A Fresta #3 – Relato sobre um estado hipnagógico

A Fresta, por Natan Schäfer
Arte de Jasmina Schidmt para ilustrar A Fresta #3.

A Fresta é uma coluna quinzenal dedicada às realizações do movimento surrealista e seus entornos.


Relato sobre um estado hipnagógico

Tradução de Natan Schäfer

Naquela noite me aconteceu uma experiência estranha ao adormecer. Na mais perfeita calma e escuridão de um quarto fresquinho (a janela fica aberta mesmo no inverno), meu espírito se pôs a vagar e acabei encontrando as sensações e imagens de um sonho que tivera há muito meses. Naquele sonho eu saboreava uma experiência que consistia em aprender a voar à noite em um campo de aviação — a voar sem asas, avião ou qualquer outro meio técnico. Mas foi só eu começar a tentar saber mais sobre meu sonho — o que acontecia na sequência e para onde eu estava voando — que mergulhei em outro fragmento de sonho, um fragmento igualmente singular do qual eu esquecera e que pertencia a um sonho que tive em outra ocasião. Nele eu visitava um vasto museu de natureza-viva. Depois, como em um projetor de slides, a cena mudava novamente à minha revelia, projetando-me em outro sonho antigo, depois outro e mais outro… todos eles sonhos que jamais anotara e, portanto, relegados ao esquecimento. Por mais inapreensíveis e aleatórias que sejam estas experiências, e por mais impossível que seja colocá-las em palavras, elas recaíam no seguinte: correr em uma loja antes de acabarem os saldos, loja com andares inteiros repletos de velhas mercadorias em liquidação (suéteres demodês, vestidos, maiôs, amostras de perfumes fora de linha) só para mim; caminhar por uma montanha até um monastério com um restaurante adjacente; dar uma olhada por cima da cerca de um jardim de inverno numa cidadezinha pendurada em uma encosta italiana; trepar em outras cercas, através de paredes parcialmente desmoronadas; percorrer um enorme mercado de pulgas em busca de roupas e figurinos de teatro usados; caminhar através de campos até um chalé que eu conhecia bem (e do qual um outro sonho me tornara familiar); encostar em uma enseada a bordo de um barquinho (menor do que uma canoa) e observar os banhistas na enseada vizinha; nadar em um lago, levada por uma densa floresta de plantas submarinas; pegar um teleférico para atravessar uma cidade, passando em frente de arranha-céus Art déco, ocupados por escritórios e hotéis, e chegando a um parque de diversões; caminhar pelas estreitas ruas residenciais de uma cidade à beira-mar em Portugal ou na Itália; debruçar-me para fora de uma janelinha em um quarto nu de periferia, incapaz de comunicar-me; chegar a uma cidadezinha francesa depois de ter atravessado vários pomares (e seguir meu trajeto em um mapa); perder-me em lojinhas no interior das muralhas de uma outra cidade; perscrutar do alto um bairro novo de Varsóvia em construção, para além daquela parte da cidade mais associada à minha infância; passar diante de um edifício de escritórios do terceiro-mundo, com vários quilômetros de comprimento, cujos nomes das empresas que se encontram em seu interior são lidos em sua fachada irregular, como contêiners empilhados uns sobre os outros, lembrando a Ponte Vecchio; passear por diferentes gôndolas (papelaria, alimentação, eletrodomésticos) de uma grande loja de departamentos interminável, estendendo-se ao longo de quarteirões inteiros; voar por cima das marquises de arranha-céus do centro e ler as publicidades destinadas aos “asaestres” (por oposição aos pedestres); conversar com um homem idoso dentro de um quarto frio que serve de depósito, com estantes e mais estantes de roupas usadas datadas dos anos 1960 e 1970 e um calabouço sadomasoquista mal e mal escondido; entrar sorrateiramente em um bordel subterrâneo para ficar olhando as dançarinas nuas nas cabines… Naquela noite meu espírito parece ter destrancado um espaço sem forma no qual os sonhos não estavam somente estocados, mas onde também desenvolviam, à minha revelia, uma miríade de interconexões; de repente, e sem esforço consciente algum de minha parte, fui inundada por imagens oníricas esquecidas, que normalmente jamais teria sonhado em reencontrar. Esta facilidade em lembrar-me de meus fragmentos de sonho continuou na manhã seguinte, mesmo estando eu plenamente desperta. O fato de a experiência ter se repetido duas ou três vezes desde então confirma minha capacidade de beber naquilo que poderia ser denominado minha autobiografia onírica — um relato não menos descontínuo do que o interrompido por ele, a saber, o relato da pretensa vida real, interrompida pelas horas de sono e na maior parte do tempo inenarrável e silenciada. A enchente hipnagógica de imagens de sonhos passados colocou igualmente em evidência o caráter incompleto de quase todas as biografias jamais escritas, uma vez que que elas são amplamente limitadas à vida desperta, isto é, limitadas à parte da existência física e psíquica acessível à memória, exposta às influências exteriores e sujeita ao controle da vontade.

