D’argile

por Pierrot Ruivo
Fotografia: Floresta da Tijuca – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Pierrot Ruivo se entende por Lucas. Morador de São Paulo/SP, formado em Gestão de Marketing. Procura construir com a poesia espaços onde traumas e ausências são transformados em arte. Nunca conheceu a sua linhagem tão a fundo, então escrever visa preencher essa lacuna genealógica enquanto escava seu inconsciente atrás de respostas.


D’argile

Beijo bocas para convencer-me da existência
Amo um romance oriundo da beleza de sempre
Aquela que me referencia aos conhecidos
Como um delírio narcisista e ela sempre esteve certa

Afinal, a minha luxúria é o que há de mais abjeto
Seria o preço que pago por minhas promessas
O pó do teu apêndice metálico dançando diante de meus olhos
Faz feroz desagrado ao que se intimida na perspectiva

Eu aceito a vinda de corpos brutos
Como se fosse um turista encantado
No centro de tudo eu sou a provação da torcida
Ansiando a morte por arenas de multiuso

Há um material orgânico decompondo-se na língua
Ao arcaico descrente que me reconhece
Eu o aplaudo por meu gesto estúpido
Seus olhos pesando corretivos

Sem risco, eu vou atuando
Fingindo em outros palcos
Improvisando discursos bélicos
A qualquer amante que convenço

Toda a cicatriz resgatada
É um troféu para derreter
Em papéis de manteiga
E servir à visitas indesejadas

Carcaça já erguida de Fausto
Asas folhadas com cada máscara que usou
Nem corvo e nem arara, era a espiral do caos
Uma semântica a cada conta do rosário

Tensão no céu de Babel
Entretenham com biografias
Meu tratado é nomear algo mais nobre
E ainda sim mais perverso do que o homem


Para Sempre Paranoia

Deus invade a cozinha
Abençoa alimentos perecíveis
E transa comoções com eletrodomésticos
O milagre de hoje batizado como fenômeno eletromagnético

Embaixo dessa noite oca
Há cadáveres que dançam
Com talheres e pavimentações
Celibatárias da chuva de bispos

Delírio permanentemente:
Impressões ao redor de reis hospitalares
Três doses para três amostras de sangue
Para dissecar três novas enfermidades

Os olhos radiantes alargam-se
Aos demônios parasitas do sono
Até ontem, filo romântico catártico
Meu bem, meu ego hoje é como uma Pompéia

A espiral cautela caí e desintegra
Perde o embate para o teatro do disfarce
Outro nome, outra idade, outra condição
Habitante dos obituários da cidade

Deus está na cozinha se crucificado nas lâmpadas de geladeiras
O diabo está em ímãs que se exibem, diversos e divertidos
O purgatório encontra em secadoras de oito quilos
Catedrais desse tempo são caixas de papelão vazias

Engana o perigo valsando com redes de proteção
Por baixo da pele desse país desagradável
Há pelo menos uma dúzia de deuses envelhecidos
Viciados em controle, se contradizendo a cada vírgula

Confabulação e jantares na ponta do martírio
Se o ar que respira trazes pesos rudimentares
Vou voltar ao desencanto das minhas pulsões
Salva-me de mim mesmo no rigor da agonia


Fotografia: Floresta da Tijuca – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

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