Ornato

por Juliane Mena Tôrres
Fotografia: Obras de aterramento na região portuária - Demolição do Morro do Castelo – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

Mineira, natural de Belo Horizonte, Juliane Mena Tôrres é psicanalista e escrevelista. É autora dos livros As fabulosas desmemorices e invencionices de um velho artista (Urutau, 2022), Conta que faz de conta (Ases da Literatura, 2023) e Concavidades (Caravana, 2023).


Naquele ínfimo instante em que me dispôs moldurada sobre a mesa de cabeceira, naquele instante, tremelicoso e arrebatador, soube que era o fim. Não pude menos: afundei meus olhos gritantes sobre o móvel como se buscasse um cílio derriço, sem sorte; entretendo-me por aquela captura tediosa, uma espécie de monólito maciço, duro, revelando o pó da autoestima cansada que me guardava o rosto. Objeto condenatório, pensei, mas não me senti ofendida, e sem ofensa não há crime. 

Afundei os olhos uma segunda vez, em silêncio. Havia em nós uma frieza que eu desconhecia. As pálpebras latejavam pelo ardor açulado da fixidez no olhar, ao passo que os cílios pareciam implorar pela queda, um pequeno suicídio. Cílios inquebráveis, os meus. Nunca vi tamanha resiliência e infortúnio. Ainda assim, algum ato me pedia aquela ocasião. Com os lumes menos rígidos, me dispus a verificar do que se faz um corpo; qual é sua consistência e matéria, como se edifica, se é feito de barro ou se é feito de espuma. Um corpo feito de histórias? Histórias feitas de registros petrificados no tempo da fotografia.

Com ele é incômodo, sem ele é vazio. 

Foi quando senti avizinhar teu disfarce: uma sombra de fumaça se aproximava. Os pequenos estouros vindos dos tragos vulcânicos e cancerígenos informavam a tua chegada. Notava-se o rastro da pólvora, o chão encardido, o ar de tua crueza e tirania, a sentença covarde e solitária de tua língua, o império sem tempo – tácito e vigiado, armado e desamado –, saltado pelo olhar vagante. 

Tua presença, outrora, fora de carne. 

Aproximou-se oco, uma fábrica de pesadelos: as mãos impuras flutuavam em minha direção. Olhava-me exatamente como se olha para uma plantação de trepadeiras, tentando distinguir o que é jiboia daquilo que é pestilência. E uma retirada contundente se fez saber: olhava-me pela danação. 

Era isso ou um culto de amor olvidado, caído pela desgraça da vista desimpedida, moído aos pés da fortaleza murada e cinza, essa que fez dos