O centro do cinema: sobre Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho

por Caio Girão
Fotografia: Cine Veneza, cena do filme Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho — Divulgação.

Caio Girão escreve. Publicou a novela Meus Escorpiões (publicação independente), o livro de poesia auto-anátema (Caravana Editorial, 2022). Em breve será publicado o romance Cantem os Cânticos Como Cantaram os Anjos (Opera Editorial, no prelo) e o livro de contos Ninguém Mexe Comigo (Editora Aboio, no prelo). Alguns textos podem ser lidos em: https://caiogirao.medium.com/.


Numa geografia tão íntima quanto universal, Kleber Mendonça Filho conta sua história e, em cada crônica, reflete a nós mesmos — uma consciência de mundo a partir do lugar. Retratos Fantasmas foge às classificações, mas tem seu lugar, como um peixe que escorrega da mão do pescador e sabe o caminho de casa. Com a mesma receita eficaz de seus trabalhos anteriores, o filme se apresenta num prólogo acompanhado por uma música expressiva: Happy End, de Tom Zé — e dá o tom de ironia que permeia todo o filme. Mas quem fala é o cinema, as salas de cinema, o centro de Recife, o centro de todas as capitais do Brasil: Você fala que sim, que me compreende; você fala que não me entrega, que não me vende, que não me deixa, que não me larga. Como bom arquivologista que sempre foi, Kleber nos apresenta fotos, documentos, registros de um passado que ainda é presente (e que foram produzidos, coletados e guardados durante um período de trinta anos).

É a mesma paixão metalinguística que podemos ver em seu primeiro longa-metragem, Crítico (2008).

“O foco dessa câmera tá zero, viu?”

O primeiro capítulo, “O apartamento de Setúbal”, num estilo semelhante aos filmes de Agnès Varda, nos apresenta um dos maiores personagens de sua filmografia: o apartamento em que viveu boa parte de sua vida, a partir dos dez anos, e é a principal locação de O Som Ao Redor (2012). A voz de Kleber nos diz muito sem falar quase nada. O álbum, ou museu, de imagens do bairro e do apartamento evidencia os diferentes conceitos geográficos definidos por Milton Santos: lugar (“ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente” — “o lugar é o depositário final dos eventos”), território (“uma materialidade cuja apreensão por meio dos sentidos caracteriza-o como paisagem”) e espaço (“acumulação desigual de tempos”).

Esse ensaio autobiográfico nos leva à história de Boa Viagem, do Capibaribe, de Joaquim Nabuco, de Joselice Jucá e dos filmes feitos por Kleber e sua equipe. A mãe do diretor, Joselice Jucá, foi a principal responsável por mudanças radicais e reparadoras no apartamento em que viveram por mais de vinte anos. Ela também foi historiadora e pesquisou o movimento abolicionista e a história oral (importante campo de estudo que só agora parece receber a devida atenção, mas foi defendido por Joselice em TV aberta).

Antes de ver o filme perguntei ao diretor se o fato de o “F” de “fantasmas” durar por mais tempo na tela no segundo trailer seria uma referência a F for Fake (1973), de Orson Welles. Ele me diz que não pensou nisso e não percebeu, que a única referência clara a F For Fake é a frase “filmes de ficção são os melhores documentários”, dita numa aparente dublagem do próprio diretor para uma cena que mostra o interior de um prédio onde ficavam as maiores distribuidoras de Hollywood, no centro de Recife. Apesar de todo documentário-ensaio beber de F for Fake e Orson Welles, a maior referência em documentários para Kleber me parece ser Eduardo Coutinho. Retratos Fantasmas tem fortes influências de Cabra Marcado Para Morrer (1984) e Edifício Master (2002).

Os lugares e os bichos definem a memória audiovisual de Kleber: o bairro e suas ruas; as casas cada vez mais protegidas por grades e cercadas de prédios; os latidos do cachorro Nico, que co-estrelou O Som Ao Redor (e se tornou fantasma por causa do cinema e da TV — Kleber ouvia os seus latidos durante a noite, acreditando ser um fantasma, quando na verdade era o som que ouvia das televisões exibindo o filme durante a Tela Quente, na Globo); os gatos que passaram a habitar a casa de Nico depois de sua morte (e ignoram toda e qualquer forma de contê-los — como na cena em que andam por dentro da cerca que deveria impedi-los de pular o muro); a floresta que tomou conta dessa casa depois de ser abandonada — e passou também a hospedar cupins ameaçadores à estrutura da casa, inspiração para o filme Aquarius (2016) — os fantasmas reais e imaginários.