Sylwia Chrostowska
Alcheringa nº 4, verão de 2022


Travessias e correntezas de Sylwia

Quando foi que a inteligência ocidental passou a temer o pensamento e a restringir de maneira tão acentuada seus holofotes àquilo que já se encontra previamente iluminado, muitas vezes inclusive ofuscando o alvo? 

Desde seu início, o movimento surrealista se volta contra as correntes da minguante realidade e, assumindo os riscos, se debruça sobre os abismos do desconhecido, do incômodo e da inquietante estranheza. Portanto, já não é uma surpresa que, em vários de seus momentos, aqueles que o animam tenham se dedicado de modo ostensivo e aventuroso aos sonhos e outras atividades noturnas do ser. No entanto, se o movimento costuma ser lembrado anedoticamente pelo seu invulgar interesse pelos sonhos noturnos, raramente é lembrado pela atenção conferida aos estados hipnagógicos e hipnopômpicos, isto é, respectivamente pré e pós-sono, interesse que já se faz presente no manifesto fundador publicado em 1924, no qual André Breton anota a famosa frase que, ao adormecer, batia contra a vidraça [1]: “há um homem cortado em dois pela janela”. São os frutos destes estados que nos ocuparão a seguir.

Contudo, antes de seguirmos adiante, é preciso dizer que a sensibilidade capaz de atrair Breton à fresta que conduz até esta região tão obscura se deve, em grande parte, à atuação como médico-psiquiatra nos acampamentos da Primeira Guerra Mundial e às leituras atentas das obras de Sigmund Freud, até hoje o mais eminente estudioso sobre o assunto. Porém, em a Interpretação dos sonhos (1900), Freud se dedica a investigar sobretudo o sonho noturno e suas mais variadas implicações, ficando a cargo de seu discípulo Herbert Silberer a ampliação das reflexões referentes ao que este último denomina Grenzzustände, isto é, condições-limite que, em geral, configuram uma espécie de umbral ou limiar, zona de grande complexidade e aventura, como, aliás, o é qualquer fronteira. Além disso, me parece que esta região fronteiriça aponta para um dos lugares onde sobrevive no espírito do homem moderno a interpenetração entre a realidade exterior e interior.

Além de Silberer, quem posteriormente contribuirá de maneira considerável para diferenciar o sono dos estados que lhe são próximos, seguindo na trilha apontada por Gustav T. Fechner em Elementos da Psicofísica [Elemente der Psychophysik] (1889), é Gaston Bachelard — que, em “Surrealismo e ciência” (2008), Mattias Forshage [2] denomina “filósofo-da-ciência da casa” do movimento surrealista. Em Poética da sonhação [3], Bachelard elabora a separação entre rêverie e rêve, isto é, respectivamente sonhação e sonho noturno, sobre a qual não nos aprofundaremos aqui, mas que nos serve de baliza.

E uma vez disposta esta e as demais balizas no terreno de partida, podemos seguir adiante com o percurso, rumo àquilo que vem da noite.

