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por Danilo Brandão
Fotografia: Entrada do Jardim Zoológico – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

Danilo Brandão (1996) nasceu e vive em São Paulo. É autor dos livros de contos Tempos ainda sem nome (Editora Urutau, 2022) e Até a última gota (Editora Mondru, 2023). Já publicou contos e reportagens em diversas revistas, sites e jornais especializados em literatura, como Revista Piauí, Revista Gueto e Revista Lavoura. É graduado em Jornalismo pela UEL e mestrando em Literatura pela UNIFESP. Trabalha como redator e roteirista.


INT. RAIO X – NOITE

Tenho o que se chama de fígado gordo. Ou, como os médicos anotam nos prontuários, esteatose hepática. Mas isso não dá pra notar sem um hepatograma completo. É o resultado de anos de pratos feitos com muito óleo e pimenta, excesso de refrigerante no horário do almoço e barras de chocolate KitKat como sobremesa. Estou com quarenta e um anos e não pretendo lutar contra isso agora. Minha frequência cardíaca não passa dos cem por minuto há quatro anos: última vez que fiz sexo. Tenho um metro e oitenta e cem quilos. Apesar do ligeiro excesso de peso, me apresento com um corpo socialmente aceito quando estou de camiseta. Na verdade, minha relação com a vida é essa: não consigo me mover em direção ao subjetivo. Por isso, busco a opção que me parece mais apetitosa do cardápio em todas as refeições. Sem exceção. Não conseguindo, dessa forma, me livrar da gordura que entope minhas vias biliares. Sempre uso camisa larga, jeans e tênis. Sinto pena de todos os outros homens da cidade. Como se a vida já não fosse triste o bastante, ainda dão a maior importância para si mesmos, tornando tudo mais complicado. Prefiro me concentrar no roteiro das cenas curtas.

Minha mãe morreu no dia 15 de agosto de 2019.

EXT. UM CAÇADOR – DIA 

Aproveito a quinta-feira grátis no IMS para visitar a exposição com Gio. Estaciono numa rua paralela da Paulista e me apresso para atravessar o laranja do semáforo. Gio fica pra trás e aproveita para fechar o guarda-chuva. Subimos o primeiro lance de escadas com ela me falando sobre o estado de saúde da mãe doente. Me aborreço porque já conto o décimo quinto degrau. Pego o catálogo da exposição com o nome do fotógrafo em destaque: Daido Moriyama. Primeira grande retrospectiva latino-americana de um dos maiores fotógrafos japoneses vivos. Daido Moriyama (1938) iniciou a carreira no Japão do pós-guerra e se tornou o ícone pop mais influente da fotografia japonesa. Inspirado por artistas como Andy Warhol, William Klein e Jack Kerouac, Moriyama revolucionou a forma de olhar o mundo com suas imagens densas e granuladas. Gio interrompe minha leitura para me mostrar uma foto preto e branco de um sorriso. No lábio superior, uma pinta. Os dentes enfileirados. Ficamos em silêncio por quinze segundos. Ela volta a me falar sobre o estado dos rins de sua mãe. Ela quer ser mãe jovem. Não quer repetir os erros da sua progenitora. Vai diminuir o refrigerante. Cortar o carboidrato. Não quer mais fumar depois do sexo. Sente falta de algo que nunca teve na infância. No fundo, sente pena da mãe. Fico mal-humorado e rosno conclusões óbvias. Repito a cartilha da Organização Mundial da Saúde e os conselhos de um jovem iniciante na psicanálise. A fotografia é toda fragmentada, reduzida às partes e sem foco, como se um fundista de cem metros rasos levasse uma câmera em seu tórax ansioso. Cortes. Rostos, embalagens de produtos, anúncios, pisos de hotéis. Bundas, sorrisos, pelos pubianos. Analgésicos, outdoors e esquinas. Cidades. Vidas. Um casal assiste stories no volume máximo ao nosso lado. Reclamo e eles pedem desculpas. Dão as costas e voltam a sorrir para o celular. O sapato que meu irmão trouxe para mim de sua viagem abriu no dedinho esquerdo. Roça a cada movimento e já retirou a camada superficial da pele faz uns metros. Gio lembra de algo: sua mãe sempre foi péssima na cozinha e isso a atrapalhou no seu desenvolvimento alimentar. Minha cabeça gira e perde o foco como numa das fotografias de Daido. Meus olhos estão vermelhos e volta a chover lá fora. Comento que vai ser preciso esperarmos alguns minutos para caminharmos até o restaurante. Olho para as pessoas na rua e Gio nunca comeu frutas quando era pequena. Meu telefone toca. Tem algo de errado na minha vida. Minha mãe havia morrido. 

INT. ZOOLÓGICO – DIA

O que eu mais me lembro daqueles dias no zoológico era da chuva de suor que tomava conta das minhas bochechas. O cheiro de anis que deslizava para dentro de nossas narinas. Os pescoços tentando encontrar os bichos e a perplexidade juvenil diante das grades. Todos sem mover um músculo sequer. As formigas que escalavam as nossas meias de lã brancas rumo às nossas coxas. Leves e pesadas. Quando eu era criança e ia no Zoológico com a minha mãe, os bichos eram mais bichos. Ela me puxava para explicar que os gorilas eram nossos irmãos de alguma forma. Eu olhava para sua retina através da vitrine e não sabia aonde o gorila queria chegar ali parado. Sentia um ódio seco penetrar a minha epiderme. Era a condição humana por um fio. Eu e ele. Irmãos. Até um de nós dois sermos resgatados por uma distração qualquer. Partia para a solidão da girafa. Andava sem olhar para as suas patas. Não conseguia olhar nos olhos de ninguém. Eu seguia com meu jogo, tentando encontrar as suas retinas. Via ela encontrar finalmente uma nesga de folha para chamar de sua. Antes de mordiscar, parecia presa de alguma forma àquela imagem. Sozinha. Folhas. Era amor. Amor de novo. Até que a fome a resgatava, finalmente. Então se finda todo o amor. O casal de leão que se lambia lentamente, escondidos das verdades do mundo exterior. Pata sob pata. Doentes, doentes. Mortos para o palpável. Prontos para morrer num único mundo. O hipopótamo se lavando eternamente. Um verdadeiro roliço deslizando na superfície penetrável do riacho artificial. Sentia inveja. Um sol terrível molhava minha visita ao Zoológico. Sentia-me encantado com o mundo que se apresentava sem vergonha de ser nu. Sentia vontade de acabar com aquele universo que colocava tudo em outra perspectiva. Os bichos. Poderia invadir as jaulas e atirar nas caras dos animais, para eles deixarem de nos diminuir com as suas retinas. Num só solavanco, minha mãe me puxava para a lanchonete do Zoológico. Fingia me dar opção de escolha. Andávamos entre outras mil mães e filhos nas filas da lanchonete. Nos sentíamos sozinhos. Ouvíamos um silêncio eterno entre a multidão das filas. Olhava pra cima e via minha mãe de pescoço espichado, impaciente. Uma girafa. Instante de dor. Fragilidade. Envelhecíamos juntos e sua imagem já não era mais como eu me lembrava ao nascer. Está magro. Come. Come. Ela me dizia. E eu me sentia um pouco maior quando ela se dirigia a mim. Dias tão tristes no meio dos bichos. Dias tristes como as noites na periferia das metrópoles. A vida passando. O suor secava e formava mais uma marca incoerente na minha camiseta branca. Antes do solavanco final, eu procurava uma resposta na casa secreta dos rinocerontes amarelos. Mas eu sabia que nós estávamos condenados a desaparecer. 