“Se não gosta de mim, foda-se”

O segundo capítulo, “Os cinemas do centro de Recife”, expande o território em questão e conta não só a história sentimental de Kleber, mas a história de um país que pode ser entendida pela ascensão e declínio dos cinemas, desde Seu Alexandre (Alexandre Moura) até os esquemas de propaganda nazista durante o governo Vargas. Seu Alexandre, projetista, é um lugar, é o cinema. Poucas homenagens no cinema são tão bonitas quanto a que é feita a Seu Alexandre.

A contagiante paixão do diretor pelas salas de cinema como Art-Palácio, Trianon, Boa Vista e São Luís carrega boa parte desse capítulo, uma viagem no tempo à magia do cinema que, apesar de curta, é viciante. Esbarramos com figuras como Ariano Suassuna e sua esposa, namorados, amigos, trabalhadores no final do dia. Todos embarcam na fantasia dos filmes, e depois são devolvidos à realidade da cidade, ao cheiro de maré, frutas e mijo.

A montagem do filme (de Matheus Farias) é impecável, entre imagens originais gravadas para o filme (com direção de fotografia de Pedro Sotero), o acervo pessoal de Kleber e amigos, trechos de reportagens e cortes retirados de cineastas pernambucanos, como Juliano Dornelles, Fernando Spencer, Jota Soares e Cláudio Assis. Também é impecável o trabalho de mixagem de som, de Ricardo Cutz. Uma crônica interessante é sobre o som do telefone tocando, mais ou menos no meio do filme, um telefone toca e ninguém atende, depois vemos que era Kleber ligando, como se tentasse chamar fantasmas, ou falar com alguém que não está mais lá. Instantaneamente lembrei de Era Uma Vez na América (1984), de Sergio Leone — que não deixa de ser também uma carta de amor a uma cidade, Nova York. Perguntei a Kleber sobre essa referência e ele me disse que Cutz insistiu que deveria ser um mesmo som de telefone tocando, sempre repetido no mesmo tom, na mesma altura, da mesma forma incômoda.

O trabalho de montagem e de uso de arquivos antigos (pesquisas feitas por Kleber, Karina Nobre e Pedro Coelho) resultou também em muitas restaurações de filmes e fotos que sofreram com intempéries da passagem do tempo. Muitos arquivos analógicos foram digitalizados e ganharam mais vida útil. Esses arquivos retratam e revelam um Recife surpreendente, que guarda intrigas internacionais e diversos fatos históricos. A produção do filme, por Emilie Lesclaux, gerou impacto para além da própria obra e deixou rastros de conservação em muito material associado a Retratos Fantasmas.

“Filme é massa”

O terceiro capítulo, “Igrejas e espíritos santos”, expande a noção das mudanças que o centro de Recife vem sofrendo a partir de um olhar muito detalhista, que enxerga a construção do shopping Marista (que mantém o nome em uma “homenagem” ao colégio que antes ocupava o lugar), de estacionamentos no lugar de cinemas, de edifícios residenciais que se tornam comerciais.

As salas de cinema, que de fato são tratadas como igreja por muitos cinéfilos (“Já ouvi coisas como: ‘Ver Glauber Rocha, só se for de joelhos’”), têm se convertido em Universais, igrejas evangélicas, batistas. Muitas vezes, inclusive, preservando a arquitetura interna e o formato de sala de cinema. Projetores e equipamentos são sucateados, escondidos em almoxarifados, salas de máquinas e depósitos.

A cidade se nega e se celebra, se destrói e se reconstrói. Não é uma nostalgia saudosista, é um registro do tempo, de uma cidade histórica, bonita e estranha. Na penúltima sequência do filme, uma espécie de epílogo: um pedaço de ficção prenhe de metáforas (e do humor e fantasia de todos os capítulos anteriores), conclui o ensaio com elementos ultra-modernos, como o Uber, os aplicativos de direção, que tiram a autonomia do motorista. Com atuação do sempre incrível Rubens Santos como o motorista de aplicativo, Kleber dialoga consigo e com a cidade. O motorista fala sobre seu interesse em cinema e seu super poder de ficar invisível (como ficam os cinemas esquecidos, os trabalhadores precarizados, as pessoas marginalizadas), mesmo sem querer — invisível mesmo. O estranhamento se torna realidade: o volante parece se mover sozinho — uma cena que me lembra Entre Abelhas (2015), de Ian SBF, e algum episódio da série The Twilight Zone. O carro segue sua direção, e o motorista está lá — só não pode ser visto.

A última sequência mostra uma série de farmácias, que se apinham às margens da rua, e ocupam os lugares das ruínas, de espaços esquecidos. Mas não há voz: cada um entende como quer, o que significam essas farmácias que nascem aos montes e tomam espaço dos quarteirões, das esquinas. Farmácias e mais farmácias.


Fotografia: Cine Veneza, cena do filme Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho — Divulgação.

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