Contos de Natal e neve

por Zacharias Topelius (trad. Guilherme da Silva Braga)
Arte da capa de Contos de Natal e neve, de Zacharias Topelius (Editora Aboio, 2024) por Luísa Machado.

Zacharias Topelius nasceu em Kuddnäs, na região de Nykarleby, no dia 14 de janeiro de 1818, e morreu em Sipoo, próximo à cidade de Helsinque, em 12 de março de 1898. Topelius foi um escritor finlandês de expressão sueca. Sua obra completa reúne mais de 23 volumes e abrange diversos tipos de textos, como obras de geografia, relatos históricos, cartas e diários. Todavia, é na literatura infantil e na fábula que alcançou sua fama.

Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2016 foi indicado ao Prêmio Jabuti pela tradução de A Ilha da Infância, romance de Karl Ove Knausgård (Companhia das Letras, 2015).


SAMPO LAPPELILL

Uma fábula da Lapônia

Era uma vez um Velho Lapão e uma Velha Lapã. Você sabe o que isso significa?

Os lapões são um povo que mora no extremo norte, ainda mais ao norte do que os suecos, os noruegueses e os finlandeses. Onde já não se veem lavouras nem florestas ou casas propriamente ditas, mas apenas musgo inóspito, altas montanhas e pequenas cabanas nas quais você entra por um buraco – é lá que vivem os lapões. A Lapônia é um lugar espantoso. Metade do ano é claro praticamente o tempo inteiro, e o sol nunca se põe no alto do verão; e metade do ano é escuro praticamente o tempo inteiro, e as estrelas cintilam durante todo o dia. Você pode andar de trenó por dez meses do ano, e nessas horas os lapões e as lapãs cruzam a neve em pequenos barquinhos chamados pulkor, que são puxados não por um cavalo, mas por uma rena. Você já viu uma rena? É um bicho do tamanho de um cavalo pequeno e cinzento, mas não se parece com um cavalo: as renas têm longas galhadas, um pescoço baixo e uma cabecinha bonita com dois olhos grandes e brilhantes; e, ao correr, levantam nuvens de neve por encostas e montanhas enquanto os cascos estalam contra o chão. O Velho Lapão sentado no pulka gosta disso e queria que as condições fossem sempre boas daquele jeito para andar de trenó durante o ano inteiro.

Como eu disse, era uma vez um Velho Lapão e uma Velha Lapã. Os dois moravam num lugar da Lapônia chamado Aimio, às margens do grande rio Tenojoki, ou Tana. Esse rio você encontra bem ao norte no mapa da Finlândia: os contornos da Lapônia são como uma grande touca branca na cabeça da Finlândia. Aimio é um lugar inóspito e selvagem, mas o Velho Lapão e a Velha Lapã sabiam muito bem que em nenhum outro lugar da terra seria possível encontrar neve mais branca, estrelas mais brilhantes ou auroras boreais mais incríveis. Lá eles haviam construído uma cabana tradicional da Lapônia. No extremo norte não crescem árvores, somente bétulas pequenas e raquíticas que mais se parecem com arbustos – por isso não era possível encontrar vigas de madeira robusta. Assim eles fincaram longos gravetos finos na neve e os amarraram no topo. Depois estenderam peles de rena por cima dos gravetos assim preparados e a cabana ficou pronta – o resultado era como um pão de açúcar cinzento. Mas no alto desse pão de açúcar havia um buraco por onde saía a fumaça da lareira acesa, e no lado sul havia outro buraco por onde você podia entrar e sair da cabana. Assim eram as cabanas da Lapônia, e os lapões achavam-nas bonitas e quentinhas e sentiam-se muito bem lá dentro, mesmo que as cabanas não tivessem camas nem assoalho a não ser pela neve branca.

O Velho e a Velha tinham um filho chamado Sampo, que significa alegria em lapão. Mas Sampo era tão rico que tinha dois nomes: só um não era bastante. Certa vez dois estrangeiros vestidos com grossas peles haviam chegado, e os dois foram recebidos na cabana. Os estrangeiros tinham consigo um tipo de neve que a Velha Lapã nunca
tinha visto e que se chamava açúcar. Eles deram pedacinhos dessa neve para Sampo, afagaram-lhe o rosto e disseram: Lappelill! Lappelill! Mais não puderam dizer, porque nenhum deles falava lapão. E depois eles seguiram viagem rumo ao Oceano Ártico e o Cabo Norte, o ponto mais setentrional da Europa. Mas a Velha Lapã tinha gostado daqueles senhores estrangeiros e da neve doce que haviam trazido; e assim também começou a chamar o menino de Lappelill.

– Eu acho que Sampo é um nome muito melhor – disse o Velho, irritado. – Sampo significa “riqueza”, e você não devia fazer pouco caso disso! O nosso Sampo um dia ainda vai ser o rei da Lapônia, com mil renas e cinquenta cabanas. Você vai ver só!

– Mas Lappelill soa muito bem – disse a Velha. E assim a mãe o chamava de Lappelill, e o pai o chamava de Sampo.

Mas é bom saber que o menino ainda não era batizado, porque não havia nenhum pastor em um raio de duzentos quilômetros.

– No ano que vem o pastor batiza o menino – o pai costumava dizer.

Mas no ano seguinte houve um imprevisto, e o pastor não pôde fazer a viagem, e o menino continuou sem o batismo.