EXT. CAMADAS – NOITE 

Falência múltipla dos órgãos, mas só o rim parou. FA-LÊN-CIA. Você já ouviu falar? Falou pausadamente. Ela morreu durante o mês de agosto. Um mês sem feriado. No mês de aniversário de Napoleão e que foi firmado o acordo entre os Estados Unidos e a Rússia pelo Alasca. Sei disso porque foi o que eu fiz na sala de espera do hospital. Fatos históricos que ocorreram em agosto. Mês da morte de minha mãe. Encontrei o seu corpo esticado na maca de uma sala branca. É ela? Não. Não era ela. Sim, respondi. É ela. Um tumor no rim havia estourado e matado todos os outros órgãos. FA-LÊN-CIA. Já ouviu falar? Parecia um animal empalhado. Seu olhar buscava o último céu. Inerte. Os seus membros tensionados. Sua boca semiaberta, buscando empurrar o último ar pra dentro. Lembrei de Camus. Mas poderia ter me lembrado de qualquer outra pessoa que já perdeu a mãe, como minha avó. Ou Napoleão. Ou eu. Teve convulsão na hora da morte. Passaram um silver tape bem apertado nos seus pulsos. O hospital vai apurar o caso. Abrir um chamado para investigar o caso. Não disse o nome de ninguém. Sua vida estava fechada, finalmente. Em casa, conseguia ver o seu rosto refletido no espelho do banheiro. Senti um medo bobo de ficar sozinho. Liguei para Gio. Sua mãe havia piorado. Fiquei preso. Fui fazer a barba para o enterro e meu rosto começou a sangrar. A lâmina me cortou um pouco por querer me acordar. Tentei de novo. Vi seu rosto. Havia envelhecido e puxou minha mão para terminar o serviço. Quis pedir para parar. Fechei os olhos. As cortinas dançando conforme o gosto do vento. As janelas abertas. A cidade correndo. Tudo geometricamente artificial. Tombo a cabeça para o lado. Ela não existia mais. 

INT. TERRAPLANISMO – NOITE 

Na modorra das tardes vazias pós-morte, me enterrei nas lives de um youtuber terraplanista. Hora de buscar respostas. Somos macacos vivendo numa bola que gira.

