o carro de apolo capotou no horizonte

por Milena Martins Moura
Fotografia: Vista do Jardim Botânico; a partir da Estrada do Redentor – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Milena Martins Moura é autora dos livros Promessa Vazia, Os Oráculos dos meus Óculos e A Orquestra dos Inocentes Condenados, bem como da plaquete digital Banquete dos Séculos. É editora da revista cassandra, de seu selo erótico Héstia e da taioba publicações, parceria entre a cassandra e a Macabéa Edições. É mestre em Literatura Brasileira pela Uerj e atualmente cursa doutorado em Literatura Comparada pela UFF.


o carro de apolo capotou no horizonte

Cena 1

o armário de madeira
tem cheiro de dor guardada
ainda molhada
para mofar
ㅤㅤㅤㅤㅤé escuro e faz frio dentro
ㅤㅤㅤㅤㅤda velha chaga

Cena 2

o desconhecido esconde
os olhos de
mim no
espelho

Cena 3

sangues diferentes
com histórias
ㅤㅤㅤㅤㅤdiferentes
sujam sobrepostos a blusa da escola

estou dentro de mim por uma sucessão
de finais infelizes

Cena 4

a cortina só se abria para as tempestades

Cena 5

primeiro fez-se o universo
depois a vontade cansada
que prefere morrer
era preciso fazer o universo para caberem o fogo e o pano
estou dentro de mim porque primeiro fez-se o universo

Último ato

dentro do armário
chora uma criança sem dores
chora porque habituada à constância das dores
ㅤㅤㅤㅤㅤacha que morreu

Eu menti, cena 7

no escuro do armário
meu rosto no espelho
me parece
real

Cena 8

oito da noite 2023
tenho 36 anos e uma enxaqueca
o armário foi dado ao vizinho que morreu de infarto

Último último ato

[cai o pano]
pego do chão com o pé
seco os olhos e os pratos sujos
alguém precisa lavar a louça enquanto eu bebo a tempestade


If it fits

versos inúteis
se deitam de bruços
na balança

você sabe o tamanho do erro

para reconhecer o erro
é preciso pegá-lo pelo pescoço
apalpar o cancro duro
da palavra calada na garganta
do erro
sentir o silêncio protuberante do erro

você sabe o peso do erro

colocar o erro e seus tumores
exagerados
de bruços
no lado mais baixo da balança

pesar o lugar do erro
ao rés do chão
onde pode lamber o chão
e transformar o caminho
em erro

você sabe o tamanho do erro?

para olhar nos olhos do erro
é preciso ter medo
e um pouco de lágrima
um pouco de fome
e um fósforo

pesar os cancros
duros
e as rasuras
do erro
e então cantar para que durma
com as arestas por aparar
os choros por engolir
os cantos das unhas comidos

hoje apalpei as rugas no rosto
do erro
reconheci sua boca grande

o erro tem 36 dentes e eles doem no frio

eu disse que seria forte e descobri que sei mentir

versos inúteis
se negam o sopro
à luz do fogo


de joelhos sobre o peito de conrad que me ensinou a recusar a morte

deixei um riso malogrado
numa quina
e pés
doridos
num chão
que não piso mais

não sei caber atrás
das grades
de onde
vi morrerem
mil recém-nascidos
sóis

na armadura férrea
que me vestia
existo
lembrança
e centelha
e expansão

é findo o tempo do medo

é hora de cantar ao redor do fogo
que o medo
foi entregue em
sacrifício
dentro do meu único corpo
em que habito só
não mais
se debate
o horror


Fotografia: Vista do Jardim Botânico; a partir da Estrada do Redentor – Marc Ferrez (Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

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