Recentemente, ao adormecer, ocorreu-me mais uma vez um sobressalto ao dar-me conta do exato instante em que o pensamento dirigido deixava de sê-lo, passando a, digamos, ser dirigido de uma maneira outra. Suponho que, nos termos de Bachelard em O engajamento racionalista [L’Engagement Rationaliste] (P.U.F., 1972), possamos afirmar que esta maneira outra de direção é suprarracional, como aliás parece ser aquela que guia o pensamento de Leopold Bloom ao fim do capítulo 17, isto é, da “Ítaca” do Ulysses, de James Joyce [4]. Nestes momentos é como se a atividade atribuída ao córtex frontal, isto é, a consciência, desse lugar à atividade mental pré-consciente. E é esta última, isto é, a atividade pré-consciente que, como podemos observar nas experiências de escrita automática e associação livre, faz da via das frases uma encruzilhada de todas palavras [5]. 

Mais precisamente, é como se nos estados hipnagógicos e hipnopômpicos a consciência cedesse o proscênio do palco mental à pré-consciência, que aliás já sussurrava nas sombras do ponto e das coxias ao longo de todo o dia, para só então, ao cair das pálpebras e com o apagar das luzes, assumir a direção e apontar o sentido da cena.

Foi em um desses momentos que, como uma canoa recolhendo os remos e se entregando à deriva das ondas, abandonando à margem reflexões sobre um assunto qualquer do qual curiosamente não me recordo, vi surgirem através do “olho mental” uma série de majores da aeronáutica se perfilando em posição de sentido. 

Se esta lembrança me ocorre como correspondente ao Relato sobre um estado hipnagógico de minha querida amiga Sylwia Chrostowska, bem sei que a imagem em questão não é suficiente para configurar aquilo que Sylwia denomina “estranha experiência”. Tanto porque o relato acima se refere a uma imagem de entressono e não a um sonho propriamente dito, quanto pela falta da “inundação”, isto é, do carrossel do projetor de diapositivos — cujo ruído do ritmo me faz pensar em um Cérbero mordendo o vazio, ruído este que, aliás, poderia ser transcrito pela onomatopeia “nhac”, acróstico de Navegas Hoje Ares Cachoeiras

Contudo, ao lembrar desta experiência hipnagógica também lembrei que não muito tempo depois deste episódio dos majores do entressono, vivi outra experiência, esta sim bastante similar àquela descrita por Sylwia, exceto que no meu caso a sequência associativa que trouxe à tona os destroços dos sonhos me ocorreu em uma situação diferente, em plena luz do dia e na qual não buscava deliberadamente adormecer, embora também me encontrasse deitado.

Ao comentar isso com ela depois de ter lido e traduzido seu Relato, Sylwia que, vale sublinhar, é PhD pela Universidade de Toronto e professora na Universidade de York, me disse que já estava começando a achar que tinha sonhado aquilo e, portanto, se sentia mais segura em saber que eu também vivenciara algo semelhante. Ou seja, seu gracejo indica que a partilha assegura não somente o laço social, como também confere um índice de realidade a um fenômeno que, se fosse tomado como idiossincrático, sem dúvida seria categorizado pelos aristotélicos de plantão como, na voz do cantor Benito Di Paula, “mera fantasia”. 

Isso nos conduz por sua vez ao posfácio à Lojinha obscura [La boutique obscure] (Gallimard, 2010), coletânea de relatos de sonho de Georges Perec. Ali Roger Bastide, sociólogo que teve ampla presença no Brasil, onde residiu e atuou de 1938 a 1984, fundamenta nossa hipótese ao afirmar que

(…) se escrevemos nossos sonhos e os comunicamos aos leitores, estamos transformando o monólogo noturno em diálogo e fazendo da noite uma “lojinha”, portanto um cômodo aberto ao público, a uma clientela, e não um quarto fechado. Assim, o sonho se torna um lugar de troca entre os seres humanos. [tradução nossa]

Embora tenha divergências quanto a algumas nuances da colocação de Bastide, sobretudo no que diz respeito à “clientela”, concordo que a publicação abre um lugar de troca e diálogo.

