tesserato & outono azul a sul

por calí boreaz
foto de maria cecilia chaves machado para poemas de cali boreaz

calí boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direito, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco. Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua e literatura romenas e tradução literária. No virar de 2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e ao ofício do teatro. Traduziu do romeno os romances O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal, 2010], de Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, Brasil, 2012], de Mihai Zamfir. Tem dois livros de poesia: outono azul a sul [ed. Urutau, Portugal & Brasil, 2018/19], um relato poético do exílio e da clandestinidade, com posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira; e tesserato [ed. Caos & Letras, Brasil, 2020], uma reunião de tentativas poéticas acerca da suspensão e do deslocamento na imobilidade. Seu conto islandeses integra a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle [2019]. Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, portuguesas, galegas e mexicanas, bem como em exposições de Portugal e da Índia. Criou e apresentou em 2020, para o Midrash Centro Cultural, o programa online de poesia atual ainda somos muito novos para escrever estes poemas. Interpreta seus poemas em espetáculos poético-musicais — jam poetry sessions — e em forma de videopoemas.


tesserato1

[dum lugar íntimo do espanto]

no vazio pachorrento que te fura
por ali passa a centelha
e enquanto passa
dilata-o


desaforismo

horizontalmente,
o frio está sempre a aquecer \ o quente não pára na quentura
o dia cada vez mais dia \ cada vez mais atinge \ a noite
a doença é um processo de cura \ a sanidade, de loucura
a solidão mira na multidão \ e vice-versa
e se há uma certeza, é a da calma que vem depois do desespero
há um (inconcluso) equilibrismo (quântico) que busca o zero — de tudo
e depois o próprio zero é transistor para um outro deslimite qualquer
verticalmente.
e aqui, no nadir do nada
na calada dos cálamos do pó do éter
é quando começamos a definir e tudo começa a deixar de fazer sentido
como quem encontra e nisso não conseguisse mais situar-se em relação a isso
mas diz que deixando o oco fermentar, e fermentar, há quem
se encha de edifícios
e ao contrário do contrário sempre a contrariar
— o que, veja bem, faz pensar que amar e não amar é,
no fundo do fundo sempre a afundar,
a mesma coisa


mamihlapinatapai

em russo, há uma palavra específica para o afeto que se tem por alguém que se amou. em tcheco, há uma palavra para um certo tipo de angústia diante da própria mediocridade ou falta de habilidade (lembro de kundera falar dele). na escócia, parece que há uma palavra para o tique do lábio superior que indica a antecipação da alegria. em albanês, há alegres 17 e 27 palavras respectivamente para sobrancelhas e bigodes. em romeno, há sei lá quantas que significam, todas elas, neve, mas cada uma para especificar um certo tipo de neve, que por aqui (ao sol marinheiro da língua portuguesa) não distinguimos por desnecessidade. e se o russo olha para o amor antigo, veja bem: o japonês inventou uma palavra para um sentimento de pré-amor. em yagan, idioma indígena falado por um povo da tierra del fuego, mamihlapinatapai é aquele olhar trocado por duas pessoas quando ambas querem que a outra tome a iniciativa de fazer algo que ambas sabem que querem mas.

mas: o que é a coisa menos a palavra? a palavra menos a língua? isso que se
percebe num repente e não tem esqueleto nem contorno para apoiar sua
existência — não existindo, pode ainda resistir? se a língua nos funda a
humanidade, e se há quem saiba que neve não é simplesmente neve, como amor
não é simplesmente amor, assim como a saudade não é só uma falta, e calunga
não é só saudade mas também abismo e deus… como posso eu

dizer algo agora daqui de onde estou?


poção insustentável

quase que passo por uma poça
uma pequena poça de água
num qualquer meio de rua da cidade
tantos de nós contemplam rios o mar a chuva
quantos contemplaram um dia uma poça
escura suja, e rasa
mesmo assim espelha meu rosto, a poça
sinto generosidade nesse pequeno gesto
e então demoro-me em sua toda pequenez
em seu silêncio esquecido aos pés da cidade
em seu contorno que se sabe improvisado
vejo então que é a poça que me observa
rios mar chuva passam
ex-correm a cada instante que passa — não a poça
a poça demora-se conserva-se
vejo que chega a olhar-me com altivez
uma profundez reversa
vejo que me analisa
águas que fluem não fazem esse tipo de coisa
não estão nem aí
quase desvio o olhar, mas mantenho
quero ver até onde vai a rasa poça
que me atrasa assim
a bicicleta passa e liberta a poça
que fica do meu tamanho
avanço
sacudindo a poça de mim
ou — é a poça que me sacode de si
e o mundo é que recuou
.
seja como for,
estou aqui e
não posso
.
mais adiar
isso


