A Fresta #5 – Espírito Novo

A Fresta, por Natan Schäfer
Arte: Portrait of a Lady, de Sir Henry Raeburn.

A Fresta é uma coluna quinzenal dedicada às realizações do movimento surrealista e seus entornos.


Espírito Novo

André Breton
tradução por Natan Schäfer

Na segunda-feira, dia dezesseis de janeiro, às cinco horas e dez, Louis Aragon subia a rua Bonaparte quando viu vindo em sentido inverso uma jovem mulher vestida com um tailleur quadriculado bege e marrom e usando um chapeuzinho toque do mesmo tecido que seu vestido. Ela parecia estar com muito frio apesar da temperatura relativamente amena. Graças à luz da livraria Galo, Aragon constatou que ela era de uma beleza pouco comum e que particularmente seus olhos eram imensos. Ele teve vontade de pará-la, mas se lembrou de que só tinha dois francos consigo. Ainda estava pensando nisso quando André Breton o encontrou no café Deux Magots. “Acabo de ter um encontro impressionante”, diz este último logo ao sentar. “Ao subir a rua Bonaparte passei por uma jovem moça que a todo instante ficava olhando para trás, ainda que, ao que tudo indica, não estivesse esperando ninguém. Um pouco adiante, na rua Jacob, ela fez que estava interessada na vitrine da loja de gravuras, de maneira que um transeunte inacreditável, absolutamente imundo, que a havia notado, dirigiu-lhe a palavra. Eles deram alguns passos juntos e se detiveram para bater papo, enquanto fiquei parado não muito longe dali. Logo eles se separaram e a jovem moça então me pareceu ainda mais desorientada. Ela se virou um momento sobre si mesma e depois, divisando um personagem de aspecto subalterno que estava cruzando a rua, foi bruscamente até ele. Alguns segundos mais tarde, eles subiram no ônibus “Clichy-Odéon”. Não tive tempo de alcançá-los. Pude observar que eles ficaram na parte externa do ônibus enquanto um pouco acima naquela mesma rua o homem gordo de há pouco permanecia imóvel, como que vítima de um arrependimento”. Aragon, como dissemos, parece ter sido golpeado sobretudo pela beleza da desconhecida e Breton pelo seu jeito de vestir-se tão alinhado e aquele jeito tão “jovem moça saindo da aula” com um não-sei-o-quê de extraordinariamente perdido em sua atitude. Estaria ela sob o efeito de um estupefaciente? Acabara de produzir-se uma catástrofe em sua vida? Aragon e Breton tinham muita dificuldade em compreender o interesse apaixonado de ambos por esta aventura que lhes escapara. O segundo estava persuadido de que, ainda que tivesse visto a jovem moça indo embora de ônibus, ela ainda estava no mesmo lugar da rua Bonaparte. Ele quis tirar a cisma. Ao sair, encontrou André Derain, que lhe pedira para esperá-lo no Deux Magots. “Voltei de mãos abanando”, dizia-lhe Aragon alguns instantes depois. Nenhum dos dois podia resignar-se àquela decepção e, quando Derain chegou, não puderam evitar confiar-lhe o porquê de sua emoção. Eles mal começaram a fazê-lo quando Derain lhes interrompeu: “Uma roupa quadriculada!”, gritou ele, “mas eu acabo de encontrá-la em frente a grade de Saint-Germain-des-Près; ela estava com um negro. Ele estava rindo e até mesmo o ouvi dizer textualmente: ‘Vai ser preciso mudar’. Antes disso, vi de longe essa mulher parar outras pessoas e fiquei um instante esperando que ela viesse falar comigo também. Estou certo de jamais a ter visto por aqui, e no entanto conheço todas as moças do bairro”.

Às 6 horas, Louis Aragon e André Breton, não podendo renunciar a desvendar o enigma, exploraram uma parte do 6.º Arrondissement: mas em vão.


Começa aqui um tríptico em três tempos. E, antes de prosseguir, é preciso justificar a redundância. 

As unidades que compõem esse tríptico estão organizadas em ordem cronológica. No entanto, os acontecimentos que registram ocorrem, de certa maneira, à margem da história. 

Reunindo três traduções de textos inéditos em português — acrescidos de uma coda igualmente inédita —, acreditamos colocar à disposição do público uma das chaves rumo ao “espírito novo”.