– TV: está ao vivo? ao vivo? alô? vê pra mim se foi o som. o som? alô? alô? galera. galera. pra alegria de quem odeia. dos pecadores. todos eles. esse dia chegou. eu tô cego. nas trevas. trevas. chegou. esse dia. vamos lá. calma. antes de mais nada, quero explicar. calma galera. alô? estão me ouvindo. por favor, sinalizem pra mim. calma. tem muita gente preocupada que eu sumi das minhas páginas. paramos com a live. terminamos com tudo. mas calma. vou explicar. esse dia chegou. ninguém sabe tudo o que eu tô passando, galera. ninguém sabe o calvário que foi meus últimos dias, galera. tudo que passei. tudo. eu achei que era só mais um dia. achei mesmo. vocês me conhecem. meus dias são loucos. eu faço lives, converso com vocês. oriento quem quer ser orientado. mas não nesse dia, pessoal, no final, eu fiquei maluco. ninguém sabe disso. tô cego, pessoal. seguinte. vamos lá. eu não queria. não queria aparecer hoje, pessoal. mas é essa a vontade de Deus. ele quis que eu aparecesse dessa forma. dessa forma. mostrando minha realidade pro mundo ver. eu aceito. sou servo dele. de mais ninguém. antes de mais nada, eu sei. sei que os inimigos vão pensar que eu vou admitir. dizer a todos que eu estava errado. os inimigos são assim. é isso que eles querem. mas não. muito pelo contrário. eu não creio. não vou aceitar essas porcarias que vocês acreditam. não vou. e agora tô falando com vocês: inimigos. me escutem, eu tô cego. mas nunca estive errado. saber da verdade, pessoal. a verdade também não é o que Deus quer de seus filhos. não. Deus quer além da verdade, pessoal. é isso que ele quer de mim, de nós. Deus quer que eu seja bom. e isso é a coisa mais difícil do mundo. ser bom, fiel. ser Deus. falar a verdade, pessoal, é a tarefa mais complicada do mundo. no meio de tanta gente ruim. de tanto inimigo, pessoal. o além da verdade é a tarefa mais difícil do mundo, pessoal. falar a verdade deixa a gente é maluca. maluca. eu não tinha noção de tudo isso quando comecei. eu não entendia o quanto o mundo é cruel e os inimigos são fortes, pessoal. as pessoas precisam da mentira. acreditar em todas essas merdas. que a gente é um bando de macaco. essas merdas todas. eu não tinha noção. quando eu comecei, pessoal. eu pensei que era só vir aqui, ligar a câmera, dizer a verdade, iluminar. achei que seria apenas isso, pessoal. fui fraco. ingênuo. e Deus quer mais. mais que a verdade. ele exige mais que a verdade. eu sei que tem um monte de gente problemática, que odeia a família. tem problema com a família. com os pais. essas pessoas são nossas inimigas, pessoal. e eu achei que simplesmente iria chegar aqui. falar a verdade de Deus e ser ouvido. mas não. todos riram de mim. mais um dia eles riram. eu disse a verdade e eles me chamaram de louco. doente. agora eu tô cego, pessoal. Deus quer mais. mais que a verdade. ele não quer só que a gente fale a verdade. ele quer que a gente faça… a verdade mais do que palavras. alô. alô. estão me vendo? ouvindo? nada? eu não vou, pessoal. eu não vou ser um ídolo jamais. essa não é a verdade. essa live, essa câmera não é pra mim. ídolos são irreais. as pessoas acham que eu faço isso, que eu tô on-line. as pessoas acham que assistir outras pessoas vão tornar o que elas estão assistindo. Deus odeia ídolos, pessoal. e isso aqui, essa internet, essa plataforma de vídeo é uma fábrica de ídolos. o quanto eu tenho raiva de tudo isso. isso mata, pessoal. isso te mata. eu queria mostrar a verdade de Deus. a única verdadeira. a única que importante. não tô nem aí com o resto. o resto é inimigo de todos nós, pessoal. eu odeio São Paulo, pessoal. desde que voltei de lá, não enxergo mais. não quero sujeira. não quero ser famoso por ter voltado de São Paulo. nunca mais. o quê? o quê? não. eu vou falar. mais que a verdade. nunca me importei com a opinião dos outros. não estou nem aí se você não gosta de mim. eu sei. eu sei que todos estão errados, doentes. com ideia de sucesso, dinheiro e prostituição. pessoal, é o seguinte. tô vivendo uma parada muito louca. como se fosse uma visão do outro lado. eu quero, pessoal. até o fim, eu quero ajudar todo mundo. não tenho raiva de ninguém. não tenho raiva de vocês serem idiotas, vendedores de mentiras, de ilusões. eu não tenho raiva de você ser um idiota. eu ajudo todo mundo. eu não sou santo. eu… eu. santo é Deus, pessoal. não tem outro maior. não tem nada maior que Deus. eu não posso salvar ninguém. quem salva é Deus. eu estudo a palavra de Deus. eu sei. eu também tenho meus pecados. tenho meus erros. mas tô tentando ajudar. desde que eu decidi largar tudo pra falar a real eu falei. eu falei. não se luta contra um decreto de Deus. você os aceita. peço perdão. eu sinto tanta raiva de tanta pobreza num mundo tão rico. quanta raiva eu sinto. porque vocês não sabem do tanto de dinheiro que podem ganhar, de quantas terras podem conquistas fazendo o certo. seguindo os decretos de Deus. riqueza não tem nada a ver com vídeo no Youtube de homens querendo ensinar a ganhar dinheiro. e eu tô com ódio. ódio. as pessoas estão cegas e burras. seguindo a Nasa, gays e coitados com casas em São Paulo. vocês vão ter tudo se tiverem Deus. você pode ter o menor pau do mundo e ainda ter uma esposa. mas somente se tiver Deus no caminho. é Deus. Deus. é tudo. não tem nada que não seja de Deus. Deus. eu sou maluco. mas cansei. tô no limite. Deus. procure ele. o poder é ele. é o decreto. todos estão com dias contatos. não tem mais saída. eu tô cego. cego, pessoal. preciso ir. deu a minha hora. até a próxima live. escutem a verdade. verdade. até.  

EXT. TRABALHO – DIA 

– A pauta é essa. 

– Não tem outra um pouco mais propícia pro meu momento?  

– Você pediu pra sair por uns dias. O que a gente tem é isso aqui. 

– Ninguém quer fazer isso aí não.  

– Não sei, Gio. Quantos dias? 

– Quantos você precisar. Não sei. Fica uns dias por lá. 

– Mas o que tem que fazer? 

– Coisa limpa. Você vai lá, tira umas fotos de umas mães que estão morando lá na rodoviária, conversa com umas três só pra manter a pose e marca uma entrevista com o secretário, pra ele falar o que quiser sobre o assunto. Só ligar o gravador e depois transcrever. Parece que o governo quer focar nas mães pra tocar a população. Todo mundo tem mãe, né? 

– Nem todo mundo. Mas não pode questionar o secretário? 

– Bonitinho, é bom não fazer isso. É mais pra ele conseguir falar das ações do governo, foder com a Venezuela, ganhar a eleição local, umas paradas assim. Essas merdas. É release pago. Não tem erro. Você relata o problema. Os idiotas vêm com uma falsa solução, aparecem pra todo mundo e ganham a eleição. Não é problema nosso. É só ir, menino. Você aproveita e tira uns dias de folga. Não é bem uma Nova Iorque, mas pode ser divertido. E ajuda a gente a manter a verba do ano que vem. 

– Porra. Mas elas vão mesmo ser salvas? 

– Ninguém vai. Aproveita pra esquecer essa merda toda da sua mãe. Não é hora de querer bancar o estudante. 

EXT. NOTÍCIA – DIA 

REPÓRTER – É isso mesmo, Ricardo. A fronteira com a Venezuela aqui em Pacaraima segue com longas filas de migrantes em busca de regularização no Brasil. São centenas de migrantes que seguem enfrentando longas filas para conseguir a regularização no Brasil. Alguns aguardam há semanas na rodoviária local. O fluxo intenso é registrado desde que o governo federal liberou a passagem de estrangeiros em situação de vulnerabilidade. 

O apresentador do telejornal apertava os olhos para transmitir a sua preocupação ao telespectador.

APRESENTADOR – Agora, veja você, amiga dona de casa. Imagine você, mãe, com os seus filhos todos vivendo na desgraça de um país tomado pela corrupção. As pessoas se amontoam em busca de uma vida melhor. Preferem viver em rodoviárias no Brasil do que mendigar por papel higiênico na Venezuela. Querem salvar seus filhos. Salvar. Veja você, minha amiga. Isso é o retrato de um país tomado por uma ideologia destruidora. Complemente devastadora. É de cortar o coração, amiga. C-O-R-T-A-R-O-C-O-R-A-Ç-Ã-O. Assim como também é de cortar o coração demorar horas para cozinhar a carne do almoço de domingo com a família, não é? É por isso que a Claudete nos trouxe aqui o último lançamento da TopKenti. Isso mesmo. As panelas elétricas TopKenti 2000…

EXT. EMAIL – NOITE 

De: giovanna.editor@redacao.com

Para: Eu 

Querido, que ótimo que aceitou realizar a pauta. É ótimo que nós possamos contar com você mesmo depois de tantas aventuras. Não se esqueça de focar nas mães. 

