Breves considerações sobre a guerra em Kurt Vonnegut

por Leopoldo Cavalcante

Faz uns bons anos que eu não leio ficção científica. O mais perto que cheguei do gênero foi com Partículas Elementares ou A possibilidade de Uma Ilha, ambos do Michel Houellebecq. Qual a relevância desse comentário pro resto do texto? Quase nenhuma. É só apontando que eu quase não tenho repertório nesse tema. Então, fico um pouco receoso de fazer comentários específicos sobre Matadouro-cinco, obra-prima de Kurt Vonnegut, o grande escritor de ficção científica do século XX. Como sei pouco sobre ficção científica, vou falar de outro tema do romance que eu sei ainda menos: guerra.

Guerra

Nunca estive nem próximo de uma guerra. Não sou entusiasta de guerra. Vejo filmes de guerra de vez em quando. Leio sobre a guerra mais do que gostaria. Para começar de maneira amena, deixo a recomendação de um autor de guerra que gosto bastante, Ernest Hemingway. Adeus às Armas seria um filme hollywoodiano espetacular; O sol também se Levanta é uma descrição precisa da impotência geracional do pós-Primeira Guerra. Por quem os sinos dobram me ensinou a maldade nos homens.

Não há nada de novo em romantizar a guerra. A Ilíada tem como personagem principal do poema, de acordo com Simone Weil, a força. É pelo massacre que se faz a presença dos deuses e sua vontade. Odisséia, que é basicamente sobre um cara perdido no mar travando altas aventuras, termina com uma carnificina para começar uma nova história, uma história nunca contada em livros. Guerra e Paz, de Tolstói, é um sem-número de personagens lutando. Daria para fazer uma lista sem fim sobre livros de guerra. E não só no ocidente.

No famoso terceiro ato de Homem e Super-Homem, o Diabo de Bernard Shaw professa um monologo sobre a qualidade bélica do homem. “E eu te digo que na arte da vida nada inventa o homem; mas na arte da morte ele pode superar a própria Natureza, e produz com química e maquinaria toda a carnificina da peste, pestilência e fome. […] Não há nada na maquinaria industrial do homem além de sua ganância e preguiça: seu coração está em suas armas. […] O homem mede sua força pela sua destruição.” Até o Diabo, apesar de ser um sujeito bem amável em Shaw, menospreza a violência do homem e aponta as fraquezas da alma humana em seguir o caminho do confronto.

Desde os princípios da filosofia, a guerra foi usada como catalisadora da existência. A força destrutiva traria algo novo. Destruir para criar. Na filosofia econômica, alguns autores liberais falam de destruição criativa do capitalismo: sai o fraco e entra o novo, aprimorado. Seria seguir a lei da natureza da morte que o homem, como o Diabo lembra, é tão mais efetivo em aplicar do que a própria natureza. Um livro que revisitasse o conceito de aprimoramento pela destruição, tão antigo quanto a própria humanidade, teria características para começar a ser antiguerra. Mas não basta. Matadouro-cinco é um bom exemplo de como usar a guerra para negligenciar a guerra.

A cruzada das crianças

Perdido na área dos inimigos, junto de outros três soldados, Billy Pilgrim se desloca no tempo. Quando ele menos espera, ele sai da Alemanha em 1945 e volta para o passado, para os seus 16 anos. Em outro momento, foi pro futuro. E assim por diante. Viu o próprio nascimento várias vezes. E se viu morrer várias vezes. É assim mesmo.

De volta para casa, nos EUA, Billy foi internado num hospital psiquiátrico, casou com uma mulher feia que não amava, teve uma filha e um filho “boina verde” (combatente no Vietnã) e foi abduzido pelos Tralfamadore. Billy tinha visto, pulando pelo tempo, tudo o que aconteceria com ele. Ele sabia que seria abduzido, que casaria sem paixão, que seus amigos morreriam num acidente de avião e que ele seria assassinado. Ou é isso que nos é contado.

Os Tralfamadores são criaturas essenciais no romance. Eles vivem em quatro dimensões, percebendo o tempo de uma maneira diferente da humana. Para eles, nós somos vistos como centopeias, extensões desde o bebê até o idoso acontecendo ao mesmo tempo. Para os Tralfamadores, não existe livre-arbítrio: o tempo foi, é e sempre será.

Pela noção estática e imutável do tempo, os Tralfamadores não entendem a morte. Morrer, para os humanos, seria deixar de existir. O que é um absurdo, considerando que a existência se estende pelo tempo. Quem morre amanhã está eternamente vivo hoje, e ontem, e anteontem, e sempre. Sempre que alguma pessoa morre – ou aparenta morrer –, o brocardo “É assim mesmo” (So it goes, no original) é repetido pelo narrador.

A repetição do brocardo é essencial. Nenhuma morte no livro vai sem um “É assim mesmo”. E são muitas mortes. Todas elas são insignificantes, no ponto de vista do tempo e dos tralfamadores. Mas para o leitor, humano, demasiadamente humano, a repetição nauseia. Começa com um incomodo, algo inesperado. Depois vira cômico – até as mortes dos animais recebem a máxima. Então, abala.

