As rimas internas

por Luis Felipe Abreu
Arte: Retrato de mulher não identificada – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Luis Felipe Abreu nasceu em Porto Alegre, em 1993. É escritor, professor e pesquisador. Foi professor na Escola de Comunicação da UFRJ. É pesquisador de pós-doutorado no Grupo de Pesquisa Poesia Brasileira Contemporânea (UFRJ). As rimas internas é seu primeiro romance.


terça-feira, 15 de março de 2016

Quando o telefone me acordou, ainda não eram nem sete horas da manhã. Na maioria dos dias, a chamada já teria me encontrado de pé, aproveitando a calma da manhã antes que o dia, seus sons e seus estímulos, roubassem a minha atenção. Têm sido semanas difíceis, porém. Aceitei mais trabalho do que deveria (ainda que fossem render menos dinheiro do que eu precisava) e as pautas acumularam. Passei a última madrugada enfiada na redação dos textos de uma nova campanha publicitária, havia deitado há pouco quando o celular tocou. Na sua tela, li um número conhecido, ou quase: ainda que fosse um ramal distinto daquele com o qual eu lidava, sabia ser o telefone da editora.

“Desculpa a ligação tão cedo, é quê…”. Reconheci a voz de Martina do outro lado da linha. O que ela poderia querer? A conhecia apenas de eventos e de conversas informais. Não trabalhava nos mesmos selos e projetos que eu.

É quê…? Segurando um café contra o mau humor da manhã súbita, eu remoía a ligação enigmática enquanto andava pelos corredores da editora. Subimos o elevador para além do 12º andar, a fronteira que eu conhecia, sede do escritório dos selos de não-ficção. Paramos no 13º, o Piso da Literatura. Do outro lado de seus corredores ficava o escritório de Paulo, que todos chamavam de O Editor, um pouco na brincadeira, por sua insistência em não ser referido enquanto dono ou presidente da empresa, mesmo que o fosse. Martina me recebeu a poucos metros daquela sala envidraçada d’O Editor. Se fechou ali comigo, sem dar nenhum detalhe além dos poucos que havia dito na ligação para me seduzir. É um novo projeto e acreditamos que é um tiro certo. É um novo projeto e pensamos em você, ela disse.

“Desculpe a pressa”, disse O Editor, me oferecendo a mão e um sorriso franco. Por trás dos óculos de aros vermelhos, o rosto vincado e bronzeado era gentil, mas assertivo. O mesmos tons se carregavam para a sua voz: “Tive essa ideia ontem à noite e quase nem consegui dormir. Precisava resolver isso logo”.

O Editor sentou-se por trás de sua escrivaninha, indicando com um gesto para que eu e Martina fizéssemos o mesmo. A sala era abarrotada por livros, certificados de prêmios, troféus e fotografias, um acervo das conquistas da editora nas últimas décadas. Eu sabia que aquela não era uma ocasião normal: já fazia trabalhos para a editora há mais de quatro anos, mas nunca havia visto O Editor. Toda essa cena parecia um daqueles raros momentos em que o pano do palco se entreabre e podemos ver os mecanismos internos do teatro. Eu avaliava com atenção e cuidado, portanto, aquilo que O Editor dizia: em meados do próximo ano, uma célebre feira literária acontecerá em Paris, um evento desses mais para os livreiros do que para os leitores, com lançamentos de pompa. O Brasil será o país homenageado e o tema central será a literatura de autoria feminina. O Editor ia contando isso com detalhes e apartes, não como quem explicasse, mas como quem repassasse uma informação óbvia. Mas nada daquilo era claro para mim. Martina, talvez percebendo minha inquietação, atravessou a lentidão do discurso: “Paulo, fale da Flora”.

“Nós queremos lançar uma biografia da Flora Laz na feira”, disse, então, Paulo, constrangido ao se perceber prolixo. “Queremos convidar você para escrever o livro”.