Não se mova muito bruscamente. Deixe a ferida formar casca e cicatrizar. Vai passar. Mando as passagens em breve. 

Se cuida. 

INT. LISTA – NOITE 

Das coisas que tenho medo de levar na mala depois da morte de minha mãe:

– FA-LÊN-CIA 
– Sonhos bobos de infância 
– Lembranças falsas 
– Meias furadas
– Nefroblastoma
– Mitose 
– Colo de mãe
– Calças da infância 
– Hábitos que herdei 
– Bolo de cenoura com cobertura de chocolate 
– C-O-R-A-Ç-Ã-O
– O jeito que ela mexia no cabelo
– O seu medo das primeiras noites nos hotéis  
– Identidade 
– O medo de me mover 
– Maca 
– UTI 
– Fotos 
– Esperança 

INT. DANÇA NA COZINHA – NOITE 

Por ora, escuto os gritos de mamãe. Sinto pedaços do piso frio beliscando o meu calcanhar sujo. Me aproximo aos poucos do topo da escada. Abaixo o pescoço e o que toca a minha pele é o vento preguiçoso da madrugada. Começo a descida. Degrau por degrau. Antes do derradeiro, já posso ter uma visão satisfatória: o homem a agarrava pelo pescoço e os dois se esfregavam no chão da cozinha. Quero recuar, mas a imagem amorfa me prende. Estático. Na cozinha, a luta parece não ter fim. Minha mãe olha para os fundos de nossa casa da rua Lisboa. O homem olha pra mim. Sorri. Moscas lentas vagam por todos nós. No primeiro degrau, o bafo quente vence a dança contra o vento. Começo a suar. Aquela dança mística pode ter durado segundos ou dias. Eu preso, como um delírio. Ou uma febre. O olhar do homem como se me fumasse, carregando a minha mãe como um inseto de carapaça dura. Epilético. Até o golpe final. Ele faz um movimento brusco e a põe de joelhos como uma santa. Assusto. É nesse momento que ela me vê. E fulmina. Se levanta num choque. E vem em minha direção. Ele sorri, desfocado. Aquela cena, apesar de tudo, prova que estou vivo. E essa era nossa vida. Mamãe e eu. Ela que, na ânsia de me tirar daquele sonho, roça suas auréolas famintas em meu pescoço. Me desliza escada acima e me joga no centro do quarto. Sem falar nada. Antes de fechar a porta, sempre me lembro do seu olhar. Não tem nada mais a fazer. Era isso que nós éramos. A nossa vida. A ideia do desejo sobre o desejo me deixa inquieto. Parasita. Mamãe, onde você enfiou meus sonhos naquela madrugada? Não sinto mais o chão. Precisamos de descanso. Apesar de tatear todos os cantos, não encontro o meu lugar no quarto. Exalo ódio. Mas o vento da madrugada finalmente me vence e eu morro por mais algumas horas.  

EXT. ADEUS – NOITE 

O amanhã não vai nos despertar nunca. Gio me liga quando estou no aeroporto para falar algo sobre as entrevistas. Arrasto uma mala pela manhã fria. Ultrapasso calcanhares, passo por cima. O voo para Boa Vista sai em poucas horas. Decido me jogar em qualquer canto daquele balcão publicizado. Observo pequenos cachos de criaturas que buscam refúgio em outros retalhos da sociedade. Se deslocar, esquecer as suas vidas. Me atormentam. Crianças se arrastando brutalmente arrancadas do útero de seus sonos eternos. Já reparou como o silêncio das seis horas da manhã nos instiga a morte? Prateleiras lotadas. Atendentes caolhas. Gerentes preocupados. Amontoados de células que se debatem em busca do fim do dia. Bicicletas coletivas arrancam do solo, pousam na pista. Pois bem, aguardo a vez de me sentar. Iremos ficar escutando o motor que nos move daqui. Meu celular toca. Derrapo num resto de vida. O Ifood me lembra que é hora do café da manhã. João está vendendo sua casa em Florianópolis. Roberto protesta sobre a questão indígena no país. Diego vende seu novo livro de poesia. Mariana gosta de ouvir Natiruts. André tem saudades dos bons tempos do teatro na cidade. Andrea está feliz em seu intercâmbio na Irlanda. Raduan tem 10 álbuns que definem sua infância. Gio pagou cerveja para toda a redação no bar do Estadão. Lucas quer ser chamado de Rogéria. Camila estava às 14:35 começando os trabalhos. Natasha assistiu ao último filme de Lars Von Trier na unidade Frei Caneca do Cinema Itaú. O Deputado Renato acha injusta a sua cassação na Câmara de Curitiba. O “nóis no Insta” está com 50% de desconto em seu curso de marketing digital. Santiago já falou sobre punheta no programa do Jô e Keila ama a cerveja Original. Vana tem saudades da viagem de carro até a Argentina que fez com os amigos em 2005. Morel Revista entrevista o escritor João Paulo Cuenca nessa edição. A 1,2,3 milhas vende passagem de ida e volta até Paris por R$ 1.799 e o Relatos de Motos vende uma Chopper Road 160 por R$ 11.000. O PT quer que você vote no Lula contra o fascismo. A Folha de São Paulo colocou no ar mais uma crônica do Antônio Prata. Marina Mah escreveu os versos “Tudo é fachada na cidade pequena”. E o gato da Juliana morreu na madrugada de ontem. Outra Juliana pode falar por horas de relacionamentos, sabores de pizza e séries da Netflix. Beatriz tem um irmão que vai ser pai. Renato, o tatuador, está com a agenda fechada para agosto e o Prêmio Candango de Literatura abriu inscrições para contos e romances. Mario passou a noite com Bressane e Harry Potter. Rafaela fechou o mestrado de comunicação em Portugal. Nada. Nada. Isa abriu inscrição para um curso de leitura crítica, e terminou ontem de ler A Montanha Mágica. Nada. Nada. Claudio está indignado com o assassinato de uma menina de 11 anos em Belo Horizonte. O filho do homem mais rico do país morreu por conta de uma má-formação no coração. Renan ama gatos e pode te ajudar a cuidar do seu por apenas R$ 19,90 a hora. Ana lançou um novo single e, para o ouvir no Spotify, é só clicar no link. Letícia acordou às 5 horas para levar a filha até a casa do ex-marido. Às 7 horas já estava na esteira da academia. A Pizza Hut está com pizza em dobro nessa quinta. Nada. Nada disso importa e, quando eu me sentar na poltrona C-4 do voo LA-3900 rumo a Boa Vista e fechar os meus olhos, não me lembrarei de mais nada dessas coisas. 

