Feijoada de canguru – ou: Procura-se final feliz

por Yvonne Miller
Arte: Dog, Lying Down de Georg Arsenius.

Yvonne Miller nasceu em 1985 na Alemanha, mas prefere o calor do Nordeste brasileiro, onde mora desde 2017. Cronista e contista, tem textos publicados em várias antologias e é uma das organizadoras e coautoras da coletânea de contos cearenses Quando a maré encher (Mirada, 2021). Seu próximo livro, Deus criou primeiro um tatu – Crônicas da Mata (Ed. Aboio, 2023), está em pré-venda interativa até dia 23. Clique aqui para garantir 10% de desconto + frete grátis + seu nome em todos os exemplares do livro!


Ela chegou com a certeza de quem sabe o endereço com número de casa e CEP. Como se alguém tivesse lhe dito, “Tenta ali na casa amarela, perto do açude”.

Eram umas dez da noite, a gente voltando de Recife, e ela entrou na garagem junto com o carro. Bastou um olhar para saber que não pertencia àquela turma de cachorros abandonados e foragidos que se instalaram na área da coleta de lixo e amedrontavam os condôminos das redondezas: amedrontada estava ela. O rabinho não só entre as pernas, mas colado na barriga, ficou ali tremendo-se no corpo todo. Aguardando nossa reação. Esperando ser enxotada mais uma vez. Acuada. Tremendo. Rabinho colado. Mas ficando.

Tenho para mim que só o amor e a fome são capazes de vencer o medo. E amor não era o caso dela.

Batizei-a de Feijão no mesmo instante em que enchi um pote de sorvete com a ração do Chico. Nos primeiros dias, ela comia com desespero no canto da rua onde eu colocava a tigela. Achava eu que assim ela não associaria o alimento com nossa casa, que não criaria vínculo com o lugar. E que, uma vez abrandada a fome, continuaria seu caminho. Estava errada, claro.

Porque a gente não quer só comida, né? Nem ela. Também ela queria comida, diversão e lar. E um pouco de amor. Queria, no fim das contas, o que todos nós queremos.

E assim foi ficando. Fez do pote de sorvete seu prato; do Chico seu companheiro das diversões caninas; da varanda seu lar; e da lixeira seu altar. Deve ser costume antigo. Foi perdendo as pulgas e ganhando corpo. Nunca desrespeitou o gato e nos avisa sobre movimentos suspeitos na mata ou sobre a chegada do homem do gás na hora em que a moto dobra a esquina. Muito espertinha, se liga em tudo. Estratégia de sobrevivência.

E sobrevivente ela é. Bastou um olhar para saber. Bastou ver a patinha traseira com dois dedos a menos – lesão antiga e já sarada, como as cicatrizes no focinho e na barriga –, a infecção remelequenta e esverdeada nos olhos, o corte em carne viva na perna dianteira. Bastou jogar um graveto para ela na brincadeira e vê-la fugir em pânico. Quantas coisas já terão atirado nela? Quantos pontapés já terá levado? Quantas maldades já terão inventado para se livrarem da sua presença? Eu nunca fiquei tão feliz de vê-la aparecer de novo na varanda, algumas horas depois. Corri para abraçá-la, afagar seu pelo curtinho, caramelo, e ela deixou. Deve ter intuído que não fiz por mal, cachorro sente essas coisas. Mas, por via das dúvidas, dali em diante guardei os gravetos pro Chico.

De manhã, Feijão pula feito canguru quando me vê descendo pela escada. No passeio com Chico, trota feliz ao lado da gente e mais de uma vez já negociou nossa livre passagem com a turma do lixão, que costuma receber qualquer transeunte com latidos ameaçadores. Chegando no açude, ela se aproxima da margem, começa a beber e deixa-se levar pela língua sedenta, até que a gravidade vence e ela cai na água. E lá vai a Feijãozinha flutuante, nadando e bebendo ao mesmo tempo, desenhando sempre um semicírculo antes de sair em outro ponto da beira, com a sede satisfeita e sacudindo o corpinho molhado como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. Nem parece que tinha medo de água quando chegou aqui.

Caminhando pelas trilhas, às vezes se taca no mato e some entre troncos e folhas. Mas já desisti de achar que agora ela vai embora, retomar seu rumo, arrumar outra dona. É só o pensamento chegar que ouço o batuquezinho das suas patas atrás de mim, e lá vem ela novamente, correndo livre e feliz, vez ou outra sem encostar o pezinho mutilado no chão. De volta à casa, recebe a ração na varanda mesmo porque não adianta tentar enganá-la; é esperta demais.

Só houve uma vez que me descontentei com ela. Foi logo nos primeiros dias. Saí de casa e na volta encontrei meu chinelo jogado no chão da varanda, comido pela metade. Tentei brigar: “Eu vou é fazer feijoada de você!” Mas lá veio ela, pulando feito canguru, naquela alegria de me ver, e não tive como não sorrir. Baixei o dedo levantado em inútil advertência, e ela parou de saltar, deitou no chão e me ofereceu a barriguinha macia: vai um carinho?

Pensando bem agora, talvez tenha sido um ato de vingança; coisa de trauma. Quem é que sabe? Só posso imaginar que os chinelos nem sempre são amigáveis com um cachorro de rua.

Esta crônica está chegando ao final, que nem meu tempo aqui em Pernambuco e nesta casa. Em breve vou me mudar e não posso levar a Feijão. Por isso peço, por meio da presente, que me ajudem a arrumar um final feliz para ela. Não precisa de muita coisa: é só comida, diversão e lar. E um pouco de amor. No fim das contas, o que todos nós queremos.

Ela retribuirá com os olhos caramelos mais amorosos que vocês podem imaginar e com esse sorriso lustrado de quem já roeu muito osso à beira da estrada. Vai um carinho?

[Entre em contato via DM: @yvonnemiller_escritora. Feijão e eu agradecemos!]


Arte: Dog, Lying Down de Georg Arsenius.

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