branco insuportável

por Gabriel Cruz Lima
ilustração de georgia ayrosa para texto de gabriel cruz lima. folhetim na ordem do dia, capítulo 8

Gabriel Cruz Lima é jornalista pela Faculdade Cásper Líbero e graduando em Letras pela Universidade de São Paulo. É autor de “O Último Romântico” (BAR Editora, 2020). Assim como o São Paulo Futebol Clube, está de volta no coração dos emocionados e a um passo de um título relevante.


Sem mais nem menos minutos, 18:40, Laura buzinava o Versa vermelho, dois toques longos e um curto para Marina cruzar a rua. Lá viria ela com os joelhos de bandaid se adequar ao assento, abraçada à mochila de tigres, as fadas e as duas bolas de leite no lugar de olhos. A volta para casa da mãe era mais tranquila sob o controle do retrovisor virado para a filha. Mas e se chovesse.

Tem dias em que uma gota se soma a outra gota e impede a precisão peculiar. Liga para Filinto e fala de uma certa meia hora além do costume, ou ainda mais. Parece que teve batida, engavetamento, morte, dizem no rádio. Do outro lado da linha, o avô não responde nada, mas Laura antecipa os olhos piscando devagar.

Esse gesto é visto da cabeça e replicado pelos mesmos olhos baços no retrovisor. O espelho virado, a modo de espantar o tédio, escancara a semelhança e afirma o uso, viço da cobra branca. Aprendeu, porque era mandatório, a valorizar a beleza deles, de um tipo novo: daltonismo transgeracional e deletério. 

Ao perceber o riso, Laura se preocupa de supetão com a multa. Quando a virem dessa forma tirando o retrovisor do prumo para se apreciar única, iriam apreender sua carteira, ou coisa pior, acabar com sua reputação, contar para Marina, sua mãe não é nada disso que você pensa. Senhor policial, deixe Laura ver sua filha de novo. E a filha, chorando, diria dela coisas fortes, aos berros os ecos de sacripanta e facínora, adjetivos aprendidos em Piratas do Espaço III, a ameaça azul incolor, ou qualquer outro lugar obscuro. 

Com o tempo, Laura mexe no ar-condicionado e na blusa de seda como quem ordena ao universo o fim das águas de março. Se buzina e acelarador dessem asa pra cobra, muito motorista voltava voando do trabalho. Mas se contém da volúpia de meter marcha no carro ao ligar o rádio. 

Passam pelas ondas sonoras a bondade do avô e a relação do patriarca com as herdeiras. O lápis apontado sem simetria, à faca, era o prenúncio de alguém que, com mãos voluptuosas, tinha tentado ajudar em uma lição de casa da neta e que ele mesmo já não poderia ver. Tentativas, sobretudo, tentativas de meter a mão nas coisas da criança. Quando ela se desfazia de cada memória específica com o giro do botão, as mesmas vozes indistintas causavam um efeito de condensamento da relação neta-filha. Ele quem buscava, dava banho, comida e se arriscava no videogame para, de algum modo, com pretextos sentimentais obscuros, fascinar a menina.

Ela ouve o parabrisa e apreende o som rouco da borracha em contato com a chuva. Diz para si mesma que o tempo não passa, para macerar a irritação do trânsito e, ao mesmo tempo, conservar a imagem da filha. A sensação de ser mãe de uma gênia, ela já contava até 20 em inglês e muito mais, desenhava aviões, bombas, brigas com um realismo impressionante, lia livros enormes dados pelo avô. Quem sabe ela não ficasse também com o escritório, bem lá no futuro, com ainda mais estabilidade, as duas discutindo sobre o verdadeiro conhecimento tributário. E a Pétala Branca colorama tocando a liga-leve vislumbra a estrada. Fluxo corre, Laura chegará na hora certa, sempre na hora certa.

A mão corre de novo ao rádio para aumentar o clima de romance, está na hora de colocar a música. Eu bem que te avisei pra não levar a sério, o nosso caso de amor, eu sempre fui sincero e você sabe muito bem. Eu não te prometi nada. Ela queria que os olhos marejassem, muito mais pela vontade de se sentir no embalo do veludo sonoro do que alguma situação emocional muito específica.

Tão perto que embaça a vista, o sobrado já estava do outro lado da rua. Como as vagas na garagem estavam ocupadas por um jipe militaresco e uma moto de viagem, Laura baliza a roda rente à calçada, você precisa saber da piscina, da margarina interrompido pelo guarda-chuva já aberto em direção à casa. Coloca a bota no asfalto e pé ante pé vai permitindo a surpresa, chegar sem avisar só para buscar a menina e pedir a pizza de aliche com tomate seco favorita deles três, intuito último de macerar o caminho da volta.

