o coiso: paranoia e nojeira em “The Thing” (1982), de John Carpenter

por Luis Filipe Caivano
desenho de Gabriela Caivano ilustrando crítica de Luis Filipe Caivano sobre The Thing, de John Carpenter

Luis Filipe Caivano nasceu em São Paulo, é um pouco mais velho do que gostaria e escreve porque não sabe desenhar. Foi quarto colocado na categoria crônica e finalista na categoria poesia do Prêmio Off Flip de Literatura 2021. Escreve mensalmente para a Aboio.

Gabriela Caivano mora em São Paulo e estuda psicologia. Desenha desde pequena e na pandemia começou a se dedicar mais à ilustração para se distrair do fato de que mora no Brasil.


Na primeira semana do inverno de 1982, a base norte-americana de pesquisas na Antártica recebe a visita inesperada de uma dupla de noruegueses em um helicóptero que tenta alucinadamente caçar um assustado husky siberiano por meio de, literalmente, tiro, porrada e bomba. Os dois escandinavos acabam eles próprios morrendo na confusão que se segue à sua chegada sem darem maiores explicações acerca do seu comportamento, digamos, peculiar, e o assustado bichinho consegue um novo abrigo junto aos americanos. 

Esse podia ser o final emocionante de uma versão live action do clássico desenho animado “Balto”, mas na verdade é o começo de uma das maiores obras de terror e ficção científica da história. Isso porque não demora muito – 28 minutos, para ser mais exato – para descobrirmos que o melhor amigo do homem na verdade é um alienígena recém-descoberto pelos finados noruegueses depois de passar alguns milhares de anos congelado no subsolo antártico. Ao contrário do amigável etezinho spielbergiano que só queria voltar pra casa1, o alienígena em questão tem o deselegante hábito de assimilar formas de vidas orgânicas e depois recriar cópias2 aparentemente perfeitas delas com o provável intuito de se espalhar por e dominar todo o mundo. 

A premissa de “The Thing” (título inexplicavelmente traduzido para o vernáculo como “O Enigma de Outro Mundo”), sexto longa-metragem dirigido por John Carpenter, é relativamente simples e mesmo em 1982, ano em que foi lançado, já era um tanto manjada. Nas décadas de 50 e 60 em particular, não por coincidência o auge da Guerra Fria, obras retratando a paranoia ocasionada pela invasão de seres extraterrestres capazes de se passar por humanos foram extremamente populares e estabeleceram a ficção científica como um gênero cinematográfico popular e, portanto, rentável. A própria novela que serviu de base para o filme de Carpenter, “Who Goes There?”, de John W. Campbell Jr., já havia sido adaptada para as telas em 1951 no seminal “O Monstro do Ártico”3. Filmes como “Vampiros de Almas, “A Vila dos Amaldiçoados” (refilmado por Carpenter em 1995) e “A Ameaça que Veio do Espaço”, apenas para citar alguns títulos, também datam desse período de histeria anticomunista que foi instrumentalizada por grupos fundamentalistas para perseguir todo tipo de ideia que não coincidisse com seus limitados repertórios ideológicos (algo que felizmente não é nem um pouco familiar para os brasileiros em 2021).

Mesmo com quase três décadas separando o apogeu das histórias de invasão de alienígenas metamorfos e o lançamento comercial de “The Thing”, o filme se destaca neste subgênero de terror e ficção científica em razão de seu roteiro preciso e de sua direção impecável. John Carpenter consegue transitar naturalmente entre momentos de tensão e suspense dignos de Hitchcock e cenas antológicas de horror corporal capazes de causar inveja em um Cronenberg da vida. Tanto é assim que os efeitos especiais do longa, mesmo datando de um período em que a animação computadorizada (vulgo CGI) ainda dava seus primeiros passos em stop motion, envelheceram melhor do que o George Clooney e ainda hoje são considerados um paradigma da indústria audiovisual. 

