Agenda

por Luísa Caetano
Desenho de Ariyoshi Kondo para ilustrar os poemas de Luísa Caetano.

Luísa Caetano é principalmente cantora, mas atua também e fotografa e escreve. Nascida em 1991, em Brasília, onde se formou em Letras Português pela UnB, já esteve em palcos de países lusófonos em três continentes com a peça Tempo p’ra Dizer, que discute língua, êxodo, comida e afeto. É vocalista do quarteto Voyajazz, com quem trabalhou a bordo de navios em 2022 e 2023, e é cantora residente do bar do Terraço Itália, em São Paulo.


AGENDA

Eu só não te ligo porque
acredito (sem pensar muito a respeito) que
não é hoje que acaba o mundo.

Mas,
se aquela bola de fogo se mostrar
a uma distância maior
que a do Uber até a sua casa,

eu vou.

Pensar nisso não quer dizer
que eu deva te ligar agora:

não há sinal de bola de fogo,
e eu tenho
pilates.


PANDEMIA

As igrejas em Santiago de Chile mantêm as portas sempre abertas desde o ocorrido
em 1863.
O ocorrido em 1863 foi um incêndio
numa época em que as portas das igrejas
abriam para dentro.

A Iglesia de la Compañía era imensa e estava
adornada para Nossa Senhora
da Conceição.
Era uma missa tão
importante
que quem não conseguiu assento 
levou panos
pra sentar no chão:
2 mil pessoas

de uma cidade com 100 mil
sem bombeiro.

Quem não morreu em Santiago de Chile em 1863
conhecia alguém que morreu
atrás das portas que
abri(ri)am
pra dentro.

Fecha aspas, o guia em 2013 na Plaza de Armas, sem soluços. Uma anedota.

2021, e eu
não terminei de entender.


Trouxe uma planta nova pra casa e ela infectou minha primeira. Filipa está
murchinha, ela que nunca deu trabalho. Dar trabalho. As pessoas desempregadas, e
dar trabalho é um problema. Soube que no LinkedIn as pessoas fazem posts
também, mas de inspiração coach. Soube por um meme. Memes têm me segurado
as pontas e modificado minha sintaxe. Já tenho dificuldade em ler textos grandes.
Por isso o esforço em largar o celular mais cedo, pegar um livro e lembrar dos
sonhos. Sonhei que uma cidade em que eu estava era inundada e a água era
cristalina, mesmo que copos de plástico boiassem. Sonhei isso há meses. Hoje
sonhei que. Não me lembro. Não me lembro de metade dos memes que vi ontem.
Não me lembro da senha do LinkedIn. Não me lembro de onde deixei o hidratante
labial. Morar em 27 metros quadrados me mostrou que ainda é possível perder as
coisas.

E todo esse texto porque eu vim falar de amor.


AMOR

minha mãe pôs a cama pra mim
na cama dos sete anos
onde ainda caibo.

minha mãe arrancou meus pôsteres
doou meus livros,
jogou fora o resto, e

pôs a cama pra mim.

– o lençol nem tem elástico, aquele enjoado, e ela
pôs a cama pra mim.

(os restos de fita adesiva ainda na parede.)

minha mãe me deu um livro e um beijo e foi dormir
cedo.

na casa da minha mãe,
na cama dos sete anos,
lembro
que também gosto de dormir cedo.


Desenho de Ariyoshi Kondo.

1 Comment

  1. Luísa! Te leio.
    Te leio e me faz feliz.
    Me faz pensar. E tanto mais.
    Obrigada

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