kwiver

por Ricardo Escudeiro

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.


kwiver

“All those beautiful people, I want to have them all
All those porcelain models, If only I could make them fall”

(In: “Sleeping sun: four ballads of the eclipse”, Nightwish, 1999)

em uma foto de Leticia Kamada

performance sob céu em incêndio
pega do lápis do estêncil mas traz logo vai
traz logo aqui pra uma cópia um ensaio
de uma narrativa bem visível de um astro em sua hora extrema
da queima e os medos que incita
a gravidade de exemplo ela pode ser testada
de modos que não são previstos cardealmente
como quando avós diziam dos perigos
de se olhar
para o sol
e fazíamos de filtros as chapas de exames de raio
e quem sabe até vez ou outra não registávamos por ventura
uma coroa solar transpassando uma mandíbula ou omoplata
como quando nos diziam dos perigos
de querermos um tamanho de sarça pra sermos ardentes
e nos alertavam já cedo

cuidado com o que almejam olha que assim
ficam pequeníssimos
perante seres supradizentes

nada igual um pouquinho do medo pra que te saia
tremido o traço
como quando da extrusão
que difícil essa lida com corpos intrusos seja em imagem ou som
das sete prováveis e das muitas outras
línguas que conforta um diafragma
como quem diz

temos aqui é um céu escarlate

sabendo
do perigo em dizê-lo por outros meios
sabendo
que por abdução ou por arrebatamento
colocam-se
as chispas em crepitação
coa-se
uma fogueira de baixo pra cima
pensa-se no quanto vemos das moléculas
em tremedeira líquida através das labaredas
do processo de cocção do asfalto ou do chão do deserto
e que falta faz não ter quem venha e diga calma calma

acalma teu coração criancinha acalma
acalma teu coração ou seja lá qual for a peça
donde guarda tuas coisinhas angustiantes tuas coisas
intranquilas

de miragem mesmo restava era saber que uma chama
em sua verdade é azul
azul como o inferno e de todo modo vermelha
era a cor ocupando a parte toda de cima das vidas
sabendo-se toda essa parte de cima

toda

precedendo o que pode ou não ser fotografia o que vai ou não
ser um enquadramento que outrem
igual
não faria
das destrezas com o fotômetro
que difícil descrever o que é fóton
que difícil
obturar o próprio fogo
esse
exemplo aceso da entropia


vida de inseto

“Humanos em um futuro fascista e militarista
guerreiam contra insetos alienígenas gigantes.
Diretor: Paul Verhoeven”

fabricar a hora mais densa a tensão
entre aquele reino
que aqui por ora não nomearemos
e o reino onírico
como aquelas espécies de crossovers
estranhíssimos
não pensa não só visualiza ou escuta

aquela cena
em que seth brundle é quem come o peter parker

ou aquela
de um deus interino
que desse conta por exemplo
tanto de besouros quanto de sísifos
uma voz
que orientasse melhor
tal como a via láctea produzindo em uníssono
movam
as suas bolas de merda
em sintonia com a luz das galáxias

uma barriga pesada como se tivesse comido
todo o granito de que é feito um mundo
quando toda carne viva de toda coisa
viva foi limpa
dos ossos das coisas vivas
mas essa é uma sub cena cantada solta
de classificações inferiores de sub
reinos
filos também estranhíssimos

no contratempo uma cigarra
que fricciona
inflige
todo o mundo contra o próprio abdome

qual desses
é o melhor
dos mundos o hino


Foto de Luísa Machado.

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