Não soube o que dizer. Mesmo agora não sei bem ao certo o que poderia ser dito ali, assim, a esse chamado tão surpreendente. Era como se eu não apenas tivesse sido convidada a entrar em uma casa até então estranha, mas também recebesse a chave para um de seus quartos mais secretos.

Diante de um silêncio constrangido, da minha surpresa, Martina intercedeu mais uma vez. Disse que eu poderia lançar um olhar singular sobre Flora. Falou sobre como, ao longo do tempo, a obra de Flora foi sendo coberta pela poeira dos clichês. Como os corpos, dos textos e daquela que os escreveu, foram soterrados por histórias outras, as quais Martina chamava de fofoca, torcendo os lábios. “O tema da feira é uma ótima oportunidade para trazer isso à tona. Lembrarmos da verdadeira Flora”.

“Nós sempre apreciamos seu trabalho com autobiografias”, completou Paulo. Referia-se aos escritos fantasmas que têm me sustentado nos últimos anos, textos autocongratulatórios (auto, ainda que pela minha mão) de figuras das mais diversas. Um trabalho que nunca levei para além de uma tarefa mecânica, entrevistar-transcrever-editar, realizada para pagar contas. “Também gostamos muito das matérias que você fez sobre novas escritoras. Acho que é aquela voz que precisamos para a Flora”, continuou O Editor. Lembra agora dos breves perfis que escrevi para uma revista cultural de Pernambuco: esses, sim, trabalhos de afeição, e mais afim àquela estranha tarefa ofertada por Paulo e Martina. Mas, ainda assim, não me credenciaram a tanto… Flora? Teria algo a dizer sobre ela?

“Claro que o prazo é apertado. Um ano e meio para pesquisa, escrita e edição. Mas não queremos um livro definitivo, uma biografia exaustiva, do nascimento até a morte”, comentou Martina, cada vez mais próxima de meu corpo, sem que eu percebesse. Com a mão sobre meu ombro, prosseguiu, deixando escapar uma das razões da minha escolha: “Vamos dar todo o suporte. E sabemos que você trabalha rápido”.

“Por isso seria imprescindível começarmos logo. É preciso ir ao Rio, conversar com pessoas, juntar material…”, anunciou O Editor. “O ideal seria sair nos próximos dias. Ficar por lá umas semanas, ou o tempo que for necessário. Temos um apartamento da editora, isso não é problema. Mas, claro, você não precisa nos responder agora”, sorriu, mal disfarçando sua própria ansiedade.

Peça mais tempo para pensar, pensei, ainda desconfiada, acossada de tantas informações por tantos lados, sem ter dito nada após aberto aquele convite, carta-bomba. Peça mais tempo para pensar. Aceito, respondi.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Flora Laz. Também conhecida apenas por Flora, ou, ainda, Flora L., como assinou alguns de seus textos, em caligrafia rebuscada. Autora de quatro livros: além dos dois de poesia, pelos quais é mais conhecida, publicou também um volume de contos e uma reunião inclassificável de cartas, bilhetes e outras correspondências comuns. Morta em 1989, em circunstâncias nunca de todo explicadas: uma madrugada, um mar, uma ausência de corpo.

F.L. Uma sigla, um sigilo. As letras escondem um nome de música estranha. Um sigilo esse rosto que, da orelha dos livros, atravessa trinta anos para me encarar. Há duas fotos de Flora que se repetem, alternando-se, nos livros e seus materiais de divulgação, em vida e em morte. São parecidas entre si, distinguíveis apenas na variação das poses. Em uma das fotos, Flora está enquadrada em um plano aberto, e encara a câmera. Na outra, a imagem fecha em close e o olhar da poeta desce, mira algo abaixo e à esquerda do fotógrafo. Em ambas, o que marca é o rosto de Flora, sua dureza. É bonita, mas não é bem isso. É dura, um rosto em pedra emoldurado pelo cabelo cachado e revolto, cortado de forma selvagem. Mesmo no preto e branco das fotografias, seus olhos revelam uma cor caramelo, enigmática. A boca, de lábios finos e ferido, está franzida em ambos os retratos, completando o tom de combate de sua aparência.