Sem dúvida, o rótulo mais fácil com que os críticos qualificariam este conjunto é o de “inclassificáveis”, o que não impede que tentemos uma descrição, de modo a permitir a apreensão de aspectos que possam estender e intensificar o brilho para além do deslumbramento do primeiro impacto.

Estes escritos partilham de uma mesma origem: a Erlebnis, isto é, a vivência. E se recorro primeiro ao idioma alemão não é por mera pedância, mas porque a vivência foi tão surrada pela publicidade que não seria motivo de espanto alguém esquecer-se daquilo a que ela diz respeito, isto é, como nos lembra o dicionário Caldas Aulete, ao “fato de viver, de ter vida”, de “experienciar” e “viver algo”. 

Aliás, se me permitem um rápido parênteses, a meu ver é este sequestro que talvez permita justificar a afirmação do filósofo Byung-Chul Han, em Não-coisas (Vozes, 2022), de que “hoje queremos vivenciar mais do que possuir, ser mais do que ter”. Ora, o ponto é justamente que o que hoje é tido por “vivência”, apesar de partilhar do mesmo nome aquela de outrora, não é uma vivência mas uma denegação, que se nomeia desesperadamente como “vivência” justamente porque não é. O fato de tantos coletivos, empresas e congêneres venderem “vivências” parece delatar de maneira clara que, se querem nos vender isso com tanta insistência e pretensa “benevolência”, ou é porque nos roubaram, ou porque fomos privados, ou ainda porque temos de sobra e, portanto, não precisamos — embora o mercado pretenda mobilizar nossa fantasia e o pouco de realidade dada de maneira a fazer-nos, finalmente, comprar e, pior, “adorar”.

Voltando ao tríptico apresentado nest’A Fresta, o fio de Ariadne que o atravessa e coloca seus elementos em um mesmo tempo é o acontecimento que registram, momento em que algo se manifesta trazendo consigo o espanto do maravilhoso. Digo espanto pois Ferreira Gullar, um dos poetas brasileiros atentos ao surrealismo, assim denominava estas frestas no ordinário cotidiano. São momentos em que a realidade reivindica seu mistério e revela a exuberância de seus signos. Ao destituírem por um instante o juízo, devolvendo o trono às sensações, estes momentos desconcertantes fazem carreata na via real rumo à memória, ali então garantindo seu lugar.

Neste primeiro elemento do tríptico, André Breton mobiliza uma síntese antinômica, ou seja, coloca lado a lado o maravilhoso e a razão científica. Dito de outra maneira, temos que, para registrar o maravilhoso, Breton dispõe e articula a gramática científica que lhe foi legada por seus estudos de medicina. Inclusive, o “estilo” deste texto, publicado no primeiro número da nova série da revista Littérature, de 1º de março de 1922, é justamente aquele que será articulado mais longamente em Nadja (1928), escrita estetoscópica que toma o pulso do acontecimento e ali ouve o ritmo do universo. 

Antes de prosseguirmos, cumpre uma precisão “genética” quanto a este texto. A localização de seu manuscrito nos arquivos de André Breton nos permitiu observar que ele não é apenas de seu próprio punho, mas também do de Louis Aragon, configurando-se portanto como um texto escrito à quatro mãos. Embora a menção ao nome de Aragon não conste republicação do texto no volume Les pas perdus (1924), vale notar que o texto publicado anteriormente em Littérature não traz assinatura alguma, isto é, nem de Breton e tampouco de Aragon. Portanto, ao que parece isso mais uma vez sublinha a partilha do pensamento [mise en commun de la pensée] tão característica dos surrealistas e uma mudança de enfoque no que diz respeito à autoria e ao estatuto do escrito e publicado.

Já que falamos de descrições, é preciso dizer que há os que denominam apressadamente essa escrita como “sismográfica”. Se contesto esta designação é porque a metáfora do sismógrafo é hoje quase um clichê em se tratando da movida surrealista. O uso que José Miguel Perez Corrales fez dela recentemente para denominar as produções de Soupault, este sim se justifica — basta olhar os desenhos [1]. Porém, é preciso tomar cuidado para que adjetivos telúricos — e.g. vulcânico, fulgurante, torrencial, trovejante, elétrico, abissal, sísmico — não percam seu valor afetivo devido à inflação ocasionada pela reprodução a torto e a direito com o intuito de negar o silêncio do coração e atender a demandas arrivistas e outras nada nobres. Como clama Breton no Manifesto do surrealismo (1924): “Quero que nos calemos quando deixamos de sentir”. E não podemos deixar de sublinhar o quão revoltante é ter de ouvir tagarelar quem não sente e o quão angustiante é manter silêncio quando o coração bate forte.