EXT. RODOVIÁRIA – DIA 

Não é de se estranhar que eu me sinta nu nessa cidade. Raios de sol sobem pelas minhas pernas como se as derretessem aos poucos. Passeio pelas pontes de madeiras que quebram o asfalto das ruas. Um oceano imenso de cartazes de políticos e pichações de facções criminosas cortam o meu olhar. Como num grito operístico uníssono, os ambulantes empurram seus produtos contrabandeados. Meu outono em Boa Vista. Sinto a minha desintegração e tenho que aceitar. Salto algumas ruas abaixo do aeroporto e leio na carne a paisagem mudar. As duas horas marquei a entrevista com o secretário de relações internacionais. São onze. Busco um táxi. Quero visitar a rodoviária dos imigrantes. 

EU – Bom dia. Tudo bem? 

TÁXI – …

EU – Preciso ir até a rodoviária. 

RÁDIO – As redondezas da rodoviária internacional de Boa Vista voltaram a ser ocupadas por venezuelanos…

EU – Consegue me levar? 

RÁDIO – Cerca de 500 mulheres vivem agora no local porque não conseguiram vagas nos abrigos da cidade e não têm para onde ir…

TÁXI – Posso te deixar um pouco antes? 

EU – Tem algum problema por lá? 

RÁDIO – Mina veio para Roraima com o marido e os dois filhos pequenos…

TÁXI – Muitos, meu senhor. Não é daqui? 

EU – Não. Sou de São Paulo.

RÁDIO – Além da fome, as famílias convivem com o transtorno das chuvas…

TÁXI – Esses merdas inundam o lugar de vez em quando. Fazem a desgraça no país deles e querem vir pra cá tirar nosso trabalho. 

EU – Sei. Disso eu fiquei sabendo até. Tem muitos lá?  

RÁDIO – Não temos para onde ir. Não podemos fazer fogo, nem procurar emprego. Só queremos uma oportunidade…

TÁXI – Agora, acho que tem uns 100. Agora me fala. Fala pra mim se é justo. Tem a porra daquele presidente comunista lá. Mas quem colocou ele lá? São uns coitados. 

RÁDIO – Orlando também busca uma renda fixa. Ele já distribuiu currículos… 

EU – Não sei se é bem assim. Não sei se estão aqui por que querem. 

RÁDIO – Os imigrantes dormem em cima de papelões e alguns vendem salgados e cafés para conseguir dinheiro…

TÁXI – É nada. Vêm porque sabem que aqui vão ter comida uma hora ou outra. Vêm uns irmãos de igreja e distribui café, bolo, salgado. Agora vê se alguém me dá alguma coisa? Se eu não trabalhasse, queria ver o que esses merdas fariam por mim. 

EU – É aqui? 

TÁXI – Sim, senhor. 

INT. VEIAS ABERTAS – DIA 

Sua pele fina e veias apertadas me assustaram naquele dia. Um vulto caído. FA-LÊN-CIA. Nenhuma luz brilhava em sua direção. Como se fosse uma regra. Estrangeira de seu próprio corpo. As pegadas de seus males espalhados pelo piso de madeira. Acendi um cigarro. Trouxe para o pulmão um sem fim de palavras nunca ditas. É um sentimento comum. Gio me cutucou mais uma vez para falar da fatalidade da vida. Quis trazer a sua mãe para conversa. Fechei a cara. Me aborreci. Ouvia passos e empurrões. Ela estaria se debatendo. Não quero ser o filho de uma mãe morta. Agora sou filho de uma mãe que já não está mais entre nós. Deus abençoe, meu filho. Foi uma boa vida. Era só os dois. Coitado. Está desolado. Um tumor horrível no fim. Cresceu sem parar, como um fio de cabelo que cresce desordenadamente pelos poros do couro cabeludo e forma um exoesqueleto cefálico. Uma impossibilidade imagética. A sua pele perfurável e o último adeus as suas veias coladas uma na outra. A incapacidade. “Não faço ideia de onde estou”. Não sei qual estágio da vida é esse aqui. Um rapaz imbecil, há três meses não visitava a coitada. Todos os convidados tocam constantemente nos meus ombros para me perguntar se podem me desejar os pêsames. Uma mãe morta. A partir de hoje, não sou mais filho de ninguém. A fantasia acabou. As cortinas se fecharam. Os atores ligaram os seus chevrolets rumo às suas quitinetes no centro. Vão em busca dos orifícios da cidade que, agora, desconheço completamente. FA-LÊN-CIA. Nunca tinha tocado em veias tão aglutinadas em toda a minha vida. 

