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por Samara Belchior
Fotografia: Dois elefantes diante do Palácio do Catete – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

Samara Belchior é professora de história e filosofia na ZL de SP e escritora. Autora dos livros Bruxismo e outras automutilacões e Pra não ser de plástico quero ser bruxa. Tem dois gatos.


     primeiro 

senha onze triagem no painel. a pressão está normal, a pressão é sempre a mesma com variações normais. não há febre, nenhuma doença pré existente precisa ser anotada, não há doença pré existente. queixa de uma pontada na virilha, constante, se estende para as pernas e viram duas pernas de elefante, inchadíssimas para um tronco humano carregar. 

     segundo 

senha cento e onze, a pontada na virilha, as pernas se arrastam, repete a queixa. repete a queixa na triagem, no consultório. 

     terceiro 

senha mil cento e onze, é de tarde desta vez. a enfermeira empurra a cadeira de rodas. às pernas somou-se o peso da tromba. nenhuma doença pré existe. a pressão continua a mesma mas vamos interná-la. 

então você se sente tão pesada quanto partes de um elefante, rum? os exames de sangue anteriores não mostraram trombose, inflamação elevada, essas coisas mais graves. verificaremos a coluna amanhã de manhã. este remédio vai ajudar a dormir. 

     quarto 

há muito tempo eu não dormia tão bem. espero que apareçam motivos para uma endoscopia também, é que durmo como se tivesse tomado onze caipirinhas de vodka. a parte boa, além de dormir, é esquecer. elefantes têm ótima memória. ainda bem que não sou um elefante. 

     quinto 

o resultado do exame diz que não tenho hérnias, a punção não mostrou alterações na imunidade, não há idiopatias e a pressão permanece a mesma, sem alterações anormais. 

pensava no que fazer para permanecer dormindo bem, afinal não percebia quando vinham trocar o soro de madrugada, quando muito sentia cheiro de álcool,  ou era um sonho com margueritas. 

     sexto 

deixar de habitar a jaula, deixar de exibir as patas na lama, deixar de comer sendo observada, deixar de acordar tão antes da abertura dos portões. será que preciso adulterar o prontuário? não é algo tão difícil de fazer, provar que está doente num papel. zanzando o olhar cria um roteiro, apaga mentalmente as partes que podem dar errado. para permanecer dormindo bem. na troca de plantão carrega o tripé do soro pelos corredores, um sinal mostra 

área desativada,

é aqui, um bom lugar para continuar dormindo bem. 

     sétimo

a pressão começou a mostrar alterações, disse a enfermeira noturna. os sinais vitais não correspondem com a leveza da pele e a aparência de hidratação adequada.

estou dormindo tão bem. 

     oitavo 

então você quer que eu entregue tudo isso dentro de onze horas? amanhã é sábado, se lembra? amanhã é quase agora. dentro da sala mais larga do prédio – a única com sofás – ele disse que sim, vai levar os filhos ao circo, prometeu. claro que lembra que amanhã é sábado. por isso mesmo levantou, beijou a bochecha dela com sutileza, afastou-se, olhou para ela. olhou nos olhos e depositou uma nota de duzentos na mesa.

enquanto digita percebe as garras nas pontas dos dedos, atrapalham a digitação, estão enormes, recheadas de vestígios de um dia sem banho. são pedacinhos de borracha, tinta de carimbo, restos de protetor solar com cor, grafite. cheiram a café. a pressão está como sempre, com variações normais. melhor não sair para fumar um cigarro, hoje já é quase amanhã. 

     nono 

então você quer ter mais um filho? amanhã é domingo, se lembra? amanhã é quase segunda feira. ele disse que quer mais um filho, sim, é o curso natural da vida. pensa com as pálpebras que ela não se lembra de quando os outros dois chegaram, foi quando o cotidiano pareceu fazer mais sentido, os cômodos preenchidos, o dia de trabalho terminando mais depressa com a expectativa de pegá-los no colo, nem que fosse por alguns minutos antes de precisarem do peito. 

enquanto lava a louça as pernas engrossam, as garras limpam pelo efeito do detergente. não usa sutiã, as gotas respingam nos bicos pendurados centímetros acima do umbigo. o que se sente nos bicos de peitos caídos na borda da pia é um fio de leveza. as pernas pesam, as garras doem, os dentes rangem. a pressão não apresenta alterações, é sempre a mesma, com leves e naturais variações.   

     décimo 

a área desativada cheira à biblioteca da faculdade, como livros já manuseados, empilhamentos, rabiscos de canetas proibidos, cheira à silêncio e poeira. a paciente do leito um não está mais no leito um. não. agora é tempo algum. 

uma vez a ouvi dizer, junto às paredes da área desativada, algum grunhido. nas trocas de plantão noturnas ela escapa para a pequena área verde e aberta. escorre garoa em sua camisola, por sobre os bicos do peito. ela se tornou invisível. não corta as garras, nunca corta as garras. sonha: montada num elefante, percorre a pressão do vento, tão variável. aprendeu a dormir.  

     novembro 

que dia é hoje?


Fotografia: Dois elefantes diante do Palácio do Catete – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

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