Sampo Lappelill era um menino gorducho de sete ou oito anos, com cabelos pretos, olhos castanhos, nariz redondo e boca larga, como o pai – mas na Lapônia todas essas coisas eram consideradas marcas de beleza. E Sampo era corajoso para a idade: tinha um pequeno par de esquis com os quais descia as encostas dançando rumo ao Tana
e também uma pequena rena, que amarrava ao próprio pulka. Ah, você devia ter visto a neve rodopiar ao redor de Sampo enquanto ele deslizava no gelo e atravessava os montes de neve, quando não se via nada além de um tufo preto da franja dele!

– Nunca vou sossegar enquanto o menino não for batizado – disse a Velha. – Talvez um dia os lobos peguem-no nas montanhas. Ou então ele pode topar com a rena de Hiisi, que tem os chifres dourados, e nessa hora coitado de quem não foi batizado!

Sampo ouviu essas palavras e começou a pensar sobre que rena seria essa com chifres dourados.

– Essa rena deve ser muito bonita – ele disse. – Um dia ainda vou levá-la à frente do meu trenó até Rastekais! – Rastekais é uma montanha muito alta e muito inóspita que pode ser vista de Aimio, embora fique a cinquenta ou sessenta quilômetros de distância.

– Não fale uma besteira dessas, menino insolente! – praguejou a mãe. – Rastekais é a morada dos trolls, e é lá que Hiisi mora.

– Quem é Hiisi? – perguntou Sampo.

A Velha ficou constrangida.

“Então o menino tem ouvidos!”, ela pensou. “Por que eu falaria sobre essas coisas na frente dele? Por outro lado, talvez seja bom: assim ele teria medo de Rastekais.” Então ela disse:

– Meu querido Lappelill, prometa que você nunca vai a Rastekais, porque lá mora Hiisi, o grande rei da montanha, que come renas inteiras e engole meninos como se fossem mosquitos!

Sampo pareceu muito pensativo ao ouvir essas palavras, mas assim mesmo se manteve em silêncio. Por dentro ele pensou: “seria incrível ver um gigante como o rei da montanha – mas só de longe!”.

Já haviam se passado três ou quatro semanas desde o Natal, e tudo continuava escuro na Lapônia. Por lá não existia manhã, dia ou tarde, apenas uma noite constante, na qual a lua cintilava, a aurora boreal estalava e as estrelas ardiam o tempo inteiro. Sampo estava aborrecido. Já fazia tanto tempo desde o último dia claro que Sampo já tinha quase esquecido o jeito do sol, e quando ouvia falar no verão, tudo o que lhe vinha à cabeça eram os terríveis mosquitos que sempre queriam devorá-lo. Assim, Sampo pensou que o
verão podia muito bem nunca mais voltar, desde que os dias clareassem o bastante para que ele pudesse esquiar.

Um dia, na hora do almoço (embora tudo estivesse às escuras) o Velho Lapão disse:

– Venha cá ver uma coisa! – Sampo saiu da cabana e olhou para o sul, na direção que o pai apontava. Nesse momento Sampo viu uma estreita
franja vermelha muito baixa no céu. – Você sabe o que é aquilo? – perguntou o Velho Lapão.

– É a aurora austral – disse o menino. Sampo tinha uma noção dos pontos cardeais e sabia muito bem que a palavra “boreal” estava relacionada ao norte.

– Não – disse o Velho. – É o prenúncio do sol. Amanhã ou depois pode ser que o sol apareça. Veja que estranho aquele brilho vermelho no topo de Rastekais!

Sampo virou-se em direção ao oeste e viu que ao longe a neve ganhava tons vermelhos no topo escuro e triste de Rastekais, de um jeito como ele nunca tinha visto. Logo Sampo teve mais uma vez a ideia de que seria ao mesmo tempo incrível e assustador ver o rei da montanha de longe.

Ele passou o dia inteiro e metade da noite pensando no assunto. Queria dormir, mas não conseguia. “Ah”, ele pensava, “seria inesquecível ver o rei da montanha, nem que fosse uma vez!” E enquanto pensava e pensava, por fim Sampo esgueirou-se em silêncio para fora da pele de rena que o cobria e saiu pelo buraco da cabana. Estava tão frio que as estrelas faiscavam e a neve rumorejava sob os pés. Mas Sampo Lappelill não era mimado, e assim não se importou nem um pouco. Além do mais ele estava usando casaco de pele, calças de pele, sapatos lapões, touca de pele e luvas de pele. Equipado dessa forma, Sampo olhou para as estrelas e perguntou a si mesmo o que fazer a seguir.


Você acabou de ler um trecho de Contos de Natal e neve (Aboio, 2024), de Zacharias Topelius. Gostou do que leu? Adquira-o clicando aqui.

Mais sobre a obra

Ao lado de Hans Christian Andersen (autor de A pequena SereiaO Patinho Feio e outros textos), Zacharias Topelius é considerado um dos grandes fabulistas do norte da Europa.

Originalmente reunidos sob o título Läsning för barn (“Leituras para crianças”), este Contos de Natal e neve é composto de três histórias: Sampo LappelillO Natal dos trolls e O tomte do castelo de Åbo.

Para o organizador e tradutor Guilherme da Silva Braga, “um traço comum às narrativas aqui reunidas é a mistura entre figuras pertencentes ao folclore e à mitologia nórdica e ideias ligadas ao cristianismo e à figura de Jesus”. Além disso, cada conto “põe o leitor a imaginar um universo bem mais vasto”.

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