Amarelo Inconclusivo

por Gabriel Cruz Lima
ilustração de georgia ayrosa para texto de gabriel cruz lima. folhetim na ordem do dia, capítulo 10

Gabriel Cruz Lima é jornalista pela Faculdade Cásper Líbero e graduando em Letras pela Universidade de São Paulo. É autor de “O Último Romântico” (BAR Editora, 2020). Assim como o São Paulo Futebol Clube, está de volta no coração dos emocionados e a um passo de um título relevante.


Com a cabeça encostada na barra de ferro, para ficar acordado, e, ao mesmo tempo, esconder o machucado, Dagoberto pregava o olho nas letras de corretivo atrás do banco do ônibus, a caligrafia gravada em amarelo, uma Jéssica vagabunda, outro Douglas corno manso, o número do celular de alguém. Sem levantar a cabeça, se abraça ao assento à frente, vedando com o corpo a visão de outras pessoas daqueles nomes. E quem era quem naqueles rabiscos o interessava tanto quanto fosse possível, como se proteger a identidade fosse o salvo conduto entre ele e a morte. Em algum lugar, eu acho que o Dagoberto sabia o motivo das coisas terem acontecido daquela forma e não de outra, o olho roxo, a gola da camisa esgarçada e a arma carregada na cinta faziam parte da mesma coisa. Jonas assopra o café.

Dagoberto estava com vontade e não estava com vontade de desmaiar. A primeira das vontades era um desejo antigo de saber qual era a sensação de desligar, espécie de fantasia acerca da pane, alguns minutos em um estado para além do sono, aéreo como costumava brincar. A segunda, mais óbvia, era porque a surra foi à reveria, revoada de soco e bica, suficientes para ele não se deparar que estava sendo arremessado na parte de trás de um ônibus. Daí que o apagar era também físico, avizinhadas as mãos no assento à frente para espantar a vertigem e disfarçar o mal-estar. Através da guimba do cigarro, vejo Jonas à luz de uma tragada, seu rosto se ilumina para além da penumbra.

Naquele filme francês, que por acaso a gente viu junto, diziam que se você coloca os pés no chão enquanto está com tontura, de alguma forma, seu centro de gravidade opera de forma mais ou menos funcional para não vomitar. Por que a Jéssica era tão vagabunda assim a ponto de gravarem o nome dela, de forma inapelável, de corretivo amarelo, e a cabeça roda, veja bem, sejamos razoáveis, ele vomitava bile por todo o assoalho. Não deveria ser tão injustificável assim. Ou seria, também. É justificável ou não, a pergunta é essa que Dagoberto deveria ter feito e não fez.

E escorre sangue pelo rosto dele. Assim, tirando do bolso um maço de lenço anti-ácaro, ele seca o pinga-pinga do supercílio à blusa. Se sente desgostoso dessa vez por conta do pacote: os homens de verdade não usam lenço umedecido. 

De fato, era justificável que tivesse quebrado o pau nele? Alguém abre a porta. Por conta da claridade obtusa, coloco uma das mãos para barrar o brilho de fora. Conforme ela vai entrando na sala, percebo o contorno de uma pasta mostarda seguida pelo seu barulho contra o tampo da mesa.

Como o ônibus era um dos primeiros da manhã, pouca gente se dava o trabalho de olhar para o rosto dele, crueldade. Imagine só um homem alto, bonito até, jogado no último banco, fedendo a pus e mijo, prestes a desmaiar e ninguém acodia o coitado. Não, não era isso. O pessoal não se dava ao trabalho de olhar para ele por conta de um acordo.

Jonas apagou o cigarro e, puxando a corda do abajur, colocou a lâmpada na direção dos documentos, como se procurasse uma imagem. Eliane permanecia de pé, braços cruzados, incentivando a continuidade.

Ignoro o que aconteceu depois do ônibus, porque tenho respeito pela memória dele. Mas acredito profundamente que todas as versões me levaram a crer naquele antigo pacto de confidencialidade entre os homens, e que, de alguma forma, foi quebrado naquele dia por Dagoberto. Ele não podia ter feito o que fez, mesmo na flor da idade têm certos códigos anteriores e de muita sutileza. Às vezes, um olhar faceiro, uma coisa no céu da boca que ele se recusa a engolir e o cara vai pra vala.

Jonas tira a arma da jaqueta e deixa em cima da mesa. Olho de maneira fixa para a peça e, por fim, Eliane a recolhe. Sinalizo uma complacência com a cabeça e eu mesmo abro na página do arquivo que Jonas buscava. O corpo aberto no lixão. A tatuagem há muito sabida de minoutauro me encarará sempre, o desenho dos músculos másculos do touro borrados como a evidência de um fim abreviado. Nós três sabíamos, qualquer fosse a versão, ela deveria encobrir a brutalidade da imagem.

Aquele dia Dagoberto não estava bem, tínhamos ido almoçar aqui perto e ele pediu uma salada, em plena última sexta-feira do mês, uma salada com manga, uma espécie de acesso de consciência dos hábitos ruins, muita bebida e sexo fazem mal pro fígado, ele dizia. Ao falar de si, parece também uma espécie de provocação a mim, alertando a nós dois sobre o perigo, além de proibido, não fazia bem. E puxava tudo aquilo no azeite, sal e vinagre, fingindo uma felicidade limítrofe, muito mais do que eu, parecia que ele sabia que não poderíamos e, sobretudo, não iríamos nos ver mais dali em diante, era chegado o fim. Ninguém nunca sabe a hora de dizer adeus. 

Mas em algum lugar eu senti aquilo tudo muito estranho e dei meu revólver de sobra a ele para que, caso acontecesse alguma coisa, ele tivesse a possibilidade de mais uma defesa. Nem bem entrando de volta ao batalhão senti uma bala no peito e, quando me chamaram, sabia que não era coisa boa.

Dentro de mim, acho que não deveria ter dado aquela arma a ele, porque, por acaso, foi justamente com a pólvora do meu tambor a causa mortis. Permanecer vivo é um mistério e a gente se segura até onde dá, fico triste, arrependido e, mais ainda, com raiva. Rever a imagem dele assim com os tiros no coração e lutar para justapor a morte a todas as coisas bonitas dele, o cabelo loiro, o peitoral ensolarado, a paciência.

As paredes ficam muito próximas, quase dá para ouvir o barulho dos ponteiros do relógio de Eliane e a respiração ofegante de Jonas. Caxias como ele é, sei que o detetive seria capaz de acessos de coragem, fazer perguntas óbvias sobre o decorrer do relato, das linhas de ônibus, sobre os detalhes miúdos, mas não é assim. Aponto para Eliane, vamos, diga a verdade suave:
— Então a versão oficial é a de que a arma encontrada do lado do corpo com sua numeração foi dada de presente a ele e você não viu o cabo Dagoberto depois do almoço. Certo, doutor?

— Isso, qualquer coisa eu altero e adiciono uma parte ou outra.


Da redação: este é o décimo de uma série de 16 textos do autor Gabriel Cruz Lima. O folhetim sai toda sexta neste mesmo portal (Aboio) e nesta mesma hora.

As ilustrações são de Geórgia Ayrosa.

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