As reflexões sobre a morte no poema In Death, Cannot Reach What Is Most Near (1949)

por Pedro Lucas Nascimento Carneiro
Foto de Anna Carolina Rizzon para ilustrar o ensaio de Pedro Lucas Nascimento Carneiro sobre a obra de Irwin Allen Gisnberg.

Pedro Lucas Nascimento Carneiro é nascido em Salvador, capital baiana, mas reside na cidade de Alagoinhas BA. É estudante do curso de letras, língua inglesa e literaturas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Atualmente, desenvolve pesquisas sobre poesia moderna em expressão anglófona, com foco no processo de antropomorfização através da força da palavra poética.


I.

Irwin Allen Ginsberg (1926-1997) é tido como um dos nomes mais poderosos da poesia estadunidense produzida no curso da segunda metade do século XX. Poeta maldito e inovador, o bardo de Newark é visto como uma das figuras mais aclamadas da Beat Generation ao lado dos escritores Jack Kerouac (1922-1969), William Burroughs (1914-1997) e John Clellon Holmes (1926-1988); jovens que movimentaram a cena (contra) cultural e literária dos Estados Unidos da década de 50 através das suas produções.

Ginsberg se caracterizava por possuir uma completa erudição e vasto cabedal literário, traços que foram adquiridos e herdados ainda na infância através do seu pai, o poeta e professor Louis Ginsberg. Admirador fiel das obras de Walt Whitman e Edgar Poe, produziu uma série de poemas que transitavam entre a poesia marginal e a poesia clássica, se enquadrando nos mais diversos estilos – desde os sonetos, célebres poemas em prosa, aos famosos haikus.

Nas suas obras mais aclamadas, é perceptível que a expressão lírica dos seus versos é marcada pelo constante uso de desobediências estéticas, caracterizado por um estilo de escrita cujo dispositivo central se dá pela forte presença de traços autobiográficos, expressões inseridas em um contexto vocabular coloquial, como também por uma extrema carga de emoção e sentimentalismo – dois aspectos que vigoravam com grande ímpeto entre a poesia romântica inglesa, e que, de algum modo, contrastava com a linha de pensamento adotada pelos adeptos do New Criticism, escola de pensamento crítico/teórico literário vigente na época. Por esta razão, não se torna errôneo afirmar que Ginsberg estaria inserido também em uma linhagem romântica, tal como constatado, mesmo que de maneira breve, por Mirian Paglia Costa (1984, p. 114) em seu ensaio sobre o poeta beat intitulado: Ira Sagrada [1]; pois, algumas das suas principais influências no campo poético, surgiram após o contato e leituras das obras de célebres autores românticos tais quais William Blake, Yeats, entre outros.

Em abril de 2022, o bardo estadunidense completou 25 anos de falecido. Entretanto, suas obras continuam perdurando com total força pelas suas temáticas atuais e contextuais, inspirando cada vez mais aqueles que buscam, através da arte e potencialidade da palavra poética, a intensificação das subjetividades e humanização frente ao mundo moderno empedernido e assolado pelo objetivismo dominante.

(…) todo episódio ou circunstância cuja existência humana atinge o seu ápice através da morte, carrega consigo toda história daqueles que partiram.

II.

Para esse breve ensaio, buscarei discutir a respeito do tópico da morte em um poema de Allen Ginsberg. Uma temática tão viva e peculiar que marca presença constantemente no nosso cotidiano, mas que de algum modo vem sofrendo intensas anulações devido a intensificação do medo por parte dos sujeitos para com o fim do ciclo existencial que movimenta a natureza humana. Sob esta perspectiva, muitos poetas do modernismo estadunidense situaram alguns dos seus escritos poéticos no topos da morte. Robert Frost em seu poema In a Disused Graveyard (1923) [2], por exemplo, fixou as suas análises – e críticas – a respeito da desumanização frente ao porvir, oferecendo aos seus leitores a poderosa imagem de um cemitério abandonado localizado no alto de uma montanha, e, que de algum modo, carece de visitantes. Wallace Stevens, em seus célebres poemas Sunday Morning (1923) [3] e The Owl in the sarcophagus (1950) [4] – elegia dedicada ao companheiro Henry Church –, também se dispôs a apresentar suas visões a respeito do decesso, descrevendo o desenlace natural da vida como “the mother of beauty” [5], que carrega em seu ventre todo seu traço místico.

Para tanto, o poema aqui escolhido para discussão ainda dispõe de pouca divulgação e análises críticas. A obra que integra a coleção Empty Mirror: Gates of Wrath (1941-1952) [6]; trata de um dos primeiros escritos poéticos de Allen Ginsberg produzido em meados de 1949, enquanto o autor possuía exatos 23 anos. Neste sentido, In Death, Cannot Reach What is Most Near (1949), assim como os poemas acima mencionados, também apresenta uma reflexão consistente a respeito da morte, partindo de um viés filosófico que se concretiza mediante as ponderações feitas pela voz poética o longo da sua tessitura. Sua forma de composição está estruturada em duas estrofes. A primeira caracterizada pela presença de doze versos, e a segunda, por sete versos – ambos organizados em blank verse.