Ao buscarem descrever com objetividade o acontecimento, estes relatos encontram a poesia desembaraçada de ouropéis e adornos literários mais ou menos fajutos. É curioso notar que, aparentemente, este registro parece opor-se a outras formas de escrita bastante refinadas que inclusive o próprio Breton desenvolverá ao longo do tempo. Por exemplo, em Martinica, encantadora de serpentes, acompanhado por André Masson, Breton dá passagem à imagem vertiginosa, abrindo de par em par as comportas da fantasia e permitindo que ela se misture à descrição pretensamente objetiva dos fatos, como em um carburador a gasolina se mistura ao ar.

É claro que os surrealistas têm seus antecessores: Blaise Cendrars, Michel de Montaigne, Hildegard Von Bingen, Pausânias e muitos outros. Porém, mais do que traçar uma árvore genealógica, convém perceber a antiquíssima atualidade deste “espírito novo”, assim batizado por Guillaume Apollinaire logo após a Primeira Grande Guerra.

Digo isso pois penso que o textos deste tríptico bem poderiam ser vistos como similares dos textos de blogue característicos do início dos anos 2000. E talvez, de fato, eles partilhem com os textos de blogue aquilo que estes últimos têm de melhor. 

Na minha pré-adolescência o blog desempenhou um papel fundamental nas primeiras experiências de escrita automática. Arriscaria afirmar que ele foi mais importante do que as redações solicitadas no colégio, com as quais consegui obter algumas notas 10 utilizando a escrita automática. Não só por permitir a partilha ingênua de algumas experiências cruciais da adolescência, inclusive do fluxo do pré-consciente, mas por oferecer uma forma em uma plataforma extra-literária. De modo que o blog foi em parte, se não o carburador, o tanque que me permitiu descobrir a vertigem da prática do automatismo por escrito.

Porém, ainda que os relatos que compõem este tríptico tenham o mérito de, por seu acentuado aspecto anti ou extra-litérario, antecipar os blogues, indo buscar a experiência em estado bruto, eles são mais poderosos pois não são restritos pela rede — embora, evidentemente, nada os impeça de circular por ela, como está ocorrendo agora. Além disso, o blogue induz a um compromisso, uma periodicidade que o aproxima do diário, do jornal. Entretanto, como afirma Breton em “Sur la route de San Romano”, o ato de poesia é incompatível com a leitura do diário em voz alta e não se grita aos quatro ventos. Além disso, os encontros com o maravilhoso não podem ser programados. Eles acontecem como a pesca com anzol. Aguardar é necessário. Ir em busca, claro, para que a surpresa apareça. Entretanto, jamais é possível materializar o acontecimento como em uma ligação encomendando uma pizza. Será preciso dizer que não é possível encomendar o maravilhamento?

Quanto a isso, vale também lembrar que não é todo dia que os aborígenes da Polinésia saem à caça e voltam para casa com um javali nas costas. Se hoje nos alimentamos em grandes buffets servidos com pratos de todos os tipos, eis aí o fruto de uma conquista que permitiria um festiam, uma feast diária, embora o caráter festivo e gregário da refeição seja cotidianamente deixado de lado. Quem me alertou para isso, aliás, foi Sergio Lima, ao dizer que toda refeição é uma festa. E qualquer um que já tenha participado de uma boa festa sabe que para que ela aconteça não basta providenciar comida, bebida, música e convivas. Há um mistério que faz a festa.

Dito isso, podemos seguir adiante.


[1] “Philippe Soupault sismógrafo, o el sueño del autómata”. Disponível em : < https://surrint.blogspot.com/2023/02/philippe-soupault-sismografo-o-el-sueno.html >; acesso em 9 de maio de 2023.


Arte: Portrait of a Lady, de Sir Henry Raeburn.

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