a porta entre o temo e o te amo

por Gustavo Duarte
Cena de O segredo dos seus olhos de uma porta fechada. Ilustra crítica de cinema de Gustavo Duarte

Gustavo Duarte, 28 anos, nascido em São Paulo. Como poeta, uma passagem fracassada pelo largo São Francisco e o livro “Lar de Orates“, editora Giostri. Professor autônomo há oito anos, atuante em projetos de educação popular e redação pré-vestibular. 


Assisti novamente a um de meus filmes prediletos: O segredo dos seus olhos (Juan José Campenella, 2009). Hoje já não é um dos: é o predileto. Isso porque, assim como eu e você, este filme é uma rede associativa de narrativas, memórias e sentimentos que muda constantemente através do tempo e da percepção. E, no centro dessa evolução caótica, que reflete o movimento da natureza, temos buscado por alguma verdade que nos mova. 

A narrativa principal é (sempre) o presente: o servidor público aposentado Benjamín Espósito (Ricardo Darín) retorna a sua cidade natal, Buenos Aires, após um longo período de férias e isolamento. Insatisfeito com os rumos que sua vida tomou, decide escrever um romance sobre o caso ao qual remontam todas suas inquietudes – o estupro e homicídio da jovem Lilliana Colotto (Carla Quevedo). Para escrever o romance, Espósito pede ajuda a sua antiga chefe, Irene Hastings (Soledad Villamil), por quem sempre guardou o seu amor.

Pelo fio do romance, 25 anos – tempo em que Espósito e Irene trabalharam no caso – passam de fundo. Ali descobrimos narrativas laterais, como a de Pedro Sandoval (Guillermo Francella), melhor amigo de Espósito e alguém que também trabalha no caso – ao mesmo tempo que sofre de alcoolismo. Além dele, conhecemos Ricardo Morales (Pablo Rago), o marido da jovem estuprada, fixado em sua busca por justiça. Por fim há Isidoro Gómez (Javier Godino), o autor do crime e torcedor do Racing.

Muitas histórias, muitas perguntas. A propósito, o romance original que inspira o filme leva o nome de “A pergunta dos seus olhos“. Detalhe importante, já que no filme os olhos não escondem segredos; ao contrário, “os olhos falam”, como afirma Espósito ainda no início da película. Nas fotografias, foram os olhos fixados de Gómez em Lilliana que levantaram as suspeitas de Espósito. Os mesmos olhos doentios que, mais tarde, cravaram-se no decote de Irene.

Entretanto, é a pergunta dos olhos de Irene que Espósito nunca conseguiu responder. Apesar de reconhecer no olhar do marido de Lilliana o “amor mais puro, que ele nunca viu igual”, Espósito nunca foi capaz de perceber o amor nos olhos de Irene, que por sua vez identificava em seu amado a hesitação através dos olhos que recuavam e caiam-se sempre que inquiridos. 

Entre tantos olhares e perguntas, Espósito acorda no meio de uma noite e escreve no bloco de notas ao lado da cama: “temo”. O que teme, Espósito? Pergunta Irene em dado momento, pois é esse o tema central do filme, tema central de nós todos, o que tememos todos: seguir nossas paixões. A paixão de Espósito é Irene. A dela, ele. A de Sandoval, a vida boêmia. A de Morales, Lilliana e, após sua morte, justiça. A de Gómez, o Racing.

Por todas essas paixões paira um sentimento de vazio – falta sempre alguma coisa. Faltam respostas para tantas perguntas. Falta coragem para assumir as paixões. Falta encontrar o paradeiro de Gómez. Falta dinheiro para sustentar a vida boêmia. Falta a letra “a” (diferença entre um “temo” e um “te amo”) na máquina de escrever – detalhe reforçado ao longo do filme. Todavia, no menor detalhe, a maior revelação.

Em diversas visitas, nas várias conversas que teve com Espósito, Irene antes sempre perguntava a natureza do assunto para decidir se fechava ou não a porta. Somente no final do filme, na última cena, na última fala, ela sorri: “fecha a porta”.

Pois aí está o destino oculto no caminho da liberdade: encontrar o momento em que finalmente fechamos as portas. Hoje, diante das infinitas portas que a liberdade moderna nos apresenta, nos paralisamos na esperança de vivê-las todas e assim não vivemos nenhuma. Como quando demoramos uma eternidade para escolher um dos restaurantes no aplicativo de entrega e, com a decisão tomada, ele está fechado. Entregar-se a uma paixão é, antes de tudo, ter coragem de assumi-la como tal. Ao dizer sim, dizer não para as outras. Daí o temor que nos retarda: e se estivermos errados? É o risco da escolha que compromete as possibilidades.

De nada vale tanta liberdade, tantas possibilidades, tantas opções, se não for pra escolher viver aquela que nos incendeia. Escolher uma, abdicar das outras – fechar a porta. Viver uma paixão é ser fiel a ela, como dizia Vinicius de Moraes em seu soneto de fidelidade. Fidelidade não como sinônimo de monogamia ou oposto de traição, mas como atenção, zelo, dedicação de tempo e energia. Não é possível consumir a chama da paixão em sua superfície. É preciso entregar-se a ponto de por ela sermos consumidos. É preciso coragem; mas é nela que encontramos a felicidade infinita (enquanto dure, posto que não é imortal).

É preciso compromisso. Em meio a tantas versões de nós mesmos, tantas memórias, tantos caminhos, essa é a verdade edificante que Espósito e nosotros buscamos: a coragem de assumir a paixão que vale o compromisso – porque “te amo” só arrepia entre portas fechadas, no silêncio.

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