Dado o exposto, o eu lírico introduz o seu poema apresentando um questionamento que, em determinado momento, todo ser humano já efetuou. A indagação gira em torno da ideia sobre o que éramos antes do nascimento. Assim, Ginsberg afirma de maneira um tanto quanto irônica, ao longo dos quatro primeiros versos, que nós compreendemos tudo a respeito da morte; seu processo que vai desde o pallor mortis à fossilização, até mesmo as causas e situações propícias para o seu aparecimento. Entretanto, jamais entenderemos o motivo pelo qual todos nós vivenciamos essa prévia condição de inexistência antes do nascimento. A resposta para essa questão, reside na lógica pelo qual essa é uma circunstância inalcançável pela razão humana; portanto, estamos descabidos de respostas que venham apontar para uma fiel concretude relacionada a qualquer fato que busque explicitar essa situação.

Posteriormente, a voz poética afirma que a vida se apresenta similar ao acesso entre duas portas em direção à escuridão. Aqui é possível realizarmos um paralelo com lógica “de pulvis venimus et in pulverem revertemur” [7], pois da porta da escuridão, da condição ainda inexistente do sujeito humano, viemos ao mundo; e para ela também retornaremos através da morte – criando uma espécie de loop cujo ponto de chegada se concretiza no mesmo lugar de partida. É por esta razão que Ginsberg alega, no curso do sétimo verso, que ambos acessos se apresentam iguais e verdadeiramente eternos; e que, porventura, possa ser dito que nos deparamos frente a escuridão, isto é, ante ao prévio fim. E através desses encontros, descritos como “meeting of eternal ends”, a verdadeira circunstância do tempo é refletida, ou seja, o ciclo natural e contínuo da vida marcado pelo nascimento, desenvolvimento, maturidade e fim da existência.

Durante a segunda e última estrofe, o eu lírico, ainda dando continuidade as suas ponderações, sinaliza que é surpreendente refletir que não só o pensamento, como o próprio caráter humano, perpetua-se no tempo após a passagem do sujeito para eternidade. Neste sentido, todas as ações e atitudes realizadas em vida não se esvaecem com a morte, pelo contrário, são imortalizadas no presente através das memórias que futuramente serão cultivadas por outros indivíduos.

Por fim, Ginsberg finaliza a sua tessitura afirmando aos seus leitores que um dado período se torna uma vida a partir do momento em que olhamos para fora do túmulo. Nesses últimos versos, a voz poética, mantendo o seu (alto) teor filosófico, traduz a ideia de que todo episódio ou circunstância cuja existência humana atinge o seu ápice através da morte, carrega consigo toda história daqueles que partiram; aspecto que se faz perceptível a partir do momento em que enxergamos e compreendemos a situação para além do destino final.

III.

Abaixo, disponibilizo o poema na versão original, juntamente com uma tradução realizada por mim:

In Death, Cannot Reach What Is Most Near

We know all about death that
we will ever know because
we have all experienced
the state before birth.
Life seems a passage between
two doors to the darkness.
Both are the same and truly
eternal, and perhaps it may
be said that we meet in
darkness. The nature of time
is illuminated by this
meeting of eternal ends.

It is amazing to think that
thought and personality
of man is perpetuated in
time after his passage
to eternity. And one time
is all time if you look
at it out of the grave.

New York, Mid – 1949

Na morte, não se alcança o que está mais perto

Sabemos tudo sobre a morte que
jamais compreenderemos porque
todos nós vivenciamos
esse estado antes do nascimento.
A vida se apresenta similar ao acesso entre
Duas portas em direção a escuridão.
Ambas iguais e verdadeiramente
eternas, e porventura possa
ser dito que nos deparamos na
escuridão. A verdadeira circunstância
do tempo é refletida por esse
encontro de perpétuos fins.

É surpreendente refletir que
pensamento e caráter
humano são imortalizados no
tempo após sua passagem
para eternidade. E um dado período
se torna uma vida ao olharmos
para fora dos túmulos.

Nova York, meados de 1949

(Tradução de Lucas Carneiro, 2022)


[1] COSTA, Mirian Paglia. Ira Sagrada. São Paulo: Revista Veja, 1984. Disponível em: Allen Ginsberg | Claudio Willer (wordpress.com). Acesso em: 23 jul. 2022.
[2] FROST, Robert. New Hampshire. Standard Ebooks, 2020.
[3] STEVENS, Wallace. Harmonium. Icaria Editorial, 2002.
[4] STEVENS, Wallace. The Auroras of Autumn. The Kenyon Review, 1948.
[5] Verso do Poema Sunday Morning “Death is the mother of beauty, mystical, / Within whose burning bosom we devise/ Our earthly mothers waiting, sleeplessly” (STEVENS, 2017, p. 74)
[6] GINSBERG, Allen. Collected Poems 1947-1997. Harper Collins, 2007.
[7] Gênesis, capítulo 3:19: “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará”.


Foto de Anna Carolina Rizzon.

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