Nunca havia prestado atenção nesse rosto que hoje me deteve ao folhear os livros. O rosto que me levou a tentar ler suas linhas de expressão como se lesse as linhas dos poemas de Flora. Textos com os quais também me descobri sem intimidade, sem memória. Conhecia o nome de Flora e sabia seu lugar na história das letras do Brasil. Sabia de sua fama relativa e de sua circulação, sabendo também seu apelo jovem e pop. Também conhecia várias interpretações de seu legado: para uns, apontava um lirismo poderoso. Para outros, apenas afetação. Mas esses são dados, informações de jornal ou enciclopédia, fatos periféricos, e meu trabalho seria justamente o de ultrapassar isso. Como, se me descobri incapaz de lembrar de memória o nome de um, qualquer um, de seus textos. Eu era uma conhecedora mais da figura do que da literatura, como aqueles sujeitos desprezados por Martina. Eu já lera Flora? Apenas pedaços: de mais marcante, lembro de dois versos que faziam a epígrafe de um romance lido e perdido há anos. Versos bonitos, mas que não me chamaram atenção a ponto de buscar mais trabalhos da poeta. Flora, para mim, não passava dessa figura oblíqua, que atravessava leituras e conversas, mas nunca chegava a se mostrar presente. Um corpo no mundo, mas distante de mim. E essa separação me preocupava, me preocupa: é a esse corpo estrangeiro que devo dedicar meus próximos dias, semanas ou meses. Causa ou consequência desses anseios, tinha para mim que precisaria inventar duas vidas: uma para Flora e uma nova para mim.

Mas vidas e invenções ficam para depois. Fechei os livros sobre o rosto de Flora e os pus na mochila. Passei o dia nessas organizações para uma viagem relâmpago. Tentei não pensar em Flora, em poesia, no Rio de Janeiro: procurava me mover no impulso das demandas e necessidades. Não havia ninguém para avisar da minha ausência: o que me restava de família estava no Sul, e os poucos amigos paulistanos não eram próximos o bastante para terem de acompanhar minha agenda. Precisei apenas limpar minha pauta, cancelando com gosto os freelas de redação publicitária e os textos técnicos. O apartamento é pequeno, não demandou muita limpeza. A mala, de tamanho também tímido, recebia o quanto podia. A vida a ser inventada era ainda a imediata, funcional, e o que havia para ser escrito eram listas de roupas e coisas que não poderiam ser esquecidas.


Você acabou de ler um trecho de As rimas internas (Editora Aboio, 2024), romance de estreia de Luis Felipe AbreuGostou do que leu? Adquira-o clicando aqui.

Mais sobre a obra

Uma homenagem numa feira literária internacional, uma proposta para biografar uma talentosa e arredia poeta da década de 1980, que morreu de maneira trágica e misteriosa. É assim que começa a aventura literária-existencial de Luiza, narradora-personagem que nos guia pelas páginas de As rimas internas, romance de estreia de Luis Felipe Abreu.

Incumbida de biografar Flora L., uma mistura ficcional de figuras como Ana Cristina CésarSylvia Plath e Alejandra Pizarnik, a jornalista Luiza acaba se perdendo num labirinto cheio de referências à cena literária em que viveu a poeta carioca e também Caio Fernando Abreu, de quem Luis Felipe Abreu é sobrinho.

A busca da narradora por Flora, personagem maldita e uma pária entre os párias, ecoa e reverbera o interesse contemporâneo por essas figuras marginais que retornam editorialmente canonizadas e envoltas por um prestígio um tanto contraditório.


Arte: Retrato de mulher não identificada – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

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