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Fragmentos, estudos e aforismos de Novalis

por Novalis
novalis

traduzido do alemão para o português por Leopoldo Cavalcante

Considerações diversas, 1797 até 1798

Amigos, o solo está pobre, nós temos que espalhar sementes abundantes para que apenas lavouras moderadas prosperem em nós.

1. Nós procuramos por toda a parte o essencial, e encontramos sempre apenas objetos.

2. A designação entre sons e traços é para mim um esboço de Deus – alguns traços, um milhão de coisas. Quão leve seria o manuseio do Universo!, quão ilustrativo a concentricidade do mundo espiritual!, a teoria da linguagem é a dinâmica do reino espiritual! Uma palavra de comando move exércitos – a palavra liberdade, nações.

3. O Estado é o corpo que anima o belo mundo, o mundo social. Ele é seu órgão indispensável.

4. Os anos de aprendizagem são para os poéticos o que os anos acadêmicos são para os jovens filósofos. A academia deveria ser um instituto absolutamente filosófico – Apenas uma Faculdade – que organize todo seu ser para a euforia e o exercício prudente do poderio intelectual (Denkkraft). Os anos de aprendizagem, em sentido ideal, são os anos de vivência na arte. Através de tentativas ordenadas e metódicas, a pessoa apreende seus princípios e consegue as ferramentas para fazer o que bem entender.

5. A mente carrega eternamente a provação de si.

6. Nós nunca entenderemos a nós mesmos; mas vamos e podemos muito mais do que entender-nos.

7. Determinadas inibições assemelham-se àquelas de um tocador de flauta, que traz à tona diferentes sons, e às vezes os detém, às vezes os abre, e parece fazer encadeamentos aleatórios de aberturas mudas e sonoras.

8. A diferença entre ilusão e verdade repousa na diferença delas em suas funções na vida. A ilusão vive da verdade – a verdade tem sua vida em si. O homem destrói a ilusão como quem destrói as doenças – e a ilusão é, portanto, nada além de um incêndio lógico, ou o extermínio – paixão ou filistinismo. Isso deixa geralmente o rastro de uma aparente falta de poderio intelectual, que não pode ser içado por nada, como uma sequência decrescente de Incitamento (meios de imobilização). Muitas vezes isso torna-se uma vivacidade monótona, cujos perigosos sintomas da revolta apenas podem ser deslocados através de uma sucessão crescente de meios violentos. Ambas as disposições só podem ser alteradas através de tratamentos crônicos e rigorosamente seguidos.

9. Todas as nossas percepções são como o olho. Os objetos devem passar por meios contraditórios para surgirem corretamente em nossas pupilas.

10. As experiências são a prova do racional – e vice-versa. A inadequação da mera teoria à prática, sobre a qual os homens profissionais constantemente comentam, encontra-se reciprocamente na aplicação racional da mera experiência e é clara e suficientemente notada pelos filósofos sérios, mesmo que junta da autonegação de necessidade desse resultado. Os profissionais, portanto, rejeitam completamente a mera teoria, sem prever quão problemática poderia ser a resposta à questão: se a teoria é para a aplicação, ou se a aplicação é em prol da teoria?

11. A morte é uma derrota de si – que, como toda a superação das limitações pessoais (Selbstüberwindung), faz nascer uma nova e mais leve existência.

12. É para isso que precisamos de tanta força e esforço para o habitual e o comum, porque para os homens justos nada é tão inabitual, nada é tão incomum quanto a pobre normalidade?

O mais alto é o mais compreensível – o próximo, o mais indispensável. Apenas através da desconhecibilidade (Unbekanntschaft) com nós mesmo, o estranhamento (Entwöhnung) de nós mesmos surge como incompreensibilidade, que é em si incompreensível.

13. Os milagres alternam-se com as leis da natureza. Eles se limitam mutuamente, e juntos formam um todo. Eles estão unidos na medida em que se cancelam. Nenhum milagre sem eventos naturais e vice-versa.

14. A natureza é inimiga das posses eternas. Ela destrói todos os sinais de propriedade de acordo com leis rígidas, eliminando todas as características da formação. Todos pertencem à Terra – cada um tem direito a tudo. Os precoces não devem ter nenhuma prioridade ao acaso de serem primogênitos. O direito à propriedade extingue-se alguma hora. O melhoramento e a deterioração estão sob condições inalteráveis. Se, porém, o corpo é uma propriedade pelo qual eu adquiro apenas o direito de um ativo cidadão-da-Terra (Erdenbürgers), então eu não posso, por conta da perda dessa propriedade, dizer ter perdido qualquer coisa – eu não perdi nada além de uma posição nessa escola de príncipes (Fürtenschule) – e entro em uma corporação maior, aonde seguir-me-ão meus queridos companheiros.

15. A vida é o começo da morte. A vida deseja a morte. A morte é o fim e o começo, ao mesmo tempo – o divorcio e a mais próxima conexão de si, ao mesmo tempo. Pela morte, completa-se a redução (Reduktion).

16. Estamos mais próximos de estarmos acordados quando sonhamos que sonhamos.

17. A fantasia nos coloca o mundo futuro seja no elevado, ou nas profundezas, ou na metempsicose. Sonhamos com viagens através do universo – e, portanto, não está o universo em nós? Nós não conhecemos os abismos de nossa mente – Para dentro vai o caminho cheio de mistérios. Em nós, ou em lugar nenhum, está a eternidade com seus mundos – o passado e o futuro. O mundo externo é o mundo das sombras – ele joga suas sombras sobre o reino da luz. Agora parecemo-nos internamente tão sombrios, solitários e deformados (gestaltlos) – mas quão diferente parecerá quando esse eclipse passar e o corpo de sombras tiver ido embora (hinweggerückt). Nós gozaremos mais do que nunca, porque terá fugido nosso espírito.

18. [Erasmus] Darwin [é o avô do Charles Darwin] constatou que a luz nos cega menos ao acordamos quando sonhamos com objetos visíveis. Bem, àqueles aqui que sonharam com a Visão (Sehn) poderão tragar mais cedo a gloria daquele mundo!

19. Como pode o homem tirar sentido de algo se ele não tem em si a semente daquilo? O que eu devo entender tem que se desenvolver organicamente em mim. E o que aparento estudar é apenas comida – Incitamento do organismo.

20. A sede da alma é lá onde o mundo interno e o mundo externo se tocam. Onde eles se interpenetram – ela está em todos os pontos da penetração.

Bônus:

22. Quem procura, irá duvidar. O gênio, no entanto, diz com tanta ousadia e confiança o que vê em si mesmo, porque aquilo não está em sua figura e, portanto, também a representação não lhe é tendenciosa, mas sim a sua análise complementa-se livremente com a contemplação em um vago trabalho aparentemente unificado.

Caso falemos do mundo externo, quando tratamos de temas reais, como reais, e lidamos com eles assim, o talento de constituir, exatamente como observado, uma descrição apropriada é, portanto, diferente nos gênios. Sem esse talento, vê-se apenas metade – e é só meio gênio. Alguém pode ter propensões (Anlage) geniais, que, quando na falta desse talento, nunca se desenvolverão.

Sem genialidade, nós definitivamente não existiríamos. O gênio é necessário para tudo. O que se chama, todavia, normalmente de gênio é o gênio do gênio.

43. Voltar-se-para-si significa, para nós, abstrair do mundo externo […] O que nós chamamos de entrar-em-si (Hineingehn) é, na verdade, sair-de-si (Herausgehn); uma recaptura da forma (Gestalt) primária.

62. A humanidade é um papel humorístico.


Novalis (Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg) nasceu em Wiederstadt, Harz, em 1772 e vem a falecer 29 anos mais tarde em Weißenfels. As suas obras influenciarão uma série de gerações de autores alemães como Joseph von Eichendorff, Rainer Maria Rilke, Herman Hesse e Thomas Mann. Além destes, o argentino Jorge Luis Borges, entre outros.


Leopoldo Cavalcante nasceu em Fortaleza, Ceará. É editor da revista Aboio. Foi colunista de cultura no jornal Focus. Escreve sem compromisso no @resenhador_, Instagram literário – ou diário irregular de leituras.

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