A Lança de Anhangá

por Ricardo Lima da Silva
Fotografia: Igarapé de Cachoeira Grande – George Huebner/Acervo Instituto Moreira Salles.

Ricardo Lima da Silva, 1984, nasceu em Manaus, mas vive em Manacapuru, interior do Amazonas. Doutor em Ciências Sociais pela UNESP, venceu o Prêmio Literário Cidade de Manaus em 2022 na categoria nacional com o livro de contos A Lança de Anhangá, no prelo. É autor também de O Fim de Todas as Coisas (2021) e colaborou em revistas e antologias de ficção científica, horror e fantasia.


I

O sol brilhava com sua força máxima quando aquela milícia de dez homens entrou na aldeia da tribo Munduruku: um descampado rodeado de casas de palha em chamas, cujo cheiro era uma mistura de suor e carne queimada. Equipados com fuzis e máscaras de gás, locomoviam-se devagar, fazendo gestos lentos e ensaiados. O ruído dos aviões de bombardeio espantara a maioria dos habitantes. Os que ficaram para trás foram atingidos pela nuvem de veneno.

A aldeia foi abandonada às pressas. Roupas, alimentos e outros utensílios amontoavam-se pelo chão, junto a alguns corpos daqueles que não conseguiram fugir da chuva de gás mostarda disparada por um avião pulverizador.

— Esse aqui morreu de cu para cima — disse o miliciano Carlos Barbosa, apontando para o cadáver de um homem que jazia com as nádegas arqueadas para cima. Carlos cutucava o ânus do homem com a ponta do fuzil.

Outro integrante do grupo paramilitar, chamado Márcio Lima, observava tudo com os olhos miúdos. Estava logo atrás, e disse:

— Temos que liberar isso para o pasto.

— Pensei que fosse para garimpo.

— O garimpo é só depois — falou Chico da Cunha, que se juntou a eles naquele momento. — Daqui a gente precisa subir o rio e confirmar se tem ouro. Aí nosso amigo vai dar a segunda parte do pagamento.

Uma casa desabou pela ação das chamas.

Ouviram o choro de um cachorro atrás de uma das casas de palha. Carlos foi averiguar. Retornou segurando um cão marrom pelo rabo. Jogou-o no chão. O animal contorcia-se de dor por conta do gás tóxico.

— Olhe aqui — disse Carlos.

— O que você quer fazer com isso? — respondeu Chico.

— Sei lá. Só achei muito doido.

— Mate logo.

— Tá bom.

Um tiro de fuzil ecoou por toda a floresta. O corpo do cachorro ficou ali, com a cabeça estourada e os miolos espalhados.

— Vamos embora, daqui a pouco chega a Polícia Federal — Márcio tinha o ar preocupado. — Nosso contato falou que a chegada das viaturas poderia atrasar, mas não tanto.

Chico, que estava acendendo um cigarro, perguntou:

— E o nosso amigo lá em Brasília?

— Ele disse que vai dar uma tranquilidade para a gente.

O Sol foi encoberto por nuvens de chuva. Ao fundo, o igarapé corria com despreocupação. A floresta erguia-se ao redor deles como uma grande massa verde-escura, de onde era possível ouvir folhas mexendo, animais andando pelo chão macio e pássaros cantando.

— Ouviram isso? — perguntou Márcio, olhando para a muralha verde, que era a floresta.

— O quê? — respondeu Carlos.

— Esse som estranho — caminhou até as árvores, e ficou escutando. Era um ruído áspero, sincopado, quase gutural. Alguma coisa respirando. Ele teve a impressão de ver um vulto movendo-se, escondendo-se atrás dos troncos. — Ali, ali! — gritou e apontou o fuzil.

A floresta permanecia em silêncio. As copas das árvores eram tão densas que as luzes do sol mal conseguiam ultrapassá-las.

Quando Márcio fez um movimento de que atiraria, Chico interrompeu:

— Foda-se! Você está bebendo demais.

— É mesmo… — baixou a arma.

As casas de palha e as malocas arderam sob o sol escaldante. Famintas, as chamas consumiram desde os cadáveres no chão aos pertences que os refugiados deixaram durante a fuga. Vasos, roupas, brinquedos e outros utensílios dissolveram-se nas labaredas. As colunas de madeira das casas enegreceram, partiram-se. Aos poucos, as construções desabaram em cinzas e combustão. Não demoraria para os cadáveres dos animais e das pessoas que ali jaziam transformarem-se em massas disformes de ossos retorcidos e carne torrada. A fumaça dissolvia-se no céu descarnado de nuvens.