Voltando ao filme propriamente dito, após a tumultuada chegada dos noruegueses, e a despeito das condições climáticas adversas, o médico da equipe, doutor Copper, convence o piloto de helicóptero e protagonista rústico-lobo-solitário-macho-man MacReady (Kurt Russell em uma atuação arquetípica) a levá-lo até a base dos falecidos. A visita tem o duplo propósito de procurar por sobreviventes e, se possível, entender o que levou os dois homens a montarem num helicóptero e saírem atirando em um cachorro em pleno Polo Sul. Nesse meio tempo, o cachorrinho/alienígena perambula como uma criança em uma loja de doces pelos alojamentos americanos, escolhendo qual dos dez homens remanescentes parece ser o mais apetitoso (lembrando que Kurt Russel, a escolha óbvia, estava temporariamente ausente).

O cenário de destruição encontrado por MacReady e Copper é uma aula de terror psicológico4. John Carpenter nos fornece apenas algumas peças de um quebra-cabeças sinistro, o resto nós preenchemos com o medo. Não à toa o longa é considerado por muitos como a melhor adaptação do horror lovecraftiano para o cinema, apesar de ele não ser oficialmente baseado na obra de H.P. Lovecraft5. O quartel-general norueguês foi parcialmente consumido por um incêndio; há mesas e cadeiras reviradas por todos os lados; corredores barricados por pilhas de móveis; buracos na estrutura de concreto; um machado coberto de sangue enfiado numa porta; uma espécie de sarcófago feito de gelo – vazio; um homem com a garganta cortada e estalactites de sangue congelado vertendo dos pulsos que ele próprio abriu com a navalha encontrada presa à sua mão, enrijecida pelo frio assim como todo o resto do seu corpo. Do que ele estava fugindo para preferir uma morte horrível daquelas? O que aconteceu naquele lugar? Algo terrível, sem dúvidas, mas sua natureza exata não nos é apresentada e por isso, assim como Copper e MacReady, podemos apenas especular6

A especulação acaba de modo espetacular nos já citados 28 minutos do filme, momento em que o focinho do husky se abre como uma orquídea feita de carne e línguas caninas enquanto tentáculos e patas de insetos irrompem de vários pontos do seu corpo. O alienígena não tem uma forma fixa, ele é um amálgama, uma colagem das criaturas de toda a galáxia que tiveram a infelicidade de cair nas suas garras gosmentas. Se isso soa chocante, talvez seja melhor parar por aqui, porque você ainda não viu nada. 

Algumas cenas depois, um dos personagens aparentemente sofre um infarto e, ao receber massagem cardíaca do doutor Copper, seu peito se abre como uma mandíbula imensa, com dentes e tudo, e arranca os braços do médico a dentadas. A seguir, de dentro do seu tórax salta uma criatura cuja fisionomia escapa aos meus parcos poderes descritivos; basta dizer que ela merece destaque em meio à nojeira deste filme que é pródigo em embrulhar o estômago dos espectadores (no melhor dos sentidos). Finalmente, enquanto MacReady torra a abominação com a ajuda de seu fiel lança-chamas, a cabeça do cidadão se desprende do corpo, arrasta-se para baixo com a ajuda de sua língua quilométrica, faz brotar seis patinhas aracnídeas e seus olhos saltam das órbitas como os de uma lesma. Não é por outra razão que Carpenter foi acusado de ser um “pornógrafo da violência”, de “estar mais apto a dirigir acidentes de trânsito e flagelações em público do que filmes” e de ter feito uma obra “vulgar, niilista e desesperadora”; críticas que estão absolutamente corretas, salvo pelo fato de atribuírem a esses adjetivos um tom depreciativo. Nem todos gostam de ser lembrados de que somos um pedaço de carne feito de vísceras, tendões, fluidos e coisas assim, mas “The Thing” faz isso com tanto estilo que o choque vale a pena. 

Além disso, as cenas escatológicas ajudam a construir um clima de medo, tensão e desconfiança entre os sobreviventes, elementos que são a alma e o tema da história – e que só aumentam a cada nova morte. Conforme a trama avança e os homens já não sabem dizer quem é humano e quem é, bem, outra coisa, instintos violentos afloram e a paranoia toma conta da base, estado de espíritos que certamente não é ajudado pelo fato de que o rádio – única forma de comunicação com o mundo exterior – não funciona em razão do mau tempo. 

