Na intimidade do silêncio

por Cintia Brasileiro
Fotografia de Nane usada na arte da capa de Na intimidade do silêncio, de Cintia Brasileiro.

Cintia Brasileiro (Passos/MG, 1983) mora em Araçatuba/SP, é mãe da Carolina, redatora publicitária e mediadora do Clube do Livro Escritoras Brasileiras. Pesquisa literatura feminina brasileira desde 2011. Acredita que a leitura e a escrita libertam. Possui crônicas e contos publicados em antologias, lançou de forma independente seu primeiro livro infantil, Versinhos Doces, em outubro de 2021. Estreou na prosa com o romance Na intimidade do silêncio (2023), publicado pela Aboio.


Meu naco de céu

Os convidados pouco a pouco vão chegando. Os que vieram de carro estão bem arrumados; quem anda de ônibus e metrô, como eu, está no banheiro se retocando. Sheila me empresta um batom vermelho e diz, na minha cara, que está na hora de aposentar meu gloss com glitter.

Joana Medeiros, a diretora do colégio particular onde trabalho, foi quem aprovou minha contratação. E passou a me aconselhar sempre que me encontra na sala dos professores.

Leve uma lembrancinha, tire uma foto com o aluno e ninguém vai perceber se você for embora antes dos parabéns.

Ela nem podia imaginar o quanto eu gosto de festas infantis, principalmente do momento de cantar os parabéns. Quando todos se reúnem em volta da mesa do bolo com doces, eu me permito apertar um botão-ficção e parar o tempo. Então, por alguns instantes, posso ocupar o lugar do aniversariante.

Não tive muitas festas de aniversário. Não foi culpa minha nem do vô Pedro.

Minha última festa-festa, de verdade, foi da Moranguinho. Eu tinha cinco anos. Convidamos amigos da rua e da escola, professora, amigos de trabalho dos meus pais, madrinha de batismo, até os parentes de segundo grau.

Nunca mais fui tão abraçada.

Meu vestido era vermelho com listras brancas e babados na barra. Usei meia-calça bege, sapatilhas de verniz e chapéu com laço.

Que graça!
Dá uma voltinha, Lia!

Todos os presentes ficavam sobre a cama de casal, até as meias. Eu sorria, recebia com as duas mãos, abria o embrulho e não podia deixar de agradecer, mesmo que fosse um pacote de calcinhas. Não tinha essa de ter alguém para colocar os nomes nos embrulhos.

Que boneca!
É a cara da máe!

Os papéis de presente eram jogados embaixo da cama. Uma espécie de simpatia para atrair mais e mais embrulhos. Pelo menos nessa festa, o ritual funcionou.

O bolo de aniversário não era falso, era um retângulo que ocupava boa parte da mesa da cozinha. Daqueles para comer, meter o dedo na beirada, repetir e poder levar para qualquer “ente querido” que resolveu ficar em casa.

Guaraná-maçã, refrigerantes de um litro verdes, pretos e laranjas; balas de coco com franjas vermelhas e brancas; beijinhos, cajuzinhos e brigadeiros. Tudo bem espalhado para decorar e rechear a festa com aromas, borbulhas, sabores e tentações.

Mãos abelhudas de todas as idades voejaram sobre a mesa. As bandejas circulavam pela casa e pelo quintal, ora no alto, ora mais embaixo. A altura delas estava à mercê da simpatia (ou da antipatia) de quem servia.

Os doces roubados eram os melhores.

Filei brigadeiros durante o pega-pega e ganhei uma bela dor de barriga na manhã seguinte. É que não resisti à maria-mole que vinha dentro do saco surpresa com a língua de sogra, pirulitos coloridos, balas, apito e chicletes.

Foi o melhor dia da minha vida, máe!

Ninguém escapou do chapeuzinho-cone com elástico que vivia teimando em arrebentar, nem o vovô. As fotos comprovam. Quando olhei para todo mundo cantando parabéns pra você, bailei com as palmas, pulei com os gritos e soprei a vela. Nenhum lobo mau poderia botar defeito.

É hora, é hora
É hora, é hora, é hora Rá-tim-bum!

Sinto o cheiro de pipoca.

Vovô amava pipoca! Futebol para ele era sinônimo de pipoca. Aos poucos, como fogos de artifício, acompanho o milho e seu desabrochar no carrinho estacionado na lateral do salão. A cada estouro, um flash salgado e doce estrondeia minha memória doce e salgada.

Com quem será? Com quem será? Com quem será que a Lia vai casar?

É verdade que houve uma pausa após a cantoria, não lembro qual dos meninos passou por essa saia justa comigo. Fiquei hipnotizada, os olhos da minha mãe brilhavam mais do que a Estrela Dalva quando lhe entreguei o primeiro pedaço do meu bolo.

Sinto uma pontada no peito. É tarde demais para me arrepender de ter aceitado o convite do meu aluno. E cedo demais para ir embora.

Contemplo a decoração de circo, devoro as batatas fritas, um mini-hambúrguer e um enrolado de salsicha. Recordo o alerta da minha mãe.

Cuidado com a comilança, filha. Olha o tamanho dessa barriga!

A música da Xuxa cessa e uma das monitoras do bufê infantil toca uma trombeta.

Estátua!

No quintal da minha meninice, meus ouvidos eram acionados por outra buzina, a buzina vermelha que seu Joaquim tocava ao percorrer o nosso bairro. Mesmo aposentado, o amigo de longa data do vovô Pedro precisava ganhar um extra.

Pi-co-lééé!
Separei três de morango e
um algodáo-doce no capricho, seu Pedro. Hoje náo precisa me dar troco, Joaquim. Deus te abençoe, meu amigo.

Em outras ocasiões, como no dia do aniversário do menino Jesus, o velho camarada da nossa família era mais conhecido como “o Rei Congo Joaquim Trovoada”. E realizava seu cortejo elegante com sua capa e coroa pelas ruas da cidade.

Fuzuê, fuzuê, fuzuá Quando chega a festa santa Faz meu coraçáo chorar.

Ele desfilava na companhia da rainha, das princesas, dos congos, da bandeira e do mastro. Todos embalados pelas caixas, pandeiros, sanfonas, cavaquinho, tamborim, adufes e violão.

A minha mãe era uma das princesas.

Queria poder ligar para ela.

O corre-corre da criançada faz cair a minha ficha. Na festa do meu aluno Jonathan, em volta da máquina de algodão-doce, está boa parte do público que adora brincar com a imaginação. O olhar curioso da molecada rodopia.

É mágica, tio?

Tem que ser. O giro dos cristais de açúcar é um espetáculo à parte, a escolha da cor, a velocidade das linhas dulcificadas… é o balé da fabricação.

Basta lamber as pontas dos dedos para cessar meu grude-grude.

Acho que é isso que o doce algodão recomenda para cada criança que sai correndo da fila. Meu olhar pidonho alcança um coração bondoso. Fernandinha vem saltitante com dois palitos de algodão-doce e me entrega um.

Pra você, tia. Obrigada, querida.

Sem pressa, deixo cada pedaço derretendo dentro da minha boca grande enquanto meu paladar infantil se diverte nas nuvens com meu naco de céu.

Chegou, chegou, tá na hora da alegria O circo tem palhaço, tem, tem todo dia.

Uma bandeja cai. Copos e pratos se espatifam no chão.

Um grito arrebata meu transe.

O aniversariante está assustado. Tromba no garçom, bate no pai e tenta se soltar dos braços da mãe. Desesperada e sem graça, em vão, Miriã, a mãe do pequeno mágico, busca acalmar o garoto. Ela não sabia, acho que ninguém podia imaginar: os palhaços contratados para um pequeno show eram o pior pesadelo do menino.

O aniversariante vermelho-roxo, afogado em seus soluços, faz birra no meio do salão. O dono do buffet troca a música e os artistas são convidados a aguardar na cozinha.

Para os adultos, mais uma rodada de cerveja bem gelada. Para as crianças, refrigerante e muito cachorro-quente. Os pais do aniversariante tentam colocar panos quentes naquela constrangedora situação.

Helena, a avó do menino, entrega-lhe um boneco, acho que um super-herói. Aí, senta-se no chão segurando outro brinquedo e passa a se divertir sozinha, sem dirigir uma palavra ao neto. Aos poucos, como um gato manhoso, ele vai se aproximando da avó. Num piscar de olhos, está no colo dela. Passados quinze minutos, de barriga cheia e ânimos acalmados, todos estão ao redor da mesa principal. Menos a dupla de palhaços.

O menino Jonathan, de sete anos, está recuperado do choque, seus pais estão bem felizes, e as crianças, bem ansiosas para receber a lembrancinha.

Parabéns pra você
Nesta data querida 
Muitas felicidades…

Em respeito ao aniversariante, não aperto o botão, o momento é dele. Todo dele. Merecidamente dele. Eu até me iludo em meio às dezenas de balões coloridos, mas, findada a cantoria, o primeiro pedaço não vai para a vovó, a mamãe ou para o pai do menino. Ai, ai, ai! Vai para uma pequena, a Julinha.

O bolo é de chocolate com recheio de Prestígio, meu favorito. Como meu pedaço e, por um minuto, pouso a mão na minha bochecha. Acaricio o lugar que um dia acolheu uma marca de lábios vermelhos e cintilantes.

A cerveja acabou.

Engulo essa lembrança com a ajuda de um copo de guaraná.


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Mais sobre a obra

Como seria uma vida sem nenhum tropeço ou dificuldade? E o que pode ser feito dela apesar desses obstáculos?

Nascida e criada em Minas Gerais, Lia é uma professora de Artes desbravando São Paulo. Sua infância e sua adolescência foram marcadas pelas consequências das ações dos adultos ao seu redor. Agora, já crescida, ela tenta fazer as pazes com seu passado enquanto assume o protagonismo da própria vida.

Autora de um livro para crianças, Cintia Brasileiro se apresenta a um público mais velho com um romance que trata justamente do processo de amadurecimento sem deixar de lado a ingenuidade do olhar infantil. Com sua prosa leve, Na intimidade do silêncio versa com delicadeza sobre as dores de crescer.


Fotografia: Nane

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