A Fresta #8 – Coda em três partes para um tríptico em três tempos [1]

por Natan Schäfer
Fotografia: Estrada da Gávea – Augusto Malta (Acervo Instituto Moreira Salles).

A Fresta é uma coluna quinzenal dedicada às realizações do movimento surrealista e seus entornos.


Não é para nosso prazer que exibimos esses desvios, 
mas, antes, para, com seus escolhos, fazer balizas para nosso caminho.
Jacques Lacan, “A direção da cura e os princípios de seu poder” (1958) [2]

O que se segue provavelmente aconteceu em 2022 ou 2021. Não consegui encontrar nenhum registro ou anotação do relato, de modo que a recorro à memória.

Eu estava passando pela Estação Tubo Petit Carneiro quando fui interpelado por uma senhora de idade. De imediato, fiquei desconcertado, pois achava que se tratava de uma tia-avó, conhecida como “Tia Mirtes”. Como ela se dirigiu a mim de modo muito familiar, eu estava com a frase na ponta da língua: “o que você está fazendo aqui?”. Porém, antes que enunciasse a pergunta, ela começou a me interrogar. Se bem me lembro, perguntou de onde eu era e de quem puxara aqueles “olhões lindos”. Ela disse que tinha oitenta anos, mas ainda estava bem e disposta. Me dei conta de que, apesar da grande semelhança, não se tratava da tia Mirtes. Ao chegar em casa ainda desconcertado, sem saber bem porquê, resolvi compartilhar aquele ocorrido tão estranho com meu amigo Sergio Lima. Foi então que fiquei completamente arrepiado ao ouvi-lo dizer que Mirtes era o nome de sua mãe.

Curitiba, 1 de outubro de 2023


Depois de anotar o parágrafo acima, encontrei a transcrição direta da conversa com Sergio realizada na época do ocorrido e que apresento abaixo. As inserções entre colchetes são interpolações no próprio áudio ou adicionadas a posteriori.

Acaso objetivo, 25 de novembro de 2021

Natan: Boa tarde, Sergio! Antes de mais nada, muito obrigado pelas indicações, pelos comentários; e, Sergio, agora quando eu estava indo ao Correio ocorreu algo muito inusitado e que parece constituir um acaso objetivo. Foi o seguinte (se você me permite vou contar aqui, né, rapidamente): no caminho, quando parei para cruzar a rua, perto de um tubo de ônibus, né, daqui de Curitiba… é… eu não percebi, mas enfim, saiu uma senhora de dentro — eu estava parado com o braço direito na cintura — e ela pegou no braço e falou alguma coisa que eu não entendi bem. “Ah, fique com o braço assim, não fique”, alguma coisa do tipo, como se fosse me enganchar pelo braço, né, alguma coisa do tipo. E eu me confundi no momento. Essa mulher é muito similar à uma tia da minha mãe — tia Mirtes, lá do lado italiano da família. E aí ela começou a conversar comigo. Falou “ah, mas e esse olhão azul aí”. Falei “não, é italiano e alemão” e tal. “É da onde?”, ela perguntou então. Falei “é de Santa Catarina” [ou talvez tenha dito “italiano”] e ela falou “eu também sou de Santa Catarina, de Araranguá, mas morei 30 anos em Porto Alegre e agora estou há 50 em Curitiba — tenho 81”. E quando estava indo lá pro outro lado [i.e. cruzando a rua] “mas é, e quando você nasceu?”. “Ué, 12 de janeiro” [respondi]. “Ah, meu filho nasceu dia 18, (fulano) dia 16 (não lembro exatamente se era esse o dia) [também me parece que mencionou mais alguém, um filho dele, enfim, mais alguém e o dia 27 de dezembro]”. Ela falou “todos capricornianos… todos… (papapa) ricos”. “Vão ficar ricos, só não fica rico porque não quer”, enfim, não consegui entender direito porque estava meio desconcertado com a situação toda. E, para além disso tudo, Sergio, o que me chamou atenção depois, pensando, e [também] já no momento, foi que tinha um quadrado, ela tinha um quadrado na blusa que ela estava usando, azul, azul-marinho, assim, bem intenso, de veludo. Muito similar àquele que a gente usou para encadernar A boca da sombra que te ergue branca e muito similh… similar ou semelhante à logomarca da Fundação Cupertino de Miranda. E aqui estou eu pensando: será que não tem alguma coisa aí, com a Fundação Cupertino de Miranda, Sergio? Por que me pareceu um… pode ser paranoia minha — né, heh — mas eu fiquei pensando “que que tem com a Fundação Cupertino?”. A única coisa que sei é que eles estão fazendo a Semana Cesariny por lá, mas… fiquei bastante interrogado. A situação me deixou muito desconcertado. Mas enfim, é isso. Logo na sequência eu estava comprando os envelopes ali, além de ir pro Correio, comprando os envelopes para enviar a Promenade de Vénus [3]. E aí, por isso que eu resolvi comunicar, porque me parece que tem muitos signos aí, que eu acho que talvez falem algo para você, talvez até mais do que para mim. Mas, bom, a princípio é isso. Então, sigamos, sigamos. Forte abraço, Sergio.

