Before & After

por Bea Correa
Fotografia: Residência da família Barreira Vianna – José Baptista Barreira Vianna (Acervo Instituto Moreira Salles).

Bea Correa é brasileira e mora em Amsterdã, Holanda. Estudou direito na USP e design gráfico na Gerrit Rietveld Academy. Atualmente faz pós-graduação em escrita criativa na Nespe editorial. Publicou na Revista Ria, Cassandra, Toró Editorial, Jirau de Histórias, Selo Off Flip, Pinturas das palavras e Primavera editorial. Na mindwhatyouwear.com escreve sobre pequenas e grandes questões existenciais em forma de moda.


Então, doutor, se a barriga ficar boa depois eu volto pra fazer a cara. Os seios não precisam. Meus seios são lindos até hoje. Sabe por quê? Porque não amamentei. Claro que fica a culpa de não ter amamentado meu filho, aquele papo de bebê de leite de fórmula ficar burro, obeso, asmático, eczematoso, sei lá. Até tentei dar o peito. Mas ele não queria. Contratamos uma terapeuta de bebê, carésima! Não houve jeito. Vou te confessar uma coisa, doutor: Eu não queria. Seio para mim é instrumento sexual, não é mamadeira. Meu peito não foi feito para amamentar. Foi feito pra alimentar os amantes, não o filho. Para ser tocado, acariciado, lambido, mordido, pelos amantes, não pelo filho. Doutor, que bolinha é essa que o senhor me deu? Tô aqui falando cada barbaridade! Não contei isso para ninguém, nem para mim mesma! Sim, eu sei, a sedação, deixa a gente meio grogue. Falando nisso, acho que essa anestesia local não tá funcionando, tô sentindo umas punhaladas. Tá, vou relaxar. Continuar conversando? Então, falando em dor, não imagina a tortura que era aquela bombinha tira leite triturando as tuas tetas, esqueceram de mencionar no manual de instrução que vem com a máquina. Horas de sofrimento para encher meio copo. Como pode, doutor, seios tão redondos, macios e perfeitos, incapazes de produzir leite? Produzi, sim, uma profunda compaixão pelas vacas do mundo afora. E o menino nem é asmático, nem obeso, nem burro nem nada, até entrou na faculdade de International Business! Nossa, já tirou um litro de gordura, doutor? Sua clínica é muito chique, os tons de rosa e cinza, as fotos preto e branco da Audrey na parede, mas deixar aquela caixa de bombom de cereja ao lado da máquina de café na recepção é maldade, viu? Ha, Ha! Virar? Pra direita ou pra esquerda? Minha mãe parecia muito a Audrey. Leninha, minha irmã mais nova, também parece a Audrey. Eu já saí mais o lado do meu pai. Leninha é linda. Era. Agora tá bem maltratada. Também não passa um creme na cara, acho que jamais comprou um protetor solar na vida! É intelectual, diz que não liga pro “exterior”. Acha um absurdo eu fazer plástica. Ué, falei pra ela, você não reforma a sua casa quando ela tá caindo aos pedaços? Doutor, eu tenho essa teoria, nosso relógio psicológico não tá sincronizado com nosso relógio biológico. Enquanto dentro a gente cresce, fora a gente encolhe. Aquelas princesas que moram na gente, a Cinderela, a Branca de Neve, a Rapunzel, alguma delas envelheceu, engordou ou morreu no final? A gente sempre espera o Happy End para o filme da nossa vida. Mesmo sabendo que o futuro é decadência e morte. Tudo errado, devia ser como essas suas imagens de before e after, nascer velha e feia e ir remoçando e embelezando ao longo da vida. Falta muito, doutor?


Fotografia: Residência da família Barreira Vianna – José Baptista Barreira Vianna (Acervo Instituto Moreira Salles).

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