Liv, por Sigbjørn Obstfelder, tradução de Guilherme da Silva Braga

por Sigbjørn Obstfelder (trad. Guilherme da Silva Braga)
Arte da capa de Noveletas para ilustrar o trecho de "Liv", de S. Obstfelder.

Sigbjørn Obstfelder (1866 – 1900) foi um escritor e poeta norueguês do século XIX. O autor é um dos expoentes do modernismo literário norueguês.

Guilherme da Silva Braga é doutor e mestre em estudos de literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2016 foi indicado ao Prêmio Jabuti pela tradução de A Ilha da Infância, romance de Karl Ove Knausgård (Companhia das Letras, 2015).


Em uma cidade grande existem cantos escuros, ruelas com nomes estranhos, nomes que despertam sentimentos relacionados ao crepúsculo de uma vida, na qual ocorre muita coisa que nem mesmo os livros conhecem.

Estou morando em uma dessas ruas. O lugar é muito silencioso. Às vezes passa uma carroça de leite, ou um carrinho de carvão, ou então um afiador vai de casa em casa. Mas depois o silêncio volta redobrado.

Não vejo pessoas ricas nem “elegantes”, nenhuma daquelas que aparecem nos jornais ou em anuários do governo. Mesmo assim, as pessoas que encontro têm os olhos repletos de nobreza. Quem sabe? Talvez tenham no alto da grande e escura casa de alvenaria um segredo: um recanto bem iluminado, um canário, um gato entre as flores da janela, um jogo de chá herdado de porcelana antiga.

Quando eu vou para casa à noite e, vindo dos bulevares, entro no meu bairro, meus pensamentos entregam-se a um mundo novo e próprio. Lá não existe nada que os abafe.

Perto da minha habitação existe um café que costumo visitar ao escurecer. Em geral o lugar está vazio. Gosto muito de ficar sentado lá. Posso ficar lá sentado por muito, muito tempo.

Nem sei ao certo por que gosto tanto. Acho que na maioria das vezes nem chego a pensar, tenho apenas um sentimento de paz, de que naquele instante tudo está em silêncio, de que as perguntas grandes e difíceis e as dúvidas terríveis e tudo o que há de patético não se encontra por lá, de que respiro tranquilo e as pessoas andam ao meu redor e cuidam de seus afazeres e vivem em silêncio, sem reclamações e sem nenhuma exigência de que justamente eu também participe.

Também acontece de surgirem imagens e memórias, coisas muito antigas, como o farfalhar da floresta, o murmúrio do mar, a minha infância ao sol. Não faz mal. Essas coisas não me dilaceram mais. Não, todas são como as visões de uma lanterna mágica, que simplesmente passam por mim lá no porão enquanto bebo vagarosamente o meu café.

Sem dúvida é um sentimento parecido com o de alguém que esteja sentado na igreja de um vilarejo rural em um dia de verão: as portas encontram-se abertas. O cheiro de feno está no ar. E por todo o piso em direção ao altar movimentam-se coloridas listras de sol. Para quem as vê, todo o resto se transforma em sonho.

Sim, todo o resto se transforma em sonho.


A bem dizer eu conheço algumas pessoas nessa cidade, mas raramente faço visitas. E quando faço sinto um medo terrível. É como se eu temesse que fossem roubar uma parte de mim. Passo um longo tempo junto da janela, vejo as cabeças delinearem- -se nas cortinas e não sei se tenho coragem de subir em direção à luz.

Seria apenas uma impressão quando penso que me olham de um jeito estranho? Ou existe na minha forma de caminhar, no meu olhar, alguma coisa – alguma coisa da minha ruela, do meu porão? Sinto uma necessidade de caminhar em silêncio e falar devagar. Para mim é doloroso quando alguém grita ou gargalha.

Tampouco consigo participar de conversas. Porém apraz-me ficar sentado, escutando. Não de maneira a compreender como as ideias se articulam. Já não entendo mais sobre aquilo que se fala. Não consigo conceber que tudo aquilo seja interessante. Parece-me que no fundo tem muito pouco a ver com aquilo pelo que vivemos e morremos.

Para mim tudo não passa de um concerto de vozes humanas. Vejo como os cérebros trabalham para encontrar a palavra certa, escuto as vozes se erguerem e se abaixarem. Por vezes as pessoas ficam bravas. Nessas horas eu com frequência quase desato a rir.

Fico sentado e escuto, vejo os rostos se enrubes- cerem, as mãos erguerem os copos, ouço-as pra- guejar, rir, bater na mesa.

No fim acabo um tanto melancólico.


Não sei o que está acontecendo comigo. À noite me sento e escuto os mais variados sons que não estão lá. No entanto, eu devo ter ouvido aqueles passos antes. Já moro aqui há um mês, e até onde sei ninguém mais se mudou para cá. Mesmo assim, percebi-os apenas nos últimos tempos.

Nos cantos da casa – nos últimos tempos eu nunca deixo de perceber – em frente às janelas, na porta da rua e nos degraus. Como são leves! Ela deve ser jovem.

Anseio por ouvi-los de novo hoje à noite. E o farfalhar do vestido.


Me irrita, mas não consigo evitar. Quando conheço uma ou outra moça, pergunto sempre a mim mes- mo: será ela? E acredito saber com certeza que não é nenhuma daquelas que conheci até hoje. Não é estranho?

Eu poderia sair e encontrá-la como que por acaso no corredor. Mas é como se alguma coisa me impedisse.

Quando a ouço nos degraus, não consigo evitar que o meu coração passe a bater mais forte. Me irrita.


O que pode ser? Os passos dela já não são mais leves e ligeiros. Eu também me sinto intranquilo e não consigo trabalhar.


Aqui é tão solitário – nada de passos familiares, nada do farfalhar do vestido! É como se todas as pessoas tivessem ido embora e as casas estivessem vazias. Por vezes tenho a impressão de ouvir lamentos e gritos sufocados. Passei demasiado tempo sentado e sozinho e estou nervoso.


Você acabou de ler alguns trechos de Liv, uma das novelas em Noveletas, de Sigbjørn Obstfelder.

Noveletas estreia a Coleção Norte-Sul. Parceria entre a Aboio e o tradutor Guilherme da Silva Braga, a Coleção Norte-Sul trará uma gama de autores e autoras de países nórdicos (ou que escreveram em línguas nórdicas) ainda pouco conhecidos pelo público brasileiro.


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