INT. FALHAS – DIA 

Sair de cena com o menor número de feridas possíveis. Quando chegar a hora de se acomodar no caixão, as feridas da nossa carne precisam estar viradas para cima. Ou cicatrizadas. Foi isso que ela me disse na última vez em que a gente se encontrou. Isso meses antes de ela morrer. Aos poucos, a gente foi deixando de lado as convenções que ligam mãe e filho. Fomos aceitando um caminhar mais livre. Cada um para o seu canto. Não estranhei a sua conversa. Esse era o objetivo da vida. Ela sempre vinha com algo fúnebre na hora das despedidas. Você espera que a angústia desapareça. Finalmente chegar a hora de enxergar o que as constelações escondem na neblina da madrugada. Vai fazendo tudo o que pode para limpar a estrada. A gente mora tempo demais no corpo. Não pode abandonar o exoesqueleto no final de uma estrada sem saída e caminhar por algumas semanas com a epiderme lisinha, sem sofrimento. Lide com isso. Não tem bifurcação salvadora no quilômetro 54 da BR. Não tem retorno. E o vinho cabernet escorregava na sua garganta cada vez mais rápido. Naquele dia, eu não transei com a Laura. Tentamos, como sempre, mas não tinha acontecido de novo. No meio da dança, eu pensei na possibilidade de ela engravidar naquela noite. A gente no canto direito da sala de seu apartamento alugado na zona industrial. Centenas de operários corriam para chegar no turno da noite. Milagre. Uma vida nasceria no sofá que ela roubou da casa do padrinho. Não. Nunca faça um filho numa viciada, lembrei. Seu cheiro era forte. Ela em cima de mim. Os joelhos apoiados no tecido listrado. Caçando meu olhar. Escorreguei minhas mãos. Pescoço, nuca, passei pelas suas vértebras. Comecei a contar. Senti dez. Já tinha alcançado números maiores. Tinha parado com a cocaína. Vinha engordando nas últimas semanas. Minhas mãos chegaram em suas coxas. Senti. Chegaram no sofá. As palmas das mãos sentindo o universo de infinitos “xis” que formavam o relevo do tecido. Pedi pra ela sair. E foi nesse meio tempo que ela me disse que estava tudo bem e que até estava saindo com outro. Em seguida, pude ver todas as janelas do apartamento se fechando em câmera lenta. Meu mundo morrendo pelo medo que eu tinha de ter filhos com Laura. Uma viciada. Sem retorno. Não é nada sério, ela me disse, mas não posso te esperar pra sempre. Precisamos tentar seguir em frente de alguma forma. Laura também não queria ter filhos com um viciado em testar divãs pela cidade. Você precisa encontrar uma forma de tirar sua mãe da cabeça. Eu não entendia o que ela estava me dizendo. Seguir em frente porque agora está tudo bem e ela está em casa e você precisa seguir em frente. Pra onde? Em frente. Não é sempre que vai dar errado. Eu não sou a sua mãe. E você pode se livrar disso aos poucos. Àquela altura, eu já não via mais minha mãe. E a gente tinha gostado de pegar rumos diferentes na estrada. Mas não. Ela tinha pregado na parede a imagem de um imperador Asteca submerso numa piscina. No fundo, nada que lembrava a paisagem da América Central, mas um negrume insuportável. Ele ignorava o perigo e olhava diretamente para o observador. Poucos meses depois, mamãe estaria acomodando as feridas em sua carne no caixão. Laura internada numa clínica de reabilitação depois de esfaquear o padrinho no pescoço. Todo mundo parece preocupado. Menos o imperador asteca submerso no abismo. 

EXT. VEIAS ABERTAS – DIA 

Eu disse que voltava já. Me sentei no banheiro masculino diante do espelho. Estava sozinho. Gio me ligou novamente. Era domingo. Dia feito para arrancar os nossos pedaços. Gotículas de suor pintam toda a minha camisa. Terceiro dia em Boa Vista. A entrevista com o secretário foi remarcada para segunda. Era excelente porque não queria passar de cinco na cidade. Mas não tinha falado com ninguém. Exceto Gio, que me ligava a cada seis horas para me perguntar sobre o andamento da matéria. Ensaboo a superfície do meu rosto com o pouco de sabonete que resta na rodoviária de Boa Vista. Não tem mais papel. Tiramos o básico para afastar eles, me diria depois o segurança. Dissolvo-me. Volto para ver uma cena na praça central. O lugar me envolvia em pregas apavorantes, moles, existências caducas. O cheiro de urina, crianças sendo arrastadas em sacolas de canguru pelas mães. Homens com olhares estrangeiros. A cidade estava envolvida por aquela rodoviária. Um misto de tensão, desprezo e medo. Era como se estivéssemos prontos para uma invasão de vizinhos rebeldes. Todos falavam sobre o mesmo assunto. Os jornais esgotaram a pauta. E os ouvidos da população. Aos domingos, as mães estrangeiras se reuniam no centro da praça da rodoviária em torno de uma cabeça de madeira para cuspir tabacos pela boca e pelo nariz. Em volta, todos ficavam olhando para elas, que engravidavam as mentes dos pedestres com um falatório infinito. Os guardas em redor, cuidando para que elas não invadissem o território brasileiro. Eu torcia. Só nesses momentos eu conseguia sentir a magnitude do que ocorria ali. Raízes e raízes de famílias que espalhavam as suas histórias pelo continente. Quantas mães havia ali? Eu não queria falar com elas, queria que se concentrassem em encontrar uma casa para os seus filhos. Eu era a imprensa. A voz oficial. Não daria voz a ninguém. Seria só mais um discurso que ecoaria nos cafés da avenida São João. Repleto de ideias prontas e porcarias burguesas. Me interessa apenas as mães. Queria que elas fossem livres para estragar os filhos. Para morrer e ter os seus caixões acolhidos por eles. Do jeito que tem que ser, independentemente da nação. Elas estavam ali, tornadas escravas pelos olhos triangulares do capital, pelo rancor de um estado com restolho colonial que as tratava como uma raça ignóbil. Mas elas sabiam disso. E, para se vingarem, tatuavam o chão da praça com cuspes de tabaco, palavras de ordem, inundavam o ar com o choro de seus filhos cansados. Suspensos no ar. Estado nação. 

EXT. GUERRA – DIA 

Eu estava farto do frio da guerra. Estava cansado da primeira pessoa. Então, enfrentei alguns metros de frio na madrugada e decidi me cortar nas falas das mães presas naquela praça. Elas estavam juntas, no canto, enquanto os seus filhos dormiam amontoados em cobertores coloridos. Aquela fileira de jardim formada pelos tecidos étnicos coloriam o negrume do cimento da rodoviária de Boa Vista. Quando apenas a primeira delas me avistou, correu em minha direção. Eu não precisei perguntar. Era a chance que elas tinham. Tive vontade de sumir. Mas elas me puxaram. Mordiam meus braços, arrastavam meu rosto para o monte que formavam seus filhos. Eu não entendia o que diziam. Olhei para os lados. Procurei os seguranças. Mas era tarde. Tarde para todos nós. Um amontoado de mães desesperadas por uma terra. Prontas para cobrir os seus filhos com a segurança de um Estado. Depois da morte, ninguém tem coragem mais de se olhar. Era como se as suas retinas tivessem se transformado em mercúrio bloqueando a visão do mundo externo, que passava em looping o fracasso de suas missões: proteger a prole. Oito semanas. Eu ouvi uma delas gritando em castelhano. Acha que é pouco? Você conseguiria? Ser a mãe de um filho morto? Desterrado? Senti o ar me faltando naquela madrugada. Minhas mãos suavam. Puxei o gravador do bolso. Tive dificuldade para apertar o botão. As cortinas abriram. Liguei. Consegui. 