Lembremos ainda que em seu Relato Sylwia elabora, com a inteligência e sensibilidade que lhe são características [6], uma longa lista de “sonhos” — para ser exato vinte deles —, sendo que mais adiante explicaremos o porquê das aspas. Por enquanto o que importa é que, ao longo desta lista, seguimos um encadeamento vertiginoso, que configura uma espécie de transbordamento e excesso, sintonizando ligações em um ritmo que poderíamos arriscar chamar de “barroco”, ainda que o paralelo barroco e surrealista seja precipitado e mereça uma análise em mais detida. De todo modo, é envolvente acompanhar Sylwia em sua canoa canadense cachoeira acima e descobrir com ela a fresta rugindo através da qual passa a corda que nos eleva em meio a gotas, salmões e destroços de sonhos. Ao longo dessa lista o corte que dá sentido se associa à correnteza, sendo que poderíamos dizer com Vincent Bounoure em Casas [Maisons] (Éditions surréalistes, 1976) que o relato de Sylwia tem

(…) ares de uma balança pesando o fio mal rebobinado das horas, contando ao longo da passagem todos os seus nós, para então verificar amargamente que as tesouras jamais têm razão e que, para fixar o instante em seu primeiro verdor, elas têm de parar no buraco de agulha da fonte.

Podemos designar os nós e engates, isto é, as encruzilhadas desta corda como os elos da cadeia significante compondo a trama do pensamento pré-consciente, o qual serve de trampolim ao inconsciente, inclusive sublinhando com isso que o pré-consciente e o inconsciente não são uma mesma coisa.

Se deslocar e movimentar ao longo destes fios sem linhas e linhas sem fio é caminhar no labirinto que dá sentido à vida e permite extrair e trazer para diante dos olhos a beleza fixa-explosiva. 

Talvez seja por isso que a necessidade de tradução deste texto de Sylwia tenha surgido imediatamente antes da ocorrência de um acaso objetivo, cujos detalhes fogem ao escopo deste texto.

De todo modo, ao abismar-me no Relato de Sylwia não posso deixar de pensar na raridade deste tipo de registro, estudo e partilha voltado aos estados de fronteira. Aliás, só me dou conta disso agora: a primeira imagem hipnagógica que abre a porteira de Sylwia e serve como chave dos campos pertence ao campo semântico da aviação, assim como a imagem que me ocorreu em um estado similar que acabo de relatar acima. Entretanto, Sylwia aprende a voar sem asas e nenhum outro meio técnico, enquanto eu naquele momento não via o voo, mas somente sua hierarquia, atribuindo-lhe portanto um caráter marcial. 

Esta coincidência com diferença, que evoca uma coincidentia oppositorum, me faz lembrar que ao receber concomitantemente os relatos de sonhos de dois dos participantes da coleção “As frutas das samambaias” [7], me surpreenderam as coincidências. Era como se aqueles dois sonhantes ao adormecer acordassem em um mesmo lugar. Claro, com isso se repete a hipótese ou mesmo superstição de René Daumal e Roger-Gilbert Lecomte [8], que supunham frequentar um mesmo lugar após adormecerem e poderem ali encontrar-se.

Entretanto, seguindo e divergindo da hipótese de Daumal e Lecomte, observo que Sylwia e eu estaríamos partilhando não do mesmo lugar de chegada, mas do mesmo umbral, isto é, passando pela mesma porta. Isso constitui uma inversão, pois, normalmente, a porta e o vestíbulo são menores do que o pátio e o cômodo. Como ocorre em muitas festas: as pessoas entram em fila e uma vez dentro tomam conta do lugar. Porém, a coincidência entre minha imagem hipnagógica e a primeira imagem de sonho evocada por Sylwia implica no contrário. Retomando o exemplo da festa, temos que todos entrariam juntos e, uma vez dentro, cada um seguiria seu caminho solitário, que sem dúvida poderia se cruzar com os demais em inúmeros pontos. Nestes pontos de cruzamento, ou seja, na encruzilhada, poderíamos situar a condensação, a identificação e a divergência que permitem a troca e a comunicação. Porém, isto é assunto para outro texto.