Sergio: Natan, obrigado pela narrativa. É um acontecimento incrível. Mas ao contar a narrativa, você falou de uma irmã da sua mãe, tia, de nome Mirtes — não é verdade?

Sergio: Então, essa tia do lado italiano da família, Mirtes, é o nome da minha mãe — simplesmente, viu, Natan. Que coisa, hein?

Sergio: A magia nunca é imediata, porque ela funciona por aproximações. Então, o perturbador é que a gente sente essa proximidade, o perturbador não é o fato em si, é esse tempo outro que se instala.


Ao elaborar esta coda, buscando pelo áudio da transcrição acima, encontrei outra anotação minha, também em áudio, cuja transcrição apresento abaixo, a qual sofreu apenas pequenas e pontuais correções e alterações.

A princípio o acaso objetivo diz respeito a uma co-incidência, isto é, uma incidência dupla ou multiplicada de algo que pode se configurar como um acontecimento e, assim, permitir interpretações. Ao que parece, isso se dá pela insistência de um significante. Esse significante pode abrir para o a-caso, isto é, o acasalamento do objeto a com alguma coisa. Esse casamento novamente nos conduz à coincidência de dois eventos que se acoplam. Mas por que isso é objetivo? Não seria justamente isso uma manifestação subjetiva do acaso?

O acaso objetivo dissolve a percepção diacrônica e cronológica do tempo. É como se a gente determinasse o que vai acontecer anteriormente — como se alguma coisa anunciada determinasse o surgimento daquilo que vem, e que é constatada a posteriori com esse sentimento de Unheimlich [estranho] diante da coincidência que nos leva a pensar que haveria uma força maior regendo aquilo, o que conduz, via de regra, rumo à uma metafísica. Nesse sentido, o objetivo aí parece que evitaria a metafisização do acaso. Certamente, esse sentimento pode dar lugar ao maravilhoso.

Se não for dedicada atenção a esse acontecimento, de modo a transformá-lo em um acontecimento, ele se interrompe na coincidência. Caso seja interpretado e estendido, a extensão permite o desvelar dos fantasmas. Assim, o que poderia ser a princípio banal assume um caráter ominoso e pode servir à descoberta do desejo.

Cumpre lembrar também que o acaso objetivo não se situa, ou não cede, não é apreensível ou governável, pela consciência ou pelos imperativos do Eu. Até pode ser possível provocar [deliberadamente] uma coincidência, porém não o maravilhamento ou a surpresa em si mesmo. Via de regra, é impossível se autoespantar, dar um susto em si mesmo. Talvez o fato de que ninguém possa dar um susto em si mesmo tenha que ver com não poder experienciar a própria morte, apenas sendo possível inscrevê-la no inconsciente mediante a experiência da morte alheia.

Curitiba, 17 de janeiro de 2022.


NOTAS

[1] Para saber mais sobre o tríptico em questão, iniciado em 24 de maio de 2023 — e composto por “Espírito novo”, de André Breton; “Saindo de casa…”, de Jacques Halpern; e “Um encontro”, de Eugenio Castro — acesse < https://aboio.com.br/a-fresta-5-espirito-novo-andre-breton/ >; 

[2] Escritos (Jorge Zahar Editor, 1985). Tradução de Vera Ribeiro.

[3] Lima, Sergio. La promenade de Vénus. Nîmes: Vénus D’Ailleurs, 2022. Tradução de Natan Schäfer.


Fotografia: Estrada da Gávea – Augusto Malta (Acervo Instituto Moreira Salles).

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