EXT. REFÚGIO – NOITE 

GRAVADOR – Filhos? Não temos mais filhos. Temos crias. Crias. Morrendo. Todos. Todos os maridos estão lá dentro. Não deixam entrar. Só a gente. A gente e eles, moço. Eu cheguei aqui há oito semanas. Meu filho com dez anos. Hoje, com onze. Enganaram a gente, moço. Ajuda. A gente só quer ajuda, não roubar. Roubam a gente. Imigrante não é bobo. Roubam a gente. Segurança disse: senta aqui do meu lado, moça. Senta. Logo eles te atendem. Prometeram que ia entrar a gente no Brasil. Entrar. Foi um dia tão feliz pra gente. Os filho tudo abraçado. E compramo pão doce gelado, derrete na boca. A gente comprou e chorou. Molhou tudo o pão. Tentamos ligar para o marido. Eles chorou do outro lado do telefone e pediu pra buscar emprego e lugar no hotel. Aqui moço. Olha. Ajuda. Olha. BRASIL – MOTO – TÁXI: 9090 3371 – 5454. Liga aqui. Eles disseram. Liga aqui que eles te leva pro quarto com as criança. E não sai de lá até eu chegar. Oito semanas, moço. Ninguém mais atende a gente. Eu queria só saber. Queria que o segurança pedisse pra sentar do lado dele de novo. Queria ligar pra marido. Olha. Celular morreu faz sete semanas. E ninguém tira a gente daqui. Nunca mais. O Brasil não tem amor pela gente. E prometeram. Eu gosto de Brasil. Eu tô muito feliz por vocês estar aqui. Tenho muita coisa pra pedir. Um pão doce, moço. Nois não para de falar história pro moço. Que dia é hoje? Café com leite. Pão e ovo. Você tem, moço? Eu venho da cidade. Uma cidade moderna e linda. Antiga. Uma cidade que tem tudo. Por que fui sair de lá? Por que saímos a gente, moço? Vivia bem os nossos filhos. Mas era o futuro. Faltou o futuro. Vida ou morte. Quando veio pra cá a gente, tava chovendo. Chovendo muito. Todo mundo no ônibus porque prometeram futuro aqui. Nois não tinha lá. Futuro. Pros nossos filhos, moço. Um negócio tão ruim eu sinto aqui. Nois tinha dinheiro e casa própria, mas não tinha remédio pros filhos da gente. Não tinha material. Viemos embora pro Brasil. Precisamos vir, senhor. Eu queria que se ele ficar doente, o filho, não ficasse desesperada por remédio e médico. A gente teve que vender tudo. Muita coisa mesmo. Deixou casa vazia. Tudo vazia. Sim. Sim. Sim. Várias coisas, pra ter o dinheiro pra vir pro Brasil. Muita casa fantasma lá. Eles entram e pegam nossas coisas na Venezuela. O governo tomou tudo da gente. Se sair, perde tudo. É a lei do governo lá. Sua casa, seu fogão, sua terra, seus filhos. E tem filho da gente lá, moço. Pelo amor de Nossa Senhora de Coromoto, moço. Pela bênção que ela derrama em vida do senhor. Ajuda senhor. Grava tudo. Mais moço já veio gravar. Deram mais café e pão pra gente falar. Não precisa moço. É assim. A casa da gente não é aqui. O Brasil é a casa da gente. Não tem mais lugar no refúgio. O segurança disse pras mãe tudo aqui. Precisa esperar os irmão da gente conseguir emprego pra liberar cama no refúgio. Que refúgio, senhor? Não tem nada aqui. Esse é o refúgio? Não pode ser, moço. Não. Não. Não pode. O refúgio é pra gente descansar. Os irmão da gente mandou mensagem antes. Disseram que era pra vir, que o Brasil tava acolhendo os nossos filho na escola. Eu tenho que levar os filhos primeiro. Antes do refúgio. Eles libera banheiro só de manhã. Uma só vez. Pra gente. Primeiro pensa nos filho. Depois vai a gente. É um melhor futuro pra eles, moço. Não queremos mais acordar aqui. Cama. Cama no refúgio. Ninguém olha mais pra gente aqui. E estamos na central, eles grita. Não adianta. E você, moço? O que vai fazer? Como pode ajudar essas mãe?

EXT. SECRETÁRIO – DIA 

É preciso ouvir os dois lados. 

EU – Com o agravamento da crise econômica e social na Venezuela, o fluxo de cidadãos venezuelanos para o Brasil cresceu maciçamente nos últimos anos, o que o governo tem feito a respeito? 

SECRETÁRIO – Naturalmente, essa é questão que nos preocupa e temos feito muito por essas pessoas. 

EU – Poderia mencionar algum exemplo? 

SECRETÁRIO – Naturalmente. Para acolher parte dessa população, 11 abrigos oficiais foram criados em Boa Vista e dois em Pacaraima

EU – E em relação às mães venezuelanas que moram na rodoviária de Boa Vista há semanas.

SECRETÁRIO – Bom, a questão dessas mães é realmente muito triste. Criamos uma força tarefa para cuidar da situação. Mas, você sabe, um projeto de poder precisa de continuidade acima de tudo. Temos fé em um bom resultado nas eleições desse ano. Conseguiremos dar sequência na resolução desse problema.

EU – Mas ainda estamos há algumas semanas da eleição…

O secretário me olhou como quem estranha alguém que sai do combinado. O assessor puxou o celular. Afastou-se de nós. 

SECRETÁRIO – Olha, o governo brasileiro adotou quatro áreas de atuação nessas questões das mães. Assim que abrirem vagas, vamos fornecer acomodação e assistência humanitária básica nos abrigos para migrantes em Roraima; vamos realocar de migrantes em outros estados do País; vamos promover integração de migrantes na sociedade brasileira e no mercado de trabalho; e daremos todo o apoio aos migrantes dispostos a voltar para a Venezuela voluntariamente. Agora, como te disse, meu rapaz, precisamos de tempo para implantar essa proposta. 