Por enquanto, e antes de concluirmos, como anunciado acima, voltamos ao “sonho” entre aspas. Ao designarmos aquelas situações ou imagens de sonhos, todas resumidas em uma sentença, como sonhos, opera-se uma sinédoque, isto é, aquilo que muito provavelmente é uma parte tomada pelo todo. E ainda que seja a única parte da qual dispomos — e ao que parece Sylwia também, visto que ao tentar lembrar de outros detalhes ela se diz projetada para outro “sonho” —, é uma parte, como o é um fragmento de uma ânfora, que não permite trazer água da fonte, por mais que tenha feito parte de uma ânfora.

Com isso não quero dizer que os fragmentos de Sylwia não nos permitem matar nossa sede de maravilhas. Pelo contrário, a partir disso percebemos que, diferentemente de uma anamnese “regular”, em que a lembrança vai descobrindo aspectos de um mesmo objeto ou cena, Sylwia lembra aos saltos, passando de uma cena a outra com grande velocidade, de modo que, ao que parece, são os próprios fragmentos que provocam o desejo por mais fragmentos, visando reconstituir o vaso de maneira quase desesperada. Para eventualmente tornar a compreensão acerca destas associações mais clara, recorro a uma parábola. 

Digamos que Maria vê um colibri abrir com o bico uma garrafa de vinho branco Traminer. Entretanto, ao contar esta história a João, Maria prefere não estender um arco narrativo no qual poderia situar vários detalhes do acontecimento e recordar que fora o simpático Leopoldo quem colocou o vinho na mesa, que a garrafa estava coberta de gotículas refletindo e distorcendo a perspectiva da cena, que as garrafas e as gotículas foram trazidas numa bandeja de metal em cujas bordas se viam signos indistos similares ao da bandeja descrita por Ian Lewis no romance gótico O monge e que depois ela bebeu o vinho, que de fato estava bem gostoso, porque, como João bem sabe, ela gosta muito de vinho branco, sobretudo Traminer, tão caro ali no supermercado do cruzamento das avenidas República Argentina e Água Verde. 

Ao invés disso, Maria prefere dizer que o colibri abriu a garrafa de vinho com o bico, e que esses dias vira na esquina um menino colocar o indicador na boca e fazer “puóc!” ao puxá-lo para fora pressionando-o contra a bochecha, e que há muito tempo vira seu pai desentupir a pia inserindo o dedo no ralo e emitindo ruído semelhante porém mais melequento, e que, aliás, às vezes quando o João enfiava o… e assim por diante.

A meu ver, apenas o par abcissa e ordenada que o linguista Ferdinand Saussure utiliza para esquematizar os eixos paradigmático e sintagmático em seu Curso de linguística geral não é suficiente para organizar a diferença destes tipos de associação — ou ao menos o que retive de minhas leituras sobre semiologia não é.

Portanto, prefiro voltar à analogia canadense: os salmões pulando cachoeira acima dizem respeito ao primeiro exemplo, isto é, a associação descontínua que, porém, vai abrindo círculos concêntricos no interior de uma mesma cena; enquanto o segundo, que consiste na associação a partir de semelhanças bastante evidentes, corresponde à corda atravessando a cachoeira com seus nós.

De fato, sinto que esta tentativa de esclarecimento está mais obscura do que aquilo que ela buscou iluminar. No entanto, serendipicamente, ela serve para suscitar uma pergunta vibrante: não seriam estas duas categorias de associação uma só? E caso lembrar vários detalhes de um sonho não seja a mesma coisa que lembrar de poucos detalhes de vários sonhos, qual a diferença destas lembranças? E por que estas últimas, isto é, as lembranças aos saltos, começaram a ocorrer quando tanto Sylwia quanto eu estávamos relaxados e numa espécie de pré-sono, no caso dela inclusive continuando no dia seguinte e em plena luz do dia?

Aliás, vale notar também que há uma coerência nesse tipo de rememoração. 

