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Euphoria: em conversa

por Isabela Nunes
Cena do episódio "Trouble Don’t Last Always", da série "Euphoria", para ilustrar o texto "Euphoria: em conversa", de Isabela Nunes.

Isabela Nunes é estudante de Letras na Universidade de São Paulo e colunista da Revista Fina. Nas horas vagas, tenta transformar sua paixão por cinema e literatura em palavras.


Esse fundo sem fundo da comunicação, nós sabemos o que é: é o lugar onde toda troca chega, não como um impasse, mas como a abertura de um sobre o outro, de um para o outro; (…) [aquele movimento] pelo qual meu Eu sabe de seu Eu e de suas preocupações, o único movimento pelo qual existimos de verdade
– Jean-Luc Nancy

Pra grande parte dos pensadores antigos até Aristóteles, a forma predileta para exprimir o discurso filosófico era o diálogo. Essa preferência se dava pelo motivo muito simples de que uma conversa nos engaja junto a outros alguéns no perguntar e responder de uma investigação conjunta, ao contrário da rigidez e solitude de um monólogo que não se abre àquilo que lhe é externo. Através das palavras, descobrimos os outros e descobrimos nós mesmos, e a comunicação verdadeira conjuga o encontro de pessoas unidas pelo interesse comum em buscar algo para além de si mesmas. Quantas vezes não é necessário falar em voz alta nossas ideias, fazê-las ecoar nos ouvidos dos outros e ver nelas ecoar as sementes dos outros, para que elas realmente ganhem vida e forma, para que se tornem o que realmente são? Talvez, no que diz respeito às palavras, nós as subestimemos ao supor que elas expressam algo que já existia antes em pensamento, ao invés de desenharem algo novo que passa a existir só quando dito. Às vezes palavras que parecem exprimir na verdade invocam, dizia David Foster Wallace. No vai-e-volta da conversação, o ciclo da vida é recriado de novo e de novo: a cada tese, antítese e síntese, repete-se o movimento divino e eterno de criação, destruição e renascimento. Sobre os antigos, Nicola Abbagnano escreve em seu Dicionário de Filosofia: “além de método de coexistência e de pesquisa, o diálogo foi interpretado como a atividade por meio da qual o homem se faz homem”. Falar é também criar. E — o que é realmente incrível — é criar em conjunto.

É quase como mágica.

Não foram só os filósofos gregos, no entanto, que viram o valor de algo simples como uma conversa. Não: se falar é criar, então pertence ao campo por excelência da criação — a arte. O que seria do cinema, da literatura e do teatro sem os bons diálogos? Essa magia do falar, os escritores a conhecem bem. Os melhores autores são aqueles que sabem usá-la com maestria: como nós a cada nova conversa, é através dela que eles invocam e expurgam demônios, criam e destroem mundos, fazem e refazem personagens.

Lançado ao final de 2020, o especial de Natal da série Euphoria, ‘Trouble Don’t Last Always’, mostrou que Sam Levinson domina essa estranha feitiçaria do diálogo e reconhece seu poder. Nesse episódio, ele elege o diálogo puro e simples como estratégia para se aprofundar no dilaceramento da protagonista Rue (Zendaya) e no principal tema de Euphoria: o vício. No especial, Rue está afundada até o pescoço nos velhos hábitos de viciada, em recaída do breve período que passou sóbria. Ela e Ali (Colman Domingo), seu padrinho na reabilitação, encontram-se para comer panquecas na véspera de Natal e conversar sobre a vida, assim como sobre o vício e a sobriedade de Rue.

“Você precisa acreditar na poesia”, diz Ali à protagonista. O que há de mais poético que uma conversa? Mas é mais do que isso, o conversar. No processo de recuperação de dependentes químicos, o diálogo é uma das ferramentas mais essenciais: é ao compartilhar as próprias experiências e ouvir as dos outros que a cura, pouco a pouco, se instala. Por isso os grupos de apoio, o apadrinhamento, as reuniões. Para se recuperar, é preciso sair de si e apoiar-se nos outros. E a única forma de sair da própria cabeça, de transmitir aos outros alguéns no mundo o que há dentro de nós e, em retorno, descobrir o que há dentro deles, é conversando. “Por pra fora o que te afoga”, diz meu pai. Como dependente químico, ele participou de muitos dos grupos e das reuniões e dos apadrinhamentos. Pensei que seria bom colocar em conversa tanto o especial de Euphoria quanto a experiência do vício: trazer a temática que Levinson coloca em questão para mais perto, perto da vida sentida. Então convidei meu pai pra assistir o episódio comigo e compartilhar conosco um pouco da história dele. O que se segue é parte da conversa que tivemos. À exemplo de Levinson, Rue e Ali, eis o diálogo puro e simples.

Eu: Qual era a sensação de usar [drogas]?