Enquanto a aldeia chamejava sob o sol da tarde, o grupo paramilitar recolheu-se na floresta, e sumiu entre as trilhas.

II

A Polícia Federal chegou ao local muito depois da correria. A notícia de mais uma invasão, mesmo com gente importante em Brasília tentando abafar o caso, gerou grande repercussão no Brasil e no exterior. Os contatos dos milicianos na Polícia Federal tomaram as providências para os informar sobre as investigações e apagar os rastros.

Duas semanas depois, os três saíram em mais uma expedição subindo o Rio Cururu. Planejavam alcançar uma região de difícil acesso perto da nascente, rica em ouro e outros minérios, por isso a necessidade de um grupo mais enxuto e discreto.

Era uma região acidentada. Usaram um pequeno barco a motor, até que o estreitamento do rio e a sinuosidade do seu leito forçaram-lhes a abandoná-lo e seguirem a pé. Demoraria semanas para atingirem as nascentes. O calor e a umidade tornavam a caminhada severa; os três suavam a ponto de as roupas ficarem grudadas em seus corpos, e os insetos nunca desistiam de atormentá-los, entrando pelas narinas e ouvidos. À noite era pior. Ruídos de coisas sinistras andando pela barraca, como cobras e outras criaturas da noite, tornavam o repouso conturbado, quase impossível. Márcio não cessava de dizer que estavam sendo observados:

— Tem algo ali atrás, vocês viram aquilo?

— Tem nada aí, porra!

— Tem sim! Vi uma cabeça se escondendo!

— Que cabeça, cara?!

Quando averiguaram o lugar onde o suposto espião se escondia, atrás de um velho pé de copaíba, só encontraram alguns arbustos e um calango assustado, que se escondeu por entre as folhas secas.

— Está ficando doido?! — falou Carlos, com mau humor.

— Porra, eu vi, tinha uma coisa aí!

— Que coisa? Só fica enchendo o saco com essa porra de assombração.

— Fale direito comigo!

— Então pare de foder a paciência com isso, está bebendo desde que a gente saiu da fazenda e fica tendo alucinação!

— Eu vi, porra!

— Tá bom, gente! — disse Chico, tentando aplacar os ânimos. — Deve ter sido só um reflexo do vento nas folhas.

Enfiado no saco de dormir, Márcio refletia. Sabia que havia algo além das colinas, algo que os espionava desde o ataque aos Munduruku. Algum agente da Federal? Impossível. Eles saberiam. Algum índio que escapou? Talvez não. Aquela área foi toda averiguada antes e depois da invasão. Então, o que era? Pegou a garrafa de pinga guardada no bolso, e deu um gole. Em volta, o mundo dormia na soberana quietude. As folhas balançaram sob a vontade de uma brisa fria e agradável. Sentiu sono. Os membros relaxaram, e as pálpebras ficaram mais pesadas. Lembranças vieram, como a do índio devorado pelas chamas e de outros que ele matara durante todos esses anos fazendo serviços para fazendeiros e madeireiros. Lembrou-se de uma antiga correria para desapropriar uma terra de quilombolas. Não foi tão fácil, porque eles estavam armados. Foi uma luta sangrenta, mas o pessoal com quem trabalhava sempre sabia o que fazer. Faltou munição para matar tanta gente, mas não sobrou ninguém. Ganhou muito dinheiro àquela época. Olhou para os companheiros, repousavam em profunda respiração. Eles lembrariam das cabeças dos negros gordos, pesando milhares de arrobas, que enfiaram em uma estaca quando terminaram de limpar o quilombo? Tomou mais um gole de pinga. O sono ficou mais forte. Fechou os olhos, e caiu na escuridão dos sonos sem sonhos.

Pousada sobre um galho de seringueira, uma coruja rasga-mortalha observava-os com olhos graves e penetrantes.

III

Passaram o dia andando com as mochilas nas costas, seguindo o curso dos rios, adentrando clareiras e percorrendo trilhas abandonadas quando chegaram à cabeceira do Cururu, aquela região abandonada do mundo.