Sylwia não passa da lembrança do sonho em que está em uma grande loja de departamentos à, por exemplo, a lembrança de que deveria ter comprado uma geladeira nova numa ordinária loja de departamentos e não em uma de segunda mão em uma duvidosa loja de usados. Sylwia passa de sonho a sonho. E, se assim o faz, cabe perguntar: o que e como definimos uma lembrança de sonho e sabemos que ela é diferente de uma lembrança de infância ou de uma memória recente?

Estas são algumas das perguntas que irrompem das correntezas e que por enquanto seguem em aberto e cujos voos aos quais convidam agradecemos novamente à Sylwia Chrostowska e ao seu Relato de um estado hipnagógico, mirante cuja morada convida aos admiradores e miragens.

Arte de Jasmina Schmidt.

[1] Nota do tradutor: Visto que a mais recente e difundida tradução do Manifesto do surrealismo em português, assinada por Sergio Paxá, é bastante problemática, apresentamos a seguir nossa versão do trecho em questão: 

(…) Então uma noite, antes de adormecer, percebi articulada nitidamente, a um ponto que não era possível mudar sequer uma palavra, mas no entanto apartada do som de toda e qualquer voz, uma frase deveras estranha, que vinha até mim sem trazer em si o rastro dos acontecimentos aos quais, segundo minha consciência admitia, eu estava envolvido naquela época; frase esta que me pareceu insistente, uma frase que, ousaria até mesmo dizer, batia na vidraça. Rapidamente me dei conta dela e já estava pronto para passar ao largo quando fui detido por seu caráter orgânico. Na verdade, aquela frase me espantava; infelizmente, até hoje não a fixei, mas era algo como: “Há um homem cortado em dois pela janela”. No entanto, ela não poderia ser vítima de nenhum equívoco, visto que era acompanhada pela representação visual de um homem caminhando e cortado na metade de sua extensão vertical por uma janela perpendicular ao eixo de seu corpo. (…).

[2] Mattias Forshage (1968) é PhD pela Uppsala University e, segundo José Miguel Perez Corrales, um “fino poeta e lúcido ensaísta”. Foi um dos fundadores do grupo surrealista de Estocolmo e atualmente é pesquisador no Museu Sueco de História Natural.

[3] Seguimos a tradução proposta por Sergio Lima, que prefere verter “rêverie” não pelo habitual “devaneio”, mas por “sonhação”, acentuando assim o caráter ativo e substantivo deste fenômeno. Para maiores detalhes vide O corpo significa (Edart, 1976).

[4] Onde lemos, na tradução de Caetano W. Galindo (Companhia das Letras, 2012) o trecho a seguir, que parece transcrever o adormecimento de Leopold Bloom:

Rumo à cama escura tinha um ovo redondo quadrado de dodó da roca do Simbá dos sete Mares na noite da cama de todos os dodós das rocas de Escurimbá dos Diassolares.

[5] A frase se baseia numa afirmação de Alfred Jarry em Breves Minutas de memorial areia [Les Minutes de sable mémorial] (1894). Devemos sublinhar a polissemia deste título, sendo que em francês “minutes” pode designar tanto “minutos”, isto é, a medida de tempo, quanto “minutas”, isto é, rascunho. Escolhemos “minutas” por ser menos corrente e indicar, pelas forças de seu entorno e de sua sonoridade, os minutos implícitos, cuja semântica é acentuada pelo advérbio “breves”, que não consta no título de partida.

[6] Em 2022, traduzimos e enviamos aos assinantes d’A Fresta impressa um trecho inédito em português do romance A pálpebra [The Eyelid] (Coach House Books, 2020), de Sylwia Chrostowska. Ainda estão disponíveis alguns poucos exemplares. Os interessados em receber uma cópia devem entrar em contato com a editora Aboio.

[7] Coleção da Contravento Editorial voltada à publicação de relatos de sonhos e cujo primeiro volume será lançado dentro de poucos dias em parceria com a editora Arte & Letra.[8] Fundadores do grupo Le Grand Jeu e aos quais a Contravento Editorial em parceria com a Raphus Press está dedicando uma campanha visando à publicação de duas de suas obras. Para maiores informações acesse https://www.catarse.me/3visionarios.

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