círculos concêntricos

por Gabriel Cruz Lima

— Eu gosto dele por causa da distância. Acho que eu gostaria menos se a gente pudesse se ver.

— Isso é sua cara desde sempre, filha.

— Com ele eu achei que seria diferente, não sei. Parecia que tinha chance das coisas crescerem, expandir meus horizontes.
    — Primeiro foi o ballet, porque você tinha cismado que era boa dançando, sem  nunca se mexer da cadeira. Eu e seu pai, naquela onda de apoiar tudo o que o filho quer, te matriculamos no estúdio que suas amiguinhas também faziam. Dois meses e você largou, porque a professora não sabia de nada. E aí você descobriu a pintura e se frustrou quando a aquarela borrou sua camiseta. E depois a culinária, o teatro, o amor. Quando preenchem seu espaço, você se afasta. Por um lado é bom, você se mantém independente, por outro não deixa ninguém interagir com você.

— Mas é diferente, mãe. Essas são coisas, o Pedro é uma pessoa.

— Tudo bem então, temos o Lucas, o Matheus, o Pablo, a Mariana. Assim como o ballet-culinária. Eu enxergo um círculo aqui. Por mais que seu pai discorde de mim, acho que a gente errou em alguma coisa no meio do caminho.

— No início, quando abriu o compasso.

— Anna, sem falso drama, por favor, levanta desse sofá. Esse Pedro tem ligado aqui mais de três vezes por dia. E ninguém, a não ser sua tia, usa mais telefone fixo. Resolva esse problema pelo menos.

— Qual o problema? Ele acha mais romântico que a gente fale ao vivo.

— Eu já atendi esse telefone de madrugada, achando que era alguma coisa importante. Quer saber o que é romantismo? Olha pro seu pai ali. Ele me pagou uma porção de calabresa com cebola ontem.

— Os tempos são outros agora.

— Mas toda demonstração tem a ver com conhecer a pessoa. Seu pai sabe que eu gosto de calabresa. De todos os tipos e de todas as formas. E você, do que você gosta?

— Mãe, por favor, sem baixaria.

— Você não tem mais quinze anos. Sai dessa concha. Eu e seu pai trepamos de vez em quando. Você ainda não respondeu do que você gosta.

— Pelúcia da turma da Mônica. Um vibrador rosa com a grossura de um punho fechado. Um diamante do tamanho de uma calabresa. Sei lá, talvez fazer amor com o mesmo pinguço por 40 anos.

— O irônico é que nessa lista não tem ligação telefônica. Seu namorado chorou comigo uma vez que você não atendeu. Eu nem conheço o cara.

— Namorado, não. Não vamos apressar as coisas.

— Faz cinco meses que ele me chama de sogra quando eu atendo.

— É o jeito romântico dele.

— Não me interessa. Só quero que ele pare de ligar. Vocês têm celular, internet, foto pelada.

— Ele quer minha alma, não meu corpo. Tá pra chegar um poema que ele fez com semente de urucum, aliás.

— Ele importou de onde essa semente de urucum? A gente tá em São Paulo, ele mora a 20 quilômetros daqui, e você me vem com essa de Urucum. Se chegar eu dou pro Spike brincar.

— Se eu descobrir que você jogou fora…

— Você vai fazer o quê? Mudar a senha da Netflix?

— Vou sair de casa e morar com ele.

— Lá no pico do Jaraguá com o Urucum, só se for. Bom, pelo menos não tenho risco de ter netos, já que ele quer só a sua alma.

— Não é isso, eu me expressei mal. Ele me quer por inteira.

— Ótimo, então chame ele pra comer uma salada, ou abobrinha gratinada, ou macarrão sem macarrão. Seu pai vai ficar muito feliz em cozinhar para alguém.

— Vou pensar no caso, mas dessa vez não precisa ser nada vegetariano. O Pedro come carne.

— Algum dos seus namorados não é vegetariano. Temos uma surpresa aqui…

— Mas ele reza antes de comer a carne, se não tiver problema.

— Eu preferia que ele não comesse então. Somos uma família pagã, cultuamos o bode. Se não tiver problema para o seu testemunha de Jeová-indígena, tudo bem.

Na falta de uma palavra distinguível, Anna rosnou em direção à mãe. E mal pegando o celular, apagou e refez umas duas vezes o convite ao não-namorado. Ligou a televisão para que pudesse expiar aquela sensação dúbia, de querer não querendo Pedro.

Com aqueles óculos de armação verde da foto, ele parecia tão menor e bonitinho, como se ela pudesse escondê-lo debaixo do sovaco e sufocá-lo permanentemente em um abraço.

Em paralelo, ele se borrava em demonstrações gulosas. Ela nem gostava de chocolate. Mas toda terça-feira ele comprava um bombom de sabor diferente para adoçar a vida de quem se ama, como dizia. Dessa forma Pedro era carinhoso, atencioso, e, infelizmente, romântico. Até chorava no telefone. 

E enfim, o que ela quase admirava eram suas poesias com semente de Urucum. Depois de rir para as colegas, um sentimento análogo à inveja a invadia. O cafona é primo do corajoso, ela pensava sobre as exposições e vendas dos poema-quadro online. Na descrição dos produtos ele dizia: poeta da natureza-citadina. Perto dos outros tipos, Pedro Guarani era tão alheio à noção de vergonha que ficava até charmoso. Parecia até com o cara do de férias com o ex. 

Mas tinha um porém, ele tinha problemas com soluços. Gravíssimo problema com soluços. Fosse na rua, na chuva, ou na fazenda, ele parava, segurava o fôlego, e tentava controlar o impulso do ar. Não foram raras as vezes, algumas em vão, que eles ficaram ali, parados no sol quente ou no calor do quarto por incríveis cinco minutos até que passassem os acessos involuntários. Geralmente ele se desculpava e ela aceitava da boca para fora. No íntimo, cada soluço engolido era duplo, dele a tristeza pela condição física própria, dela uma frustração pelo condicionamento físico alheio.

Se a barriga proeminente fosse desculpa, tudo bem, compreensível, mas toda vez o sexo era aquela ligeireza, aquele show de fogos artificiais: sobe, explode, faz um barulhinho e só dá umas cosquinhas no canto dos lábios. Para de broxar, Pedro, ela susssurou para si mesma enquanto mudava de canal mais uma vez.

Anna tapou a boca, como se a mãe pudesse ouvi-la do outro lado da linha e ela mesma quisesse conferir o que havia dito. Pare de broxar. Pare de soluçar. 

Passando pelo Gasparzinho ela riu, porque queria Pedro um fantasma. Alguém que sobrevivesse apenas em espírito e cuja dimensão corpórea fosse zero.

O telefone toca.

— Filha, atende e fala pra ele não ligar mais. Chega né.

Anna tira do gancho e desliga em sequência.

— Por que você não falou com ele?— Eu gosto dele por causa da distância.


Gabriel Cruz Lima é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e graduando em Letras pela Universidade de São Paulo. É tio da Maria Luiza e escreve contos e crônicas quando os chakras se alinham.

1 Comment

  1. às vezes a gente gosta mais da ideia da coisa do que da coisa em si né. dói mais quando a coisa é uma pessoa, mas não deixa de ser uma forma de gostar. enfim, gostei muito (do conto e da ideia dele)! ri demais e me identiquei mais do que gostaria haha

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