— Vamos armar nossa barraca aqui. Amanhã a gente continua — disse Chico.

— A gente pode usar essa gruta como abrigo — respondeu Carlos.

Estavam em uma área baixa, perto de um pequeno igarapé que corria ao lado de uma íngreme elevação. Sobre eles, as copas das árvores escondiam o céu que esmaecia de maneira estranha, lembrando as órbitas de um moribundo. Ali, uma caverna permanecia ao sopé da encosta. Não era possível ver com exatidão o interior, tamanha era a escuridão que ali residia. Márcio disse:

— Será que não tem algo aí?

— A gente olha — respondeu Carlos, pegando a lanterna e caminhando em direção à caverna.

Chico foi ao Igarapé pegar água para cozinhar. Acendeu a fogueira. Planejava comer sardinha e feijão no jantar.

  Carlos entrou na caverna a passos lentos. A luz da lanterna iluminava as paredes cheias de umidade, borradas de tonalidade marrom esverdeada. A cada passo, os pés trincavam coisas que estavam pelo chão.

— O que você vê, Carlos? — gritou Márcio, na entrada da caverna.

— Está tudo quieto. — A voz ressoava naquela caixa acústica feita de pedra.

Márcio, na entrada, via os feixes de luz rodando pelo espaço escuro da caverna enquanto seu companheiro penetrava naquele caminho sinuoso. O céu escurecia. Morcegos voavam pelas copas das árvores.

— Não vá se perder aí! — disse Chico, que acabara de fazer a fogueira e armado as panelas cheias de comida. Postou-se ao lado de Márcio, na entrada da caverna.

— Acho que não tem nada aqui — a voz de Carlos saía tênue, uma voz de quem estava a centenas de metros de distância. — Dá para passar a noite.

— Ótimo — respondeu Chico. — Então venha logo. Vou levar nossas coisas.

— Tem uma coisa estranha aqui.

— O quê?

— Ouvi uma coisa mexendo.

— Então saia daí! — disse Márcio.

A luz da lanterna de Carlos apagou, seguida de um barulho de algo quebrando e carne esparramando-se pelo chão.

— Carlos, Carlos! — gritou Chico.

Silêncio.

Os dois que estavam na entrada da caverna olharam-se com preocupação.

— Será que ele se machucou? — perguntou Chico.

— Não sei. Carlos, Carlos!

Nenhuma resposta do interior da caverna.

— Vou lá ver o que aconteceu — disse Márcio, pegando a espingarda que descansava ao lado da mochila.

— Vou contigo — falou Chico, enquanto esperava o outro vir com a arma.   — Márcio, venha logo! — chamou após alguns segundos.

Mas também não veio.

— Porra, cara! — Chico virou-se para trás, e viu que os dois tinham desaparecido.

Escurecia. Ruídos vinham da floresta: sons de respiração profunda, galhos sendo quebrados, e um quase imperceptível som gutural ecoava pelos troncos das árvores, que parecia vir de vultos de assombração em contraste com a luz esmaecida do crepúsculo. A fogueira perdia força, e a comida já passava do ponto.

— Márcio, Márcio! — gritou Chico, olhando em volta com apreensão enquanto caminhava pelos arredores com passos hesitantes. Insetos que voavam próximos aos ouvidos de Chico faziam a agonia ser maior. Ele tentava espantá-los dando tapas no ar.

Ouviu algo do outro lado do igarapé. Era um som que nunca ouvira antes. Tão medonho que o fez se engasgar com a própria saliva e perder a coloração dos lábios.

— Então era verdade! — foram suas últimas palavras quando viu uma cabeça boiando no igarapé.

Uma lança negra penetrou suas costas e partiu-o ao meio.

A fogueira apagou-se. A comida nas panelas esfriava. Dominou a escuridão novamente sobre aquele sítio, como sempre tem sido desde o início dos tempos.

A rasga-mortalha, que os observava desde o dia em que discutiram, pousou em um galho de samaúma. Com seus olhos grandes e curiosos, analisava com indiferença aquele corpo de órbitas e boca abertas em mudo desespero.

Anhangá, o patrono das regiões escuras, estava satisfeito com o trabalho concluído. Refletia se era hora de sair para lugares mais amplos.


Fotografia: Igarapé de Cachoeira Grande – George Huebner/Acervo Instituto Moreira Salles.

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