Jornalismo suicidário: veicular textos racistas em busca de audiência

por Geri Moskine
Foto de Luísa Machado, para ilustrar a crítica "Jornalismo suicidário: veicular textos racistas em busca de audiência", de Geri Moskine.

Geri Moskine faz literatura, mas mantém os fatos. Aquele zumbido no pavilhão que invade pelas frestas. Não é a crise da imprensa, mas o que pode fazer para agravar. Sorrateiro na preservação da brasa, vê o que está implícito para criar contextos em movimentos de contestação que chafurdam no lixo, na sopa da cultura e na inconsistência coletiva da linguagem. Para entrar em contato procure o @GDegolado no twitter, colega de bar que anota num guardanapo e passa o recado.


A Folha lida com acusação de abrigar racistas para alavancar a audiência. Em Racismo do contra ganha força, o autor pressupõe que a cor da pele não determina moralidade. O artigo, uma isca com lamúria patética a uma ecologia de opiniões, abre caminho para a “opinião contrária” ganhar espaço e externar indignação. “Questionar o racismo é legítimo”, escreve.

Um grupo com quase 200 jornalistas maquiou uma carta alertando que “a Folha dá credibilidade ao racismo com treinamento exclusivo”. O protesto é um fato inédito contra o jornal que adora abrigar uma polêmica.

A Folha ideologiza seus dogmas nas polarizações, afinal a publicação de textos racistas deforma, propaga ódio e incentiva a violência estrutural. Tudo piora quando o chefe de Redação promove “diversidade” e “uma redação disposta a seu Projeto Editorial”, enquanto o jornal legitima o “prazer em ficar errado na história” e oposição intolerante não respeita.

O jornal considera que um manifesto antirracista fere seus princípios, usa a palavra “inegociável” para agravar a falta de diálogo e gera a estratégia por audiência de um artigo provocando a publicação de textos “antídotos”. Se é importante variar analistas, um polemista não deveria registrar pontos na questão controvertida. Inegociável é a questão racial mal-conduzida.

As premissas na busca de uma identidade não deixam de distinguir, dividir, separar. A tese para o racismo no Brasil quer ver o projeto da loucura supremacista como discurso de complacência em realidades apenas embrionárias enquanto irmãos se movimentam esmagando as frágeis faces no mundo morto. Não devemos fazer vista grossa ao racismo com microscópios implacáveis. A visão dominante marca ignorância e argumenta que o passado desculpa o racismo do presente. O racismo é inaceitável e deve ser enquadrado qualquer que venha e de onde vier.

Resta a pergunta fundamental: A Folha é racista? Quem observa a cena finge que nada aconteceu. Leitores hipócritas continuam depois de uma pauta racista promover a atmosfera de ringue midiático que vende jornal.

Mesmo jornalistas sendo instrumento do Projeto Folha, é preocupante ter os princípios renovados em atualizações, como a última que reconhece “a importância de um ambiente plural para ampliar leitores e se fazer necessária diante de texto que provoca reações em cadeia”.

A pluralidade, um princípio oco, se preenche com argamassa de espírito acrítico e desonestidade intelectual. Os jornalistas que assinaram o manifesto terminam com a resposta de que o respeito se mantém fora do pacto civilizatório e, portanto, ofender não causa prejuízo. É hipocrisia ouvir que o jornal quase sempre escreveu o que quis. Quase sempre. Não esqueça do “quase por respeito” que vai se imiscuindo na estrutura da coisa.

A posição da Folha revela tendência ao autoaniquilamento nas repercussões negativas. As declarações sobre a legitimidade de abaixo-assinados é briga ideológica na pauta do retrocesso pela qual o jornal opta: perseguição política, perda de valores e apoio à demência.

O jornal esperava a ampliação de horizontes. Mas não é a realidade. Opor o racismo à liberdade de expressão dá nós que demandam soluções insuperáveis. E a Folha tem uns tantos atados. O jornal precisa de direção com gente que enxergue. Mudança profunda é isso, o resto é cosmética pra cego ver.


CUT-UP das fontes:

Antonio Risério: Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo
(15/01/2022)

Suzana Singer: Folha é acusada de veicular textos racistas em busca de audiência (19/01/2022)

Silvio Almeida: Jornalismo suicidário (20/01/2022)

Cristina Serra: Sobre jornalismo e coragem (21/01/2022)

José Henrique Mariante: Os nós górdios da Folha (22/01/2022)

Marilene Felinto: A Folha envelheceu mal (23/01/2022)

Ana Cristina Rosa: Tudo que é bom é branco? (23/01/2022)


Foto de Luísa Machado.

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