EU – Então esse plano só será executado em caso de reeleição? 

Toca agora meu telefone. Olhei para a tela. Gio. Ela de novo. Não atendo. O secretário olha pela janela a movimentação na ponte da Avenida P-3. Olhei também. Um menino de fone e mascando chicletes usa as mãos para aumentar o seu campo de visão. Uma mãe vendedora se equilibra para amamentar o filho enquanto dá o troco ao cliente. O motociclista estaciona na esquina da quitanda. A entrevista havia acabado. O assessor olha para o centro da mesa, estende a mão e sorri para mim. O momento final. Guardo meu caderno e desligo o gravador. Ele havia vencido. 

INT. LISTA – NOITE 

nasceram
voltaram 
morderam 
chuparam 
choraram
amaram
cuidaram 
xingaram 
voltaram  
separaram 
estudaram 
voltaram 
sofreram 
remoeram 
comeram 
chuparam 
odiaram 
amaram 
voltaram 
quiseram 
morrer 
voltaram 
doeram 
amaram 
comeram 
voltaram 
separaram 
ligaram 
ligaram 
mandaram 
namoraram 
sentiram 
mentiram 
criaram 
afinal
morreram 
de vez 
juntos. 

EXT. RESULTADO – NOITE 

As estranhas do luto: sem família, sem casa, sem abrigo.  

Mães gritam pelos seus filhos na rodoviária de Boa Vista.

Por Redação – Boa Vista, RR.

15/09/2022 22h15. Atualizado há 28 minutos.

INT. DESTERRO – ÚLTIMO CAPÍTULO 

Sobre o que a vida nunca vai poder me trazer de volta. Uma noite, sentado, ao lado dela. Cá estamos. Não estou mais ao lado de ninguém. Eu não bebi demais dessa vez. A gente vai perdendo tudo aos poucos. E isso é o maior dos presentes, porque perder tudo de uma vez seria o nosso fim. Mesmo assim, sinto um certo desconforto. Talvez por dificuldade em aceitar um caminho contínuo. O tempo. Difícil aceitar que aquela não é mais a minha casa, que, agora, um enorme prédio abriga centenas de almas em cada janela e sacada. Passo pela rua da minha infância. O campo de futebol precisa ter as gramas cortadas. Ao lado, o bar despencou as finanças rumo à inexistência. As barricadas familiares foram demolidas pela especulação. Mais um bairro vertical. Foi ali. Bem ali que ela segurou nas minhas mãos para eu andar pela primeira vez. E, anos depois, beijei a Carla na boca mesmo sem querer. Um menino roubou o meu relógio dentro daquele quintal. Ela apunhalou o vidro traseiro do Chevette 99 do meu pai. Minha tia anunciou a vitória do nosso candidato à eleição. Minha avó celebrou a chegada de mais um neto. Foi ali. Pela primeira vez, eu senti o gosto de medo invadir minhas glândulas salivares. Uma arma foi apontada na cabeça de meu primo. Minha prima me contou que estava apaixonada pela melhor amiga. E eu chorei. Foi ali. Bem nessa calçada que agora o porteiro daquele prédio varre inutilmente. Pra passar o tempo. O tempo. Mesmo assim, um gosto amargo toma conta de todo o meu sentido. Queria ser outro. Voltar a ser outro. Sinto, acho que você sabe como é, como um cão que busca na própria urina o odor dos seus atos passados. Em todos os cantos. Não. Não tem saída. Só tem um sentido. É quase impossível de acreditar. Sinto que posso encontrar. Uma vida inteira. Procuro em vão uma pegada. Talvez na rachadura do muro que ela me arrastou quando atrasei para o colégio naquela manhã. Ou na nesga de asfalto que arrancou, milimetricamente, dois centímetros de pele do meu tornozelo naquele sábado. Ali. Eu acho que foi bem ali. Nós chutamos com toda a nossa força no portão de ferro para nos vingar do presente ignorado. Tínhamos uma chance. Todos nós. É disso que sinto falta. É isso que busco de alguma forma. Onde eu estou. Parece algo como o fundo da minha infância ou um aeroporto inativado. Caótico. Os portões automáticos esbarram na minha visão. Os carros saem sem parar dos prédios substitutos. Datas e horários se embaralham. Num só tempo ganhamos ovos de chocolate no Natal e comemos bolo de aniversário no Ano Novo. Os gatos se chamam Pablo, Maria e José. Cachorros nunca tivemos. Minha mãe tinha medo. Nós também. Fico imóvel diante do muro. O porteiro parece querer perguntar: será que não sabe que a rua está desativada para sonhos antigos? Agora, quem mora ali são os prédios, não mais as pessoas. Aciono doze músculos da face para me lembrar de sorrir. Por três segundos estico tudo que posso. Sinto o ligamento romper. Mandíbula se esvaindo no horizonte. O último sorriso. Olho para os lados. Busco um banheiro. Mas estou na rua. Não tem privada ali. Só nas casas. Vomito todo um passado. Forço na esperança de ter mais. Um dia, esse passado virará só mais uma coisa. Algo ainda sem nome. Uma coisa sem sentido. Não há mais nada a fazer com os desejos. Gostamos de pensar que, se deixarmos eles guardados numa caixinha, como dentes de leite, as memórias vão nos servir de alguma coisa. Não adianta. Vão apodrecer: as nações, os territórios, a política, as casas e os prédios. As mães. Um útero cancerígeno. Ideias estapafúrdias da humanidade.


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Mais sobre a obra

Até a última gota é um livro-performance. As quatro narrativas que compõem a coletânea se encontram no conflito entre os dramas pessoais de seus protagonistas e os problemas que estão na ordem do dia da sociedade. Temas como desigualdade social, crise dos refugiados, machismo e transfobia se cruzam com questões intimistas como o luto, desejo e rancor. Portanto, aqui, o leitor vai encontrar mais do que apenas boas histórias. Ele(a) vai encontrar estruturas inteligentes que desafiam visões bidimensionais do mundo. São narrativas densas, por vezes delirantes e vertiginosas, que buscam capturar o caos de uma sociedade sempre a ponto de explodir. Afinal, como se acalmar em um mundo com tantos temas urgentes? Um bom ponto de partida pode estar na leitura dessas histórias.


Fotografia: Entrada do Jardim Zoológico – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

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