Jiboia

por Cecília Garcia
Arte da capa de Jiboia de Cecília Garcia, com ilustração de Beatriz Garcia. Capa por Leopoldo Cavalcante.

Cecília Garcia é escritora e jornalista. É cocriadora do Bestiário Brasileiro, projeto de textos literários e ilustração científica sobre animais reais e imaginários do Brasil. Teve contos publicados em coletâneas literárias como o Prêmio Off Flip 2021Linguateca (2016) e Desnamorados (2014). Jiboia (Editora Aboio, 2023) é seu livro de estreia.


O Monza do faraó

Com as mãos meladas de durex e ansiedade, ele telou toda a casa durante a madrugada. O amanhecer surpreendeu-o sentado no sofá puído, cansado, os olhos duas bolas vermelhas, as bolsas sob eles roxas como a aurora que se anunciou derrotada e iluminou suas posses: um lustre de falsos cristais, uma estante de livros sem livros, uma TV ligada nos infortúnios vindouros com o mesmo tom dos telejornais. Estava cansado, mas não iria dormir. Queria vê-los chegar.

Na noite anterior e sem muito alarde, alguns morreram no pequeno pedaço de terra e grama que gostava de chamar de quintal. Entendia que perdiam a força se por algum motivo se separassem do enxame e se suas bocas esbarrassem no asfalto e não no grão, caindo de lado feito vans acidentadas. Deixou os mortos para trás sem dó e sem sepultura.

Antes de poder passar um café para tirar da língua o sabor pastoso da madrugada, os vivos rebentaram contra a sua janela. Crianças vizinhas berravam excitadas. Adultos tinham na boca a costura do medo.

Ele caminhou até a porta telada. O gato no meio da rua era sem sorte ou valente. Um vestido assimétrico de gafanhotos deixou entrever entre patas e fome o que as bocas feias não conseguiam comer sem deixar de tentar. O resto do enxame, nuvem marrom, se incumbia de devorar o recheio entre céu e terra.

Era pior, bem pior do que na TV. Um deles pousou a poucos centímetros do seu rosto, do tamanho de sua mão. Não chama os outros na linguagem incógnita dos insetos. Seus companheiros comiam as espadas de grama vizinhas, envergavam em peso artrópode um condenado pé de acerola. Nas casas não teladas, irromperam exclamações de pavor e o som de algo rompendo como um pote gordo de geleia.

De cenho franzido, elaborou um amanhã de pequenos e sucessivos azares estomacais para si próprio, seus vizinhos de duas pernas e os de seis. O pão encarecendo no mercadinho, menos macio e mais oco de vontade. Dias de varredura intensa. O mato escasso para os lábios inimagináveis dos bichos toleráveis, a formiguinha, a joaninha.

A nuvem era muito rápida. Quando acabou, sobrou uma mulher.

Feito um gafanhoto que dobrou de tamanho, ela está sentada de cócoras, as coxas grossas pressionadas nos braços finos, os pulsos sem força apoiando o queixo pontudo. Os olhos estão grávidos de propósitos histriônicos. Só os entendeu quando ela começou a se mover.

Saltou perto do Monza do vizinho dele. Era um carro muito amado, cintilante dos periódicos banhos de cera em sua tintura vinho. Ela estendeu uma mão de garras prateadas. Começou a arranhar de ponta a ponta o Monza, riscando-o com o que agora percebeu ser um molho de chaves. Tinha a convicção de uma praga e também sua displicência: desenhou na pintura colinas furiosas, círculos incompletos, hieróglifos indecifráveis. Às vezes olhava para trás, as chaves em riste, pronta para enfrentar quem ousasse pará-la. Porém tudo morreu no enxame, inclusive a coragem.

Ela se afastou, alta agora que não mais de joelhos. Parecia admirar o que havia feito, ou refletir se era o suficiente. Chutou as lanternas dianteiras. Uma quebra, a outra resistiu. Os nervos da pele protestavam avermelhando a sola do pé, sem rompê-la à pressão do tambor de sangue.

Ele sentiu a violência imantar seus olhos, a atenção do pescoço. Estava com sono, com fome, mas se recusou a se mexer e todo bairro padeceu da mesma imobilidade. A imantação reversa do seu fascínio não era imóvel. Atravessou os quadrados milimétricos da tela e o tremor da grama vencida. Do asfalto que separa sua casa do Monza, alcançou o pé sem inchaço no qual ela se equilibrava. Perneta, a mulher girou o corpo. Largou a carcaça do carro e foi em direção a ele. Andava humana, mas sabia que ela não era. Ou não só era.

Parou de olhá-la, perscrutou seu cômodo, procurou um objeto qualquer, uma domesticidade ínfima que justificasse a permanência na sala. A casa não ofereceu nada.

Ela o encarou através da tela. Aproximou a boca. Ele ofereceu o ouvido temeroso.

“Você diga a ele que fui eu. Não faça ele ter dúvida de que fui eu. Diga que foi com a chave dele, com a mão que foi o brinquedo favorito dele que acabei com algo que ele amava.”

Prometeu para mulher que iria contar. Repetiu três vezes a frase com nitidez.

Estava vindo outra nuvem. Ou a mesma nuvem.

A mulher voltou para o meio da rua, a mão sob o capô do Monza, se avizinhando dos estragos passados e futuros. A terra começou a latejar, a tela também. O sangue nunca parou. Ele não ficou para vê-la desaparecer.


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Animalescos, os 16 contos de Cecília Garcia nessa coletânea misturam o fantástico, o cotidiano, passagens bíblicas e panteões de outras fés. Com doses de terror, as histórias de Jiboia nos mantêm alertas, saboreando cada linha com curiosidade e receio.


Ilustração da capa: Beatriz Garcia.

Capa: Leopoldo Cavalcante.

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