Papai: Você ia pro paraíso, tava no céu. Mil e uma ideias, energia, vontade de conversar a noite inteira, a cabeça cresce… A noite inteira. Mas [o pó] te levanta de uma vez e te derruba de uma vez também. A hora que cai, você fica vários dias no buraco.

E: Você se lembra da sensação dos primeiros dias de sobriedade, quando chegou no Centro de Reabilitação?

P: Derrota. (Pausa). Me senti um derrotado.

E: Você sentia muita vontade de sair?

P: Eu tinha muita vontade de voltar pra casa. Não era bem pra usar droga… Isso aí tava muito mascarado; não é claro a visão disso quando a gente tá ali, no meio. Hoje eu vejo como realmente era, mas na época não. É que nem você se manipular pra tomar vinho, por exemplo. Você cria uma situação, arma um teatro pra poder se justificar pra você mesmo. Eu queria voltar, mas não era claramente com esse propósito. Era voltar pra casa e pro círculo de amizades em que todo mundo usava e que ia ter muita [droga] ali… É como ela [Rue] faz no filme, guardando os comprimidos, jogando a culpa no pai e na namorada. A gente arruma desculpas pra se manter no ciclo do vício e pra voltar pra ele também.

E: Quando foi pro Centro, você já tinha noção de que era um dependente?

P: Não. Eu fui percebendo.

E: Teve algum momento específico em que você se deu conta disso e de que sua vida seria diferente dali pra frente?

P: Não é uma coisa que a gente se dá conta, é uma coisa que a gente vive. Não desceu o Espírito Santo e iluminou. (Risos). Mas isso é uma coisa que gradualmente vai entrando na sua cabeça, e acabou que quando eu saí eu já falei que não queria mais.

E: É incomum as pessoas conseguirem sair de primeira como você? Na série, por exemplo, a Rue já tentou algumas vezes.

P: Não sei. Vai de cada um, cada pessoa é de um jeito… A gente tem o livre-arbítrio. Só eu posso pegar e trazer aquilo pra mim. Eu decido a minha vida. Mas lá dentro tem uma aura, um clima: tá todo mundo no mesmo processo de não usar, de se curar. Você pode sair a qualquer momento se quiser, mas lá dentro você tem que se policiar. Tem muita gente que não consegue de primeira, vai uma quinta, sexta, décima… mas, se você volta, a fazenda [o Centro] tá de braços abertos. O que o cara do filme [Ali] falou sobre ficar muito tempo sóbrio é verdade, a gente esquece mesmo como era ruim. Mas tem uma coisa: você perde a inocência. Você sabe que vai se matar. Se voltar, você nunca mais vai usar sem culpa como usou da primeira vez.

E: Faz quantos anos que você tá sóbrio?

P: Vinte e nove anos: desde 1991.

E: Você acha que perdeu muito por causa da sua experiência?

P: Perdi. Muita coisa. Minha juventude foi embora. Comecei a beber com doze anos, a usar pó com 16, e só parei com 26.

E: Você se lembra de algum episódio ou situação crítica em que você percebeu que tava mergulhando no poço sem fundo de que Ali falou?

P: Filha, tiveram algumas. A pior foi uma vez que estávamos eu e um amigo meu na casa da mãe desse amigo, cheirando um caminhão de pó. E de repente o cara teve uma convulsão, teve meio que uma over[dose]. Roxeou a boca, o cara tava morrendo, morrendo, machucou a minha mão todinha quando eu abri a boca dele e tentei puxar a língua, e o cara só morrendo, a boca já tava preta… Aí eu desci o joelho no peito dele. Foi quando ele cuspiu e melhorou. Quarenta minutos depois a gente tava cheirando de novo. (…) Isso aí é o cúmulo, tanto meu quanto dele. De ver ele cheirando depois de quase morrer e cheirar junto com ele. Você não faz isso na sua sã consciência, não tem como. E eu não sei o que eu faria se ele tivesse realmente morrido. Teria deixado ele ali? Não sei. Não sei mesmo. (Pausa). Também tinham uns amigos nossos que eram casados. A gente ia pra casa deles, cheirava, cheirava, cheirava, e as crianças deles lá, olhando. Aonde você em sã consciência vai fazer isso se não tiver muito louco? Não faz. Várias noites eu passava na rua, sem saber onde tava, sumindo três dias, quatro dias. Quando você tava usando, você usava enquanto tinha, sem parar. Já cheirei sete dias seguidos. Ver coisa, ter alucinação, paranoia… Isso é o mínimo. Você começa a ficar alucinado por privação de sono, comida.

E: Você pensa sobre o porquê de ter se tornado dependente?