Laura tira os sapatos molhados para não espalhar a lama e estragar a surpresa. O trinco da porta se abre direto para sala onde, sem sombra de dúvidas, Marina mostrará as janelinhas em um berro histriônico mamãe.

Ao abrir a porta, Laura se depara com o rosto do seu avô colado ao da filha. O que era de fato aquilo? Um abraço na neta se colocava diante dos olhos, qualquer coisa ruim depois da ideia cândida de ser recebida como novidade. Lajota branca com bota molhada é sinal de vertigem na cabeça. Imagine que ela queria dizer para si mesma que a cena não era tão ruim assim, ou, quem sabe, aconteceu um erro de comunicação. Não perceberam minha chegada. As coisas são assim mesmo, todo mundo erra. Os dois aos beijos no sofá incidem na vista branca uma percepção solapada por outra ideia, a de que não tem erro nenhum, eles sabem precisamente do que se trata.

Ela olha o pulso para conferir se estava tão atrasada a ponto da idade da filha ter atingido o esquecimento materno, ou pior, a ignorância da presença de outra mulher, da camaradagem entre as duas. E vê os dois com o rosto no rosto, fricção a dois milímetros por segundo, a barba dele eriçando a pele dela, o branco dos olhos em chamas afagando e mais.

— Diz pra mim quem é minha menina.

O estômago responde com mariposas. Laura passa a mão na barriga indecisa se é fome ou vômito. O ronco acorda Filinto e Marina do transe.

— Maravilha, vem cá, estamos com saudade da mamãe brincando com a gente, né?

E antes que a outra pudesse redarguir, tratou de tirá-la dos olhos do homem. Segura firme o pulso da criança a ponto de abafar a fricção do tênis contra o assoalho e a chuva ainda mais forte.

Joga a filha carro adentro. Esqueceu a mochila de tigres e fadas.

Filinto está na porta segurando a mala e o guarda-chuva. Na passagem do cabo, Laura sente os dedos amassando sua mão.

— Calma, filha, está tudo bem, não aconteceu nada. Somos todos da família.

Como não aconteceu, tudo aconteceu em algum lugar tão perto e sempre estamos atrasados demais ou cedo demais. A vontade de agarrar e soltar os dedos coaduna com o estranhamento físico daqueles olhos pousados em si.

Hereditário e deletério são os olhos brancos. Fugindo da semelhança entre os dois, Laura volta a cabeça para o verde: quadro atrás do avô, aquela pintura que, se até então soava exótica, ganhava, agora, um contorno monstruoso, um fundo denso com um par de armas amarelas e cacos azuis, e que, junto desses olhos brancos a sua frente e cindidos na sua cara, formavam um mapa confuso de um cenário intangível.

Ela volta os olhos novamente ao homem e se expande corpo acima, com a cabeça pegada na chuva amendoada e cada gota que parte dela mostra sua participação como espectadora de uma sensação de nunca saber de fato, mas de intuir os acontecimentos da casa e família. Dessa distância são tão parecidos em fisionomia os dois, o nariz aquilino, o corpo magro e os mesmos olhos brancos sibilantes a umas gotinhas do fim. 

Da sua transigência nasce um esboço de riso, listagem de coisas não ditas sobre aquele homem. Remói almoços e eleições e a conciliação sob o espúrio dos olhos alvos. Se ela tivesse de alguma forma prendido a rolha do champanhe, recusado o peru, teria sido muito diferente. E não teria também, porque geraria a culpa pela ingratidão com o homem que apontava o lápis da sua filha e se entregava aos carinhos. O agora viria de qualquer forma. Ri com as poças d’água, porque andou de mãos dadas com um sacripanta, um facínora!

A alça fica pendurada para fora do guarda-chuva enquanto ela acena de costas o adeus. Com o choro vedado pelo vidro e pela torrencial, Marina se debate com a fivela do cinto, prevendo as mãos da mãe. Laura arremessa o guarda-chuva e a mochila contra o parabrisas e entra no carro.

Ajeita o espelho para si mesma, repara de novo nos olhos, sorri, abaixa todos os vidros, repousa um pouco a pálpebra e acelera.


Da redação: este é o oitavo de uma série de 16 textos do autor Gabriel Cruz Lima. Daremos uma pausa para o autor respirar um pouco. O folhetim volta no mês de julho, no mês lugar (Aboio) e na mesma hora.

As ilustrações são de Geórgia Ayrosa.

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