Café com Paul Celan (fuga da morte brasileira), poema de Vitor Cei

por Vitor Cei
Foto de Luísa Machado para ilustrar o poema de Vitor Cei, "Café com Paul Celan (fuga da morte brasileira)".

Vitor Cei é doutor em Estudos Literários pela UFMG, com doutorado sanduíche em Estudos Latino-americanos na Universidade Livre de Berlim. Trabalha como professor de literatura nos cursos de graduação, mestrado e doutorado em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. Publicou dez livros acadêmicos. Café com Paul Celan (fuga da morte brasileira) é seu primeiro poema publicado.


café preto do alvorada nós o bebemos no ocaso
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos de noite
nós bebemos e bebemos
nós abrimos covas no ar e não ficamos confinados
um genocida mora no palácio brinca com emas escreve ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤ  sua caneta funciona
escreve quando escurece na pátria amada teu cabelo pretoㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤㅤ  ㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤㅤ  ㅤLuana
ele escreve sai para o cercadinho as estrelas brilham ele tange seu gado
assobia para a esquerda ordena que cave a própria cova na terra
dança funk em passeio de lancha no litoral

café preto do alvorada nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos no ocaso
nós bebemos e bebemos
um genocida mora no palácio brinca com emas receita cloroquina
escreve quando escurece na pátria amada teu cabelo preto Luana
teu cabelo cacheado Luana Gabriela
nós abrimos covas no ar e não ficamos confinados

ele berra não sou coveiro todos nós vamos morrer um dia tem que deixar de ser um país de maricas
temos que enfrentá-lo de peito aberto, lutar
mas cavamos mais fundo
ele agarra a arma na cintura saca e mira com seus olhos azuis
nós cavamos mais fundo e continuamos a cavar

café preto do alvorada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos no ocaso
nós bebemos e bebemos
um homem mora no palácio teu cabelo preto Luana
teu cabelo cacheado Luana Gabriela ele brinca com emas

ele tange mais docemente a morte a morte é uma mestra da pátria amada
ele tange mais gravemente estradão rebatedouro depois a gente esfumaça
abrimos covas no ar e não ficamos confinados

café preto do alvorada nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é a mestra da pátria amada
nós te bebemos no ocaso e de manhã nós bebemos e bebemos
a morte é a mestra da pátria amada seus olhos são azuis
ela nos fuzila com balas de chumbo
um genocida mora no palácio teu cabelo preto Luana
ele tange seu gado contra nós e oferece uma cova no ar
nós cavamos uma cova no ar e não ficamos confinados
ele brinca com emas e sonha – a morte é uma mestra da pátria amada brasil

teu cabelo preto Luana
teu cabelo cacheado Luana Gabriela
nosso açaí roxo da transformação


Foto de Luísa Machado.

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