a “desqualificação intelectual e ignomínia moral”. Segundo Alexandrian, os únicos que não teriam votado a favor desta exclusão teriam sido o médico Pierre Mabille, Victor Brauner, os membros do Contra-Grupo H e ele próprio, o que fez com que ele se afastasse do grupo surrealista de Paris mas, como pontuou mais de uma vez, jamais renunciando à admiração por Breton e aos fundamentos do surrealismo. Portanto, não é à toa que, no editorial do primeiro número da revista Supérieur Inconnu, Alexandrian afirma: nós vamos contribuir para descortinar uma tendência que irá preservar o melhor das conquistas românticas e surrealistas.

Para uma apreciação crítica mais panorâmica e não menos aprofundada da vida e obra de Alexandrian sugiro os artigos “Homenaje a Sarane Alexandrian” e “Nuevas historias extraordinarias de Sarane Alexandrian”, respectivamente publicados por José Miguel Perez Corrales no blog Surrint em 23 de novembro de 2011 e 2 de abril de 2012. Tendo conhecido bem Alexandrian, Corrales sem dúvida faz jus à sua personalidade e memória. No entanto, é com a maior honestidade e sinceridade que me sinto instado a estabelecer aqui um contraponto à apreciação de Corrales. Isso porque tenho um juízo de gosto distinto do dele, mas cuja justaposição me parece capaz de operar, dentre outras coisas, como índice de saúde intelectual, haja vista a carência generalizada de dialética no ocidente.

Infelizmente, não tive contato com a obra romanesca de Sarane Alexandrian e tampouco com a totalidade de seus escritos teóricos. Todavia, considerando aquilo que de sua produção consegui trazer à biblioteca, aos meus olhos lhe falta algo para que o considere uma figura de gênio dentre aquelas se juntaram ao movimento surrealista depois da Segunda Grande Guerra, algumas das quais tanto me cativam. Digo isso pois, sublinho, para o meu gosto, nas produções de Alexandrian faz falta certo humor e um senso de astúcia, para não dizer de malícia. Em Création, récréation (Denoël, 1976), por exemplo, sinto falta de enigmas, hesitações, passagens tortuosas ou vertiginosas, que não se entreguem facilmente nem hesitem em alçar a leitura à estratosfera dos sentidos, pendurando-a em frases que guardam mistérios atrás de cada canto de sorriso, ou mesmo momentos em que, como se diz, o sangue sobe à cabeça. Mas não há razão para estender-se acusando Sarane daquilo que ele não é nem faz, o que seria injusto, até porque, como disse anteriormente, o que ele faz, ele o faz bem, com rigor e competência dignos de notas. Além disso, até onde tenho conhecimento, Alexandrian não foi alguém de meias palavras, mas sim de uma dignidade extraordinária, de posicionamentos claros e decididos, e dono de uma conduta distinta, tão desejável quanto rara.

Inclusive, me parece que é a escrita arejada e por vezes quase didática de Alexandrian que permitiu com que ele construísse uma obra tão extensa. Muitos daqueles cujo gênio é lâmina afiada em couro vivo acabam não constituindo uma rotina capaz de propiciar a constituição de um corpus público, deixando pensamentos lapidares espalhados como farelos de pão pelo caminho, às vezes encadernados em livros como que por um descuido do autor [2]. Temos aí maneiras em certa medida opostas de se comportar com relação às próprias realizações, mas que, cada qual a seu modo, não renunciam ao “fulgor azul que costura as machadadas do lenhador”, como anota Breton em “Sur la route de San Romano”.

No entanto, por mais estranho que isso possa soar, acostumados que estamos à história dos grandes heróis, afirmar que Alexandrian não é genial não constitui demérito algum, pois não implica dizer que sua obra seja absolutamente prescindível. Afinal, em meio a uma constelação tão deslumbrante, é de se esperar que nem todos seus elementos sejam absolutamente brilhantes. Por outro lado, insisto, isso não quer dizer que o trabalho de Alexandrian seja inferior. Pelo contrário, ele não somente é digno de nota pela fecundidade e amplitude dos temas que abarca, mobilizando furor enciclopédico, como também pela competência com que trata dos mesmos.

Em meio à esta vasta produção cabe destacar a História da literatura erótica e a História da filosofia oculta, verdadeiras enciclopédias, ambas traduzidas para o português, publicadas respectivamente pelas editoras Rocco e Edições 70 em 1993 e 1983; ainda no âmbito das histórias, um par de livros especialmente atraentes: A Magia sexual. Breviário de sortilégios amorosos, cuja tradução para o português foi publicada pela editora Antígona em 2002, fruto de uma investigação rigorosa que permitiu constituir um jamais visto catálogo, sustentado por diversos documentos até então inéditos, de algo próximo do que ainda hoje conhecemos sob o nome de “simpatias”, isto é, feitiços que buscam exercer alguma influência sobre a sexualidade humana; e O surrealismo e o sonho, publicado pela editora Gallimard em 1974 e até hoje inédito em português, obra seminal para a compreensão dos fenômenos oníricos e seu papel no seio do movimento surrealista.

E antes de encerrar este capítulo da quina dedicada a Alexandrian, não poderíamos deixar de mencionar sua atuação nos anos 1940 como redator da revista N.E.O.N. — acróstico que na revista se lia como “Não Ser nada Ser tudo Abrir o ser”, e de ponta cabeça como “Nada Esquecimento Ser” [“N’Être rien Être tout Ouvrir l’être / Néant Oubli Être”] — e, mais recentemente, dirigindo a já citada Supérieur Inconnu de 1995 a 2009. Esta última, apesar de um certo ecletismo que, a meu ver, faz com ela perca algo de seu potencial — com o que Corrales parece concordar em sua “Homenaje” —, apresenta um grande frescor, se propondo a arejar o que costuma se entende por “cultura” e contribuindo para afastar os miasmas que tanto afligem aqueles que buscam algo mais do que a confirmação de suas opinões e passatempo para as horas vagas.

Mas, afinal de contas, por que estou me dedicando a apresentar-lhes assim, aos trancos e barrancos e sem nenhum retorno pecuniário, uma figura tão desconhecida do público brasileiro? Por que traduzir escritos de alguém cuja biografia aparentemente parece transcorrer tão placidamente quanto o desenvolvimento de sua obra? Bom, em certa medida, em parte a resposta está contida na pergunta, porém não só. 

Assim sendo, na próxima parte deste quinteto, que se estabelece como os degraus de uma escada, irei esclarecer alguns dos motivos que levaram à sua elaboração.


NOTAS

[1] Embora a crítica de Jouffroy seja discutível, a comparação convém para lembrar que, diferentemente do que o senso comum e os acadêmicos crêem, o movimento surrealista busca, sim, como dizia Goethe, luz, mais luz.

[2] Poderíamos citar vários, mas nos limitamos a um único nome, por sinal grande amigo de Alexandrian: Claude Tarnaud (1922-1991), cujos volumes são efetivamente raros e que mereceriam difusão mais ampla e com urgência de ambos os lados do Atlântico.


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