Cleópatra

por Caio Girão
Fotografia: Igreja de Santa Luzia – Augusto Malta (Acervo Instituto Moreira Salles).

Caio Girão escreve. Publicou a novela Meus Escorpiões (publicação independente), o livro de poesia auto-anátema (Caravana Editorial, 2022). Em breve será publicado o romance Cantem os Cânticos Como Cantaram os Anjos (Opera Editorial, no prelo) e o livro de contos Ninguém Mexe Comigo (Editora Aboio, no prelo). Alguns textos podem ser lidos em: https://caiogirao.medium.com/.


Ela será nossa salvação, irmãos. Jesus nos disse: “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também preciso conduzi-las. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. João, capítulo dez, versículo dezesseis. Vocês podem estar se perguntando o que é que uma égua tão bonita, tão lisa, tão jovem faz em nossa igreja nesta manhã de domingo. Mas ela é o início do nosso caminho. “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. A vida eterna, irmãos. Só existe um caminho para ela. E só começa quando acaba esta nossa vida mesquinha na terra.


Os irmãos Ribeiro trabalhavam para a igreja desde o início — quando a congregação contava com apenas uma dúzia de fiéis — como motoristas, carregadores, faz-tudo. Era um trabalho melhor do que quando trabalhavam nas Pirâmides. Nas Pirâmides eles tinham que fazer serviço dobrado todo final de semana, trocar turnos diurnos por noturnos sem qualquer regularidade. Além de ficarem próximos demais dos pecados da carne, dos vícios da mente. Fodia qualquer um que tivesse uma família para manter, uma esposa para fazer companhia.

O pastor também gostava do trabalho deles, especialmente porque: eram silenciosos, não faziam perguntas. Bem, uma vez fizeram uma pergunta – e não tiveram resposta.

Carregavam os bancos, os espelhos, ajudavam na expansão dos anexos, nas reformas. A Kombi deles valia ouro para a igreja. Todos lhes diziam que não seriam esquecidos. Deus os abençoava. Mas palavras não valem ouro, pelo menos não o ouro que o pastor guarda em casa. 

Há pouco tempo começaram a travar conversas entre si sobre o que poderia distinguir pecado de necessidade. Talvez o desejo. Um deles disse, mas já não se lembravam mais de quem disse.

Eram o suporte do mundo um para o outro, só conseguiam processar a realidade a quatro olhos, só conseguiam carregar os pesos a quatro mãos. O silêncio na presença dos outros era compensado pelas palavras trocadas quando estavam juntos.

Os Ribeiros não eram gente de arredar o pé, ou de enfraquecer. Até o dia em que foram chamados pela assessora do pastor para pegar uma encomenda em Picheramobim, a duzentos quilômetros dali. A Kombi aguentaria seiscentos quilos de bagagem? Achavam que sim. Endereço, horário. Não fizeram mais perguntas.


Quando me viram olharam ao redor, na esperança de que a carga fosse outra. Uma carga viva, pois bem. Queriam que eu abaixasse a cabeça, queriam que eu curvasse minhas pernas para caber na Kombi. Eu até levaria, o homem de turbante disse aos irmãos Ribeiro. Mas se soubessem da minha religião nem teriam comprado esta égua, ele disse. 

Durante todo o caminho observei os dois conversando por olhares. Acho que o pastor está começando novos negócios, disse o Ribeiro no banco do carona. O Ribeiro que dirigia me dispensava olhares inquietos pelo retrovisor, me olhava, se via nos meus olhos e se estranhava. Desde potrinha falavam da negridão de meus olhos.

Eu, que vestia bem a fantasia de domada, fui em silêncio, só me mexia para contrabalancear o chacoalhar do caminho. Escureceu, fechei os olhos e senti o vento na minha crina. Correndo numa velocidade alucinante. Talvez minha última corrida.

Quando a Kombi parou, me desceram. Pegavam em meus músculos, repuxavam minha pele grossa. Avaliavam meus movimentos, desde o retesamento dos músculos de minha coxa, até meu rabo abanante e minha respiração. Teriam avaliado melhor meus dentes, teriam segurado minhas patas para observar os cascos, se soubessem para que eu serviria. Aguardavam um relincho, mas eu não daria esse prazer.

Me deixaram numa antessala da secretaria da igreja. Estava com umas palhas mal postas. Esperavam que eu dormisse. Mas eu não durmo, porque o sono é primo da morte.


Vocês podem estar se perguntando o que é que uma égua tão bonita, tão lisa, tão jovem faz em nossa igreja nesta manhã de domingo, o pastor disse. Algumas crianças me olhavam desde o começo da cerimônia. Adultos gritavam amém, de braços levantados, olhos fechados.

Mas permaneci nos arredores daquela construção por algumas semanas. Todos os domingos eu era exibida, como um altar vivo. Nunca soube se o que sentiam por mim era mais próximo da adoração ou da repulsa.


E durante a noite, os irmãos Ribeiro te pegam, mas não de surpresa, porque você nunca dorme. Você é obediente, como te ensinaram todos os outros cavalos. Você não relincha. Eles trazem os olhos vazios e parecem prestes a revelar seus maiores segredos. Os filhos deles passam a mão em você. As crianças, seus corpos pequenos, serão as primeiras a caírem. Te puxam pela boca até uma igreja lotada, onde centenas de pessoas entoam cantos confusos. Onde centenas de sonhos se encontram na miséria. E antes que te enfiem uma espada na garganta para beber seu sangue, o sorriso venenoso do pastor te dá adeus, e te alivia, porque o peso de um homem pode ser maior que o peso da morte.


Fotografia: Igreja de Santa Luzia – Augusto Malta (Acervo Instituto Moreira Salles).

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