P: Não sei. Tenho amigos que tiveram os mesmos problemas que eu tive — pais separados, irmão doente, e mais um punhado de coisas bem piores que as minhas… —, mas eles pegaram por um outro lado e eu fui pela droga. É como o cara [Ali] disse no filme: são fios soltos na cabeça da gente, a gente tá em desvantagem desde a primeira vez que usa se tem uma predisposição. É uma doença. Mas agora: a bebida tá lá, a cocaína tá lá. Em si mesmos, eles são inofensivos. O problema é a combinação de você e eles. No momento em que você se isola pra usar, aí já dançou, entendeu? Toda história tem pontos de partida diferentes. Mas, a partir do momento em que começa, é a mesma história pra todos os dependentes químicos. É aquele conflito de você com a droga. Você pode sair na primeira vez em que for internado, ou vai ver nem precisa ser internado, mas o fascínio da pessoa com a droga é o mesmo. A droga é uma coisa inerte, tá lá. A cocaína não é o problema, o problema é você.

E: A Rue fala sobre ter sido violenta com a mãe e se sentir uma pessoa ruim. Tem algum episódio com a vovó ou com o vovô de que você se lembra?

P: Não tem um episódio específico. São várias coisas. (Pausa). Eu já levantei a mão pra bater nela. Nunca cheguei a bater, mas já tive a intenção, o impulso. Não bati. Já roubei a sua avó… já odiei o seu avô. Eu fiz muito mal a eles dois. Mas eu fiz muito mais mal pra mim.

E: Você sente que o peso dessa época é uma coisa que você ainda guarda com você?

P: Filha, isso não é coisa que a gente supera. A gente só carrega: põe nas costas e carrega. É um fardo que eu levo até hoje. Cada dia que passa é melhor do que o anterior: hoje é melhor do que ontem, mais fácil que ontem. Não tem nada melhor que o tempo em cima das coisas pra fazer você ter uma visão melhor do seu mundo. Eu sei do que eu sou capaz e do que não sou capaz. A gente tem que entender o que é o desejo da gente e o que não é. Esse amor e ódio é um peso que eu carrego e sempre vou carregar. Faz parte da minha história.

E: Você se sentiu isolado depois que voltou do Centro de Reabilitação?

P: Sim, porque ir pra fazendinha [o Centro] era uma coisa bem pejorativa. Quando você entra e você sai, é bem pejorativo. É um carma que levo até hoje. “Ah, mas você foi na fazendinha”. Fui, e daí? Pra mim “e daí”, né, mas na cabeça das pessoas… Tem um estigma. Mesmo trinta anos depois. E as pessoas querem contar a sua história por você… Mas a história é minha. Eu falo em “fardo”, mas hoje ele não é pesado mais. Esse período ficou pra trás, o que pesa hoje são outras coisas. E agora ele é mais tesouro do que fardo. É de onde eu tiro as minhas forças.

E: Como você se sente sobre compartilhar essa experiência hoje?

P: Mais forte. Cada vez que eu compartilho eu estou me fortalecendo, eu me sinto mais capaz de não usar. É aquilo que ele [Ali] faz: ele tá ajudando a menina, mas também tá se ajudando. Você não viu que ele saiu [da lanchonete], ele não ligou pra filha? Esse é um filme da vida real, feito em cima da vida real. A vida do drogado é isso aí: querer se matar, querer… (Pausa). É pensamento. Mas uma coisa que ajuda é compartilhar sua experiência com alguém que também viveu algo parecido. Quando eu falo, eu não tô só fortalecendo você, eu tô fortalecendo a mim.

E: Ali fala sobre redenção, sobre isso ser parte de se recuperar. O que você acha disso? Você se sente redimido?

P: Isso é uma coisa muito pessoal. Essa redenção, esse perdão. Porque você espera que as pessoas te deem o perdão, mas é você que tem que se perdoar. É o que ele [Ali] falou sobre Deus, Alá… “Orai e vigiai”, é o que eu tenho comigo. Não é orar pra Deus, rezar; eu não acredito em Deus. Mas…

E: Qual é o significado disso pra você?

P: Cuidado. Eu tenho que ter cuidado comigo. Todo dia. Eu posso ter o impulso de sair daqui agora e ir lá buscar um fumo, alguma coisa. Mas como já tem o quê…? Trinta, vinte e nove anos? (Pausa). Eu vou ficar mais hoje sem usar. Orai e vigiai. Um dia de cada vez. Por isso é que eu vivo só o hoje: se você cuidar do hoje, você vai viver sempre. Se não cuidar, não vai viver nunca. Minha vida é errada, mas é certa também: em algumas coisas eu sou bom, em outras não… Você sabe. Tem uma guerra dentro da gente. A gente só tem que tentar fazer com que o bem ganhe.

E: E você acha que conseguiu se perdoar, como Ali diz?

P: Filha, eu consegui viver. Não sei se me perdoei. Mas sobrevivi.

“Você precisa acreditar na poesia”, diz Ali. “No valor de duas pessoas sentadas em uma lanchonete às vésperas do Natal, conversando sobre a vida, sobre vício, sobre perda”. Se falar é criar, então falando podemos criar uma saída para o túnel sem fim que nossa escuridão interior delineia. Isso vale para todos nós. É mais do que mágica. Mais do que poesia.

É cura.

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