__

ainda sou muito nova para escrever este poema
percebo que a melancolia é um excesso
— de espaço e de tempo
percebo que sou dos cavalos que precisam
não do toque do chicote ou mesmo do sangue a rachar os ossos
mas do próprio desaparecimento
— para iniciar o trote
percebo e procuro seguir o conselho de ferlinghetti
ouvir meu próprio respirar e, de ouvido no chão, o girar da terra
depois, desaparafusar as portas mas não
jogar fora os parafusos
que eu ouça bem isto: não jogar fora os parafusos
não destruir o mundo se não tiver algo melhor para colocar no lugar dele
— é que por enquanto não tenho mesmo nada melhor em mente
estou aqui (onde mesmo?) com um saquinho de parafusos
pendurado ao pescoço (e é pesado)
mais uma vez, mais uma vez
o dedo suspenso a um milímetro do botão da bomba
e não estou conseguindo interpretar os sinais
sou ainda muito nova para escrever este poema
mas já sei que o canto dos pássaros é de desespero
também já percebi que saber não chegar é tão
bonito quanto: chegar
de boniteza estamos bem, lá isso estamos
the boniteza is the new felicidade
a cidade anda medindo meus passos
de lupas nas pontas dos tentáculos
de cima de baixo dos lados e na diagonal
sobretudo na diagonal: a luz mesmo a raspar
mas sem aderir à minha pele
que é real
que é real
ter medo é ainda desconhecer
corrijo: ter medo é ainda precisar conhecer
eu não estou conseguindo interpretar os sinais
corrijo: talvez não existam mesmo papéis dobradinhos atirados do além
é só isto: enquanto uso palavras, as palavras
usam-me
enquanto pergunto à montanha, a montanha
pergunta-me
enquanto continuo aqui, o aqui
continua-me
ah, ouve bem isto:
ver tudo bonito é ter descoberto a beleza das coisas feias
mas hoje eu estou cansada
então, dou o sorriso dos miseráveis e canto como quem desiste secretamente
não nos iludamos, meus vizinhos:
acabaremos sempre um pouco antes do fim
serei sempre muito nova para escrever este poema



outono azul a sul2

dedicatória

vai ficando tarde
tardo. estou abotoando
minha coragem
mudei de casa, de estação
mas de saudade não, não mudei
bem tentei, nos classificados nos bondes
mas teu olho esquerdo é tão
diferente do teu olho direito
ninguém mais desobediente
do que o confuso de peito
está ficando tarde. ok.
tenta apreciar o manuseio de horizontes
o plantio de um novo planeta
ainda intermitente
antes, te dedico a leve chuva
que rodeia os templos


clandestinos

em toda a impermanência
⠀⠀/ no açúcar violento do crepúsculo
⠀⠀na pétala final que pondero
⠀⠀na intenção desfeita do músculo
⠀⠀tombamos longamente
⠀⠀da berma espumaçada do rochedo
⠀⠀ao tecido seco da nuvem
⠀⠀quem de nós perfumou a Terra
⠀⠀da terra ao galho falho
⠀⠀da fogueira ao cometa
⠀⠀no giro anti-horário
⠀⠀da roda da bicicleta
⠀⠀intransitamos ao contrário
⠀⠀estremecemos extremos
⠀⠀a soprar a luz dos movimentos
⠀⠀e no seu transbordamento \
permanecemos


efeito kahlo kuleshov

estou imóvel
suspeito que me tornei um quadro
com debrum de areia pequenas conchas
e pontas de cigarro
à minha beira está o mar em março
ele desatentamente cospe nos meus pés. e através
de mim desamarro o vendaval morse
/ não escutes. ainda estou imóvel
sobre mim-onde há uma constelação
de abutres como uma indecisão boiando
aos fundos de mim-quando há a ficção
citadina inacessível
entre o tempo da água e o destempero do asfalto
a destempo tento — ainda — criar poesia
/ ay llorona / olhos negros /
e crio silêncios. basaltos. silêncios
a fazerem sala às tuas perguntas
no horário nobre do despresente
faço um esforço — me recorto
dou um passo na via láctea
meus pés imprimindo a marca de água
e enquanto me arranco à imobilidade
/ as tuas perguntas /
a cidade se petrifica
basaltos. silêncios. solidões acústicas
presas na véspera — ou num dia advindo
a gastarem-se companhia
no horário nobre da vida

que é a fina presença da morte
agarro com força a escuridão
e dou mais um passo
o garoto de short azul na areia sentado
ficou ali com o olhar perdido no desenho de um nome
a cadeirante com o paninho de chão ao ar erguido
ficou ali com a mão esperando os 4 reais
o velho de 88 anos cansado demais
ficou ali com a expressão do primeiro estremecimento
do infarto
passo por todos passando neutra por mim mesma
vou direto à tua porta
enquanto junto pedaços

estou batendo. batendo: atendo?


fóton

isso era no tempo em que
a luz de maio entrava
pontualmente
às quatro da tarde naquela
avenida da Urca com aquela
soberba dourada bêbeda de américa
e se refratava nos recortes
insuspeitos dos troncos dos coqueiros
do alcatrão malemolente
para finalmente se alojar
em algum indício corpóreo
de uma microexplosão
e durava quatro minutos
precisamente — a luz dos maios rotos
e logo mais à frente
o verde dos morros
a respirar nuvens

isso era no tempo
em que maio explodia e éramos jovens
de nós — e logo esplendia
pelos ralos tudo que escrevíamos
com luz


a(l)titude

o vento que se
ouve dentro:
invento


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