Aotubiografia

por Jérôme Poloczek (trad. Natan Schäfer)
Fotografia: Jérôme Poloczek por Hugo Clarence Janoly.

Jérôme Poloczek é um performer e escritor belga nascido em 1979. Aotubiografia (Aboio, 2024) é sua estreia no Brasil.

Tradução do francês por Natan Schäfer.


Quanto à aotubiografia

Há um cubo dentro do quadrilátero da casa. Estou nesse cubo. Tem um espelho na porta do armário. Ali está refletida a janela e uma árvore que provoca vibrações em amarelo, verde, verde-escuro e preto no espelho. Como um pedacinho da janela está aberto, o vento também se faz sentir na minha perna.

Não sou um personagem. Me chamo Jérôme. Estou corrigindo este texto. O apartamento só me conheceu ontem. Você também não é um personagem. Será que você também está em um cômodo dentro de uma forma? Por exemplo, será que você está em um retângulo dentro de um quadrado? Talvez você só esteja lendo ao ar-livre.

Tenho três cicatrizes na virilha direita. Poderia dizer outra coisa, eu sei. Durante muito tempo tive vergonha de falar sobre mim. Agora não vejo mais porque, já que a gente é parecido. Aliás, um dia tentei dar uma de vidente. Dentre minhas experiências, busquei aquelas que tu viveu. Tentei escrever uma autobiografia na segunda pessoa. Uma autobiografia em tu. Uma aotubiografia.

Então imprimi todas aquelas frases em fitas. Depois as pendurei numa parede, e pessoas começaram a trazer as próprias roupas. Quando uma das frases correspondia a uma lembrança, a pessoa pegava a fita para costurá-la na roupa.

Por exemplo, uma moça costurou a frase “Você se intrometeu” na gola da jaqueta. Uma mãe costurou “Você já mediu cinquenta centímetros” no vestido da filha. Um amigo escondeu “Seu pai teve sete anos” na manga da camiseta. Uma amiga colocou “Você quis morrer, mas passou” na dobra do moletom. Foi ontem que ela me mostrou. Como a linha da fita estava se descosturando, ela fez um remendo. Tanto você quanto eu somos parecidos com aquelas pessoas e, mesmo que não te conheça, me pergunto que frase você teria escolhido. Você pode imaginá-las numa parede. Cada linha, uma lembrança. Pode escolher uma e, se ela corresponder a uma lembrança sua, pode tirar os alfinetes.

      Dava para ver tua penugem na luz.
      Teus músculos estavam fracos demais para te fazerem sentar.
      Você pronunciava apenas sons.
      Você continuava brincando com desconhecidos.
      Quando um dos teus dentes caiu, tua língua apalpou a raiz.
      Você cantarolava o alfabeto.
      No escuro, você viu sombras.
      Você tinha menos pintas.
      Dentre tuas cicatrizes, você sabe de onde vem a maior.
      Te contaram a origem do teu nome.
      Quando a água atingiu teu peito, você estremeceu.
      Teu pai já teve treze anos.
      Você cogitou que tipo de acidente seria capaz de matar uma pessoa.
      Você se intrometeu.
      Você jamais encontrou um ser que pudesse ser você.
      Saber que uma pessoa estava te esperando te fez querer chegar.
      Te desmentiram.
      A pessoa que deveria te ensinar disse uma bobagem.
      Quando a chuva encharcou tuas roupas, você se deixou molhar.
      Com tão pouca roupa, você se sentia sem nada.
      Você correu de um bicho.
      Moscas encostaram a boca em ti.

      Aquela substância jamais foi produzida pelo teu corpo.
      Você queria fazer amor com aquela pessoa, mas não lhe disse.
      Você quis morrer, mas passou.
      Te pareceu injusto que alguma outra pessoa tenha tirado a
sorte grande.
      Teu comichão se deslocou só porque você tentou se coçar.
      Ter ido embora seria expor-se à tiração de sarro.
      Você se sentiu mal porque alguém estava se sentindo mal.
      Você conversou com um animal mesmo sabendo que ele não
te responderia.
      O que você foi está em imagens.
      Ao tocar teu palato você vai sentir teu crânio.
      Teu cotovelo é careca.
      Tuas unhas estão crescendo.
      Ao chupar teu dedo você vai sentir teu sexo.
      Outros fabricaram o que você digere.
      Com frequência você dorme na mesma posição.
      Tua bexiga se enche.
      Você achava velhas as pessoas que hoje têm a tua idade.
      Você vai piscar.

“Você quis morrer, mas passou”, etiqueta costurada numa jaqueta de couro.

“Você quis morrer, mas passou”,
etiqueta costurada numa jaqueta de couro.
Bruxelas, 20.05.2012


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Mais sobre a obra

Uma autobiografia: mas não de alguma figura que conhecemos ou não, mas meio que de nós mesmos, dirigida ao tu que todos somos para um eu.

É assim que, em Aotubiografia, o leitor é convidado a desvendar, através das experiências cotidianas de uma vida como quase qualquer outra, o espaço, o além, o despertar e o adormecer, o ciúme, o amor, o isolamento, o corpo e muitas outras minúcias e gestos que lembram que todos somos um ser no mundo que não para de se escrever em cada suspiro, em cada soluço — seja de angústia ou espanto —, mas também quando simplesmente respira.

Para o poeta Cesare Rodrigues, que assina a orelha do livro, Jérôme Poloczek nos apresenta “um pensamento experimental, ora subversivo, ora inventivo, ora lírico, às vezes ingênuo, mas sempre procurando por alguma inversão da perspectiva”.

Um dos mais instigantes nomes das artes e da literatura belga contemporânea, Jérôme Poloczek estreia no Brasil com o magnético e inusitado Aotubiografia. Esta prosa tão precisa quanto delicada fez Jérôme ser considerado pela crítica como “minimalista da melhor cepa”.

Fotografia: Jérôme Poloczek por Hugo Clarence Janoly.

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