cadela de três patas

por Ágnes Souza

Ágnes Souza é poeta, professora, pesquisadora e pernambucana, publicou dois livros de poesia re-cordis (2016) e Pouso (2020), ambos pela Editora Moinhos. Tem poemas publicados em revistas eletrônicas no Brasil e em Portugal, respectivamente a Ruído Manifesto (2018) e A Bacana (2018). Participou de coletâneas como “A Bacana, poemas reunidos I” (2019), A Bacana; “Visíveis I” (2020), Filipa Edições; “Parem as máquinas”, Selo Off Flip (2020).


uma cadela de três patas e um ímã
me acertam num mesmo ponto
pois assim como uma cadela de três patas
não é apenas uma cadela de três patas
um ímã nunca é somente um ímã
sobretudo porque uma cadela de três patas
habita há semanas minha memória recente
penso em associações práticas com a morte
em analogias com o desequilíbrio
com qualquer diálogo com ausência
mas uma cadela de três patas
me diz mais sobre equilíbrio e presença
do que qualquer outra coisa

durmo acordo tomo meu leite fermentado
pensando em seu pelo clássico cor de caramelo
seu sorriso disponível de vira-lata
seu rabo a cortar o vento
e que um ímã pode ser apenas um ímã
mas uma cadela de três patas
de modo algum é
somente uma cadela de três patas.


Animal print

tenho caçado tigres nos livros
que por vezes me fogem
então retorno a lê-los
e os capturo, circulo, sublinho
outrora procurei por baleias e leões
talvez o pré-requisito seja
tomar a imensidão como medida
a impossibilidade de encará-los de fato
tenho enxergado falta de ética
a procura por animais pequenos
peixes tartarugas esperanças
meu interesse foi breve
tal qual suas medidas
e a capacidade de eles me matarem

tenho sonhado com olhos e mais olhos
de um mesmo jaguar
eles são lindos mas não me dizem nada
que desperdício uma beleza em silêncio
não tento caçá-los ou me vingar de qualquer coisa
dou-lhes permissão para que se aproximem
não falo uma palavra
aceno com o queixo e nos entendemos

ali!

eu e o jaguar de inúmeros olhos
queria que ele me perguntasse
o porquê do meu interesse por animais grandes
para que eu poder perguntá-lo
de volta

o porquê do seu interesse por mim
e ambos tornarmos a nos apegar ao silêncio
e a desperdiçar belezas.


Foto de Luísa Machado.

1 Comment

  1. Socorro, Ágnes. E obrigada por esse respiro profundo.

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