Matadouro-cinco

A maior parte do romance acontece fora do campo de batalha. Billy Pilgrim sobrevive por acasos. Primeiro, ele é capelão do batalhão, sendo inútil no campo. Logo depois de saltar a primeira vez no tempo, é pego pelos alemães e levado para um contêiner com outros prisioneiros de guerra. Durante toda a guerra, ele é um prisioneiro. No contêiner, a guerra acontece pelas conversas dos alemães. Todas as novidades vêm de um respiradouro. Lá dentro, os americanos tentam sobreviver defecando em baldes e dormindo de conchinhas. Um soldado otimista morre depois de repetir diversas vezes que já viveu coisas piores e que isso não é tão ruim. É assim mesmo.

Vou pular várias coisas que acontecem até os americanos serem levados para Dresden. Em Dresden, a Florença do Elba, os prisioneiros ficam “hospedados” no matadouro-cinco (Schlachthof fünf). Eles tinham liberdade de ir e vir, só precisavam voltar para o matadouro. Moravam com os porcos e as vacas degoladas. É assim mesmo.

Dresden era considerada uma cidade segura. Ao ar livre, sem nenhuma indústria bélica, nada de interessante para um ataque dos Aliados. Era consenso de que nada aconteceria com a cidade. Até que ela sofreu o maior bombardeio da história aérea europeia.

Quando morei na Alemanha, conheci brevemente Dresden. É uma cidade quase pequena, quase melancólica. Algumas partes do Zwinger estavam em reforma. Do lado de fora, uma igrejinha meio queimada servia de lembrança de um passado não tão distante. Vi uns Rembrandt no Gemäldegalerie e ouvi um violão cigano sob os arcos de passagem para o Elba. A história da linhagem monárquica da Saxônia estava estampada em azulejos pela lateral do castelo de Dresden. Nas ruas, vendia-se souvenires. Antes de ir embora, devo ter tomado um sorvete com outros turistas. Parecia ter sido uma boa cidade antes do nazismo e das bombas.

Depois do bombardeio, Billy e alguns americanos que sobreviveram por estarem dentro do matadouro, limparam as ruas dos destroços e dos cadáveres. É assim mesmo. Vonnegut estava lá. Como ele afirma no começo do livro “Tudo isso aconteceu, ou quase. As partes da guerra, pelo menos, são bem verdadeiras”. Dresden, depois das bombas, é descrita como a lua.

Em relatos orais de sobrevivente de guerra, é comum as associações com clichês entre o antes e o depois. Comparar Dresden à lua é ser mais honesto com a guerra do que muitos escritores que nunca estiveram na guerra. Ou é isso que imagino. Usar metáforas é a forma mais frequente de lidar com traumas. Falando em metáforas…

Tralfamadore

Deslocar-se do tempo é uma maneira efetiva de fugir. Além das repetições de “É assim mesmo” e do deslocamento da narrativa para uma “área segura” da guerra, Vonnegut parece deixar uma pista nos Tralfamadores de algo antiguerra. Em certo momento, Billy é raptado pelos alienígenas e exposto no zoológico deles. Ele não se revolta. Até se diz tão feliz no zoológico quanto era na Terra.

Antes de ser raptado, ele acorda e se levanta da cama, deixando a esposa dormir. Ele sabe que vai ser abduzido em algumas horas. E sabe que não há nada que ele possa fazer contra isso. Resignado, vai assistir tevê. Um dos momentos mais irônicos do livro é quando ele controla o tempo para assistir a um filme de guerra ao contrário. De trás para frente, são os homens que colocam os metais da bomba dentro da terra, para impedir os aviões de voarem por cima das cidades e bombardearem tudo.

É com os Tralfamadores que ele descobre a filosofia do tempo. E a ausência de livre-arbítrio, invenção humana. Uma saída reconfortante para quem fugiu de todas as batalhas e viu o mundo ao seu redor ruir. Ele não podia ter feito nada. Era o tempo sendo o tempo.

Uma leitura recorrente dos alienígenas é que eles são representações simbólicas dos traumas pós-guerra vividos por Billy. Para conseguir lidar com as tragédias da guerra, Billy inventou uma ilusão. “A diferença entre a ilusão e a verdade”, lembra Novalis, “repousa na diferença delas em suas funções na vida.” Para quem foi impotente frente à verdade, a ilusão é uma necessidade. Não houve aprimoramento algum em Billy por conta da guerra. Onde que foi catalisada a existência? Em Tralfamadores, talvez.

Por causa da guerra, Billy aparentemente (porque existe a chance de ser tudo real) enlouquece e inventa uma história de carochinha. Não se vangloria nada das batalhas. Ninguém ganhou nada. E, no final, quem estava certo sobre o homem era, como de costume, o Diabo.


Leopoldo Cavalcante nasceu em Fortaleza, Ceará. É editor da revista Aboio. Foi colunista de cultura no jornal Focus. Escreve sem compromisso no @resenhador_, Instagram literário – ou diário irregular de leituras.

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