eletrocardiograma

por Gabriela Ripper Naigeborin
Bandeira drapeando. Foto de Luísa Machado para Gabriela Ripper Naigeborin

Gabriela Ripper Naigeborin (mira) nasceu em São Paulo em 1997. Como pesquisadora nas universidades Brown e Cambridge, estudou a estética mística de Clarice Lispector e Glauber Rocha. Atualmente trabalha com revisão e tradução acadêmica (@gabriela.ripper), além de publicar sua poesia e prosa poética numa página pessoal.


Adapto um dito recordado às exigências do meu entendimento. O dito é recordado em primeiro lugar por mim e em segundo lugar por aqueles, já mortos ou perdidos, que consagraram o dito enquanto tal, consignando-o ao tempo e à memória das gerações vindouras. O dito original é o seguinte: não me lembro do dito original pois a memória, ainda mais a memória desejosa, atua como um palimpsesto que dificulta a leitura do texto por debaixo do texto. Pois então o dito recordado já não é o dito original, mas um dito que eu inventei por cima do dito antigo. Talvez esse mesmo dito esquecido tenha submergido ditos anteriores a ele, de modo que cada dito recordado implique num dito esquecido e cada recordação, num novo esquecimento. Talvez seja assim com o que quer que seja a alma ou a carga ou a coisa que é transmitida de geração em geração, desde a geração de Noah ou mesmo de Adam e Havah: para que o velho sobreviva, ele deve ser novamente rejeitado. O velho dito novamente recordado que substitui o velho dito novamente esquecido, dito este que bem poderia ser compreendido como um novo dito que não deixa de ser uma recordação, é este: “Melhor é a vista dos olhos do que o vaguear do coração.” Tão logo agarro-me ao concreto, acabo com o que tenho para dizer. Na verdade o dito é escrito antes de ser dito — na mais verdade ainda, acabei de dizer o dito para que pudesse escrever e dizer dele que é um dito, um dito recordado, um dito que eu inventei copiando ou copiei inventando, cada batida do coração revirando a vida das palavras inertes na página que eu lia, as palavras virando judias que como eu vagueiam em algum lugar dentro e invisível, longe dos olhos, longe da boca. Assim nasceu ou renasceu um dito não dito, que foi mastigado não pelos dentes, mas pelos músculos cardíacos, cujo movimento é determinado com precisão por meio da leitura de um eletrocardiograma.

O álcool que passam no seu peito para colar os adesivos aos quais são conectados os fios que realizam a leitura eletrocardiogramática (linguagem elétrica do coração) gela e seca rápido. Tem o cheiro e a temperatura do tempo presente. Com tudo isso, eu sinto um carinho pela minha garganta. Krebs: crab: se for ter um almoço com lagosta, caranguejo e camarão, você não pode deixar de comer, brinca o cirurgião. Engoli um caranguejo e ele fez morada no meu pescoço. Desenvolveu tal apreço por mim que me acaricia através da parede mucosa com suas pinças calcificadas, sugerindo — pequeno, quieto, controlado — que eu o abra para o mundo. Acordo exaltada na calada da noite, atenta aos segredos que ele tem só alguns dias para me contar: eu vou te abrir o pescoço, eu vou te abrir o pescoço. Imagino essa abertura como uma segunda boca que vai contar todos os segredos que eu escondi, que vai pedir todos os beijos que eu não sei receber. Pergunto-me se é possível chorar pela boca, mas acho a metáfora esdrúxula e interrompo-a imediatamente, como faço tão bem. Abro o livro de minhas noites insones — o livro dos livros do Edmond Jabès: “Você não pode voltar a ser verde… Agora é a hora morta no fundo da hora morta… Você não pode construir com ambiguidade. Só com granito.” Assim eu aprendo que não estou sozinha, de novo e de novo. O meu retrato de casamento será um retrato do meu passado e da minha felicidade. A felicidade será posterior ao passado. A felicidade estará gravada na foto e o passado estará grafado no pescoço. A marca no meu pescoço mostrará o meu futuro. Existem exímios leitores das linhas que passam pela palma da mão — na minha, as três correm paralelas, como que protegidas e protegendo-se umas das outras. Talvez estes sujeitos sejam capazes de ler a linha do meu pescoço, que prevê o exato lugar onde eu vou envelhecer, por qual ponto do pescoço o meu futuro vai passar, batendo na pele, na gordura e na carne como se estas merecessem punição. Não punição, mas uma lição. O futuro do meu pescoço é revelar o futuro no pescoço — o futuro que arranhou o visível. Entrevê-se, apenas. Algo antes, algo depois: ambos aqui. Lua minguante, ou um risco que segura o riso. O caroço veio parar em mim, talvez ele sempre tivesse estado comigo. Talvez por isso eu tenha podido escrever sobre ele. Imagens nascem em primeiro lugar das pessoas e em segundo lugar, do tempo. A minha, sem contornos, é uma curva fina e macia que me chama para dentro d’água. Percebo os pulmões enchendo de não sei o quê. Afogar-se é o medo de dentro: corpo cheio de vazios que esperam. É esta espera que se opera, sabendo que ela às vezes volta, às vezes continua, às vezes cicatriza, deixando um sinal que é como um “menos” esbranquiçado.


Foto de Luísa Machado.

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