Reassistindo ao filme pela quarta ou quinta vez para escrever este texto, tive a nítida impressão de que mesmo as réplicas desconhecem sua verdadeira natureza na maior parte do tempo – isto é, até se transformarem em figuras saídas de um pesadelo do pintor Francis Bacon – o que por si só adiciona uma nova camada de horror existencial à história e eleva o grau de violência da qual a criatura alienígena é capaz. Se isso for, como tudo indica ser, verdade, então a imitação gerada pelo alien vai além de características meramente físicas e também abrange elementos que consideramos irreproduzíveis, como nossa personalidade e nossas memórias. Não é que não podemos confiar nos outros, não podemos sequer confiar em nós mesmos. Niilista e desesperador, de fato.

O roteiro de Bill Lancaster e de Carpenter (este último não creditado) sofreu diversas críticas pela suposta ausência de profundidade dos personagens. É verdade que não temos qualquer informação acerca de suas vidas pregressas – nem uma clássica foto de uma namorada ou um papo emocionalmente carregado sobre as saudades de casa – e de fato há pouca coisa em termos de personalidade. Há apenas o presente e pessoas reagindo a ele, o que cria uma narrativa extremamente dinâmica e fluida. Aqui a máxima de que “personagem é ação” é levada às últimas consequências e funciona perfeitamente. “The Thing” não tenta ser um filme sueco e é impecável naquilo que se propõe a ser.

Apesar de tudo isso, o longa teve uma recepção morna do público e foi destruído pela crítica. Além de um baque emocional do qual levou anos para se recuperar, dado o seu nível de entrega absoluta ao projeto, a performance do filme representou um ponto de inflexão extremamente negativo na carreira de John Carpenter, que até então vivia o auge de sua popularidade e de sua fama. A Universal, produtora e distribuidora de “The Thing”, cortou drasticamente o orçamento do filme seguinte que Carpenter faria para o estúdio, a adaptação do livro “Firestarter”, de Stephen King, o que fez com que ele abandonasse o projeto (que no fim das contas foi feito por Mark L. Lester, diretor de filmes de ação B como “Comando para Matar”) e a perspectiva de realizar outros filmes em parceria com a Universal.

Entretanto, seguindo um roteiro bastante comum para obras visionárias de terror, foi na televisão e com o advento dos VHS que “The Thing” encontrou seu público fiel. Hoje existem sites, bonecos, fóruns, teses acadêmicas, jogos de videogame e até um jogo de tabuleiro (extremamente divertido, recomendo muito) dedicados ou inspirados na obra, que goza de um merecido, ainda que tardio, status de filme cult. John Carpenter conseguiu dar a volta por cima e seguir com sua carreira prolífica e diversificada, que inclui a direção de clássicos como “Christine” (outra adaptação de um livro de Stephen King), o infanto-juvenil e figurinha repetida na Sessão da Tarde “Os Aventureiros do Bairro Proibido” e a mordaz sátira à famigerada era Reagan “Eles Vivem”. Hoje ele segue na ativa, mas tem se dedicado sobretudo à música, uma paixão antiga e cultivada ao longo de toda sua vida também por razões práticas, já que Carpenter compôs a trilha sonora de vários de seus filmes como forma de viabilizá-los economicamente7.

“The Thing” antecipou em alguma medida a histeria e o pânico que explodiriam alguns anos depois com a eclosão da epidemia de AIDS. Sob este prisma, é fácil enxergar diversos paralelos entre a trama (pessoas contaminadas sem que o saibam, exames de sangue para determinar quem está contaminado e quem não está, corpos sofrendo alterações brutais em um curto espaço de tempo, etc.) e a doença em si, mas seria incorreto atribuir ao filme a qualidade de “profético” como o fazem alguns. Um clássico, afinal, é sempre sobre a essência daquilo que nos faz humanos, por isso os clássicos têm esse poder sobrenatural de se manterem atuais independentemente da passagem no tempo. Ou, em alguns casos, ficarem ainda mais atuais conforme o tempo passa – como infelizmente aconteceu com o filme de John Carpenter. 

Se é possível extrair alguma lição do nosso estado atual enquanto humanidade em geral e enquanto país em particular, é a de que nós não conhecemos direito nem as pessoas que considerávamos próximas. Quem aí não ficou chocado em 2018 quando viu uma tia fofinha, dessas que mandam gifs de bom dia pelo Whatsapp, declarar voto no coiso (“The Thing”, coiso, só não vê quem não quer…) e clamar por atos de violência contra grupos que já são sistematicamente submetidos a todo tipo de agressão há séculos? Acrescente a este caldo uma pandemia sem precedentes na era moderna, deixe esfriar e adicione negacionismo a gosto. O apocalipse rende porções para seis a sete bilhões de pessoas. Seria quase reconfortante descobrir que nossos parentes e amigos (ou ex-amigos) foram substituídos por clones alienígenas, mas o verdadeiro horror vem da constatação inescapável de que eles são humanos, demasiadamente humanos, assim como nós. Encontrar uma forma de lidar com esta decepção brutal é um dos grandes desafios do nosso tempo; é o enigma deste mundo.

A questão é que o vírus da Covid, assim como o alienígena de Carpenter, só consegue se espalhar porque encontrou um terreno de desconfiança e medo extremamente propício para tanto. “The Thing” acaba com a base americana indo pelos ares e apenas dois sobreviventes, o próprio MacReady e o outro personagem osso duro de roer do elenco, Childs, sem que nós – ou eles – saibamos se são humanos ou imitações. A despeito disso, enquanto aguardam a inevitável morte por congelamento, os dois ainda dividem um gole da inseparável garrafa de uísque de MacReady. A mensagem talvez seja a de que, independentemente do que acontecer, ser humano significa se abrir e confiar no outro, ignorando os riscos inerentes a esse gesto. Ou talvez seja simplesmente a de que já é tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito além de beber um trago e esperar pelo fim do mundo8.


[1]: A propósito, o lançamento de “E.T: O Extraterrestre” semanas antes de “The Thing” é apontado por muitos como um dos fatores que determinaram a fraca performance do filme de John Carpenter nas bilheterias, tópico que será abordado ao final deste texto.

[2]: Essa revelação, inclusive, é feita já nos primeiros minutos do filme por um dos noruegueses que implora – em seu idioma nativo e sem legenda – aos americanos que se afastem do cachorro para que ele possa matá-lo, mas eles não entendem o que ele diz e por isso ele acaba levando um tiro no olho. A moral da história é: se você tem algo importante a dizer, é melhor fazê-lo em inglês. Ou treinar bem a sua pontaria. Este vídeo legenda as falas do pobre homem e evidencia ainda mais o tamanho da besteira dos americanos: https://www.youtube.com/watch?v=NxREumyGQ_Y.

[3]: Filme que é assistido pela protagonista de “Halloween”, Laurie Strode, em uma das cenas deste outro clássico absoluto do terror de John Carpenter, o que evidencia o interesse antigo do diretor tanto pela obra original quanto pela sua primeira adaptação cinematográfica.

[4]: Não tenho provas, mas tenho convicção de que esta sequência inspirou a cena de “Bacurau” em que dois personagens chegam em uma fazenda e encontram apenas os rastros da destruição provocada pelos gringos. Kléber Mendonça Filho é um fã declarado de John Carpenter e inclusive o homenageou de forma bastante explícita em “Bacurau” ao batizar a escola do povoado de João Carpinteiro.

[5]: Além de uma vibe onipresente do famoso horror cósmico criado por Lovecraft, a trama do filme guarda diversas semelhanças com “At The Mountains of Madness”, novela do autor diretamente referenciada por Carpenter já no título do divertidíssimo longa “In The Mouth of Madness” (“À Beira da Loucura” por aqui), lançado 12 anos após “The Thing”.

[6]: Uma prequel do filme de 2011, também chamada simplesmente de “The Thing” e sem qualquer envolvimento de Carpenter, retrata os eventos que culminaram na destruição da base norueguesa. Ainda não tive estômago para me submeter a essa experiência – seguramente – frustrante.

[7]: A trilha de “The Thing”, em razão de seu orçamento de grande estúdio, foi escrita pelo lendário Ennio Morricone, que criou uma música minimalista e com uso de elementos eletrônicos, muito mais próxima do repertório de Carpenter do que do próprio Morricone.

[8]: O fato de Carpenter considerar “The Thing” como a primeira entrada de uma série de filmes temáticos que ele próprio batizou sugestivamente de “Trilogia do Fim do Mundo” (que também conta com “Príncipe das Trevas” e “À Beira da Loucura”) nos dá uma boa pista sobre a provável visão do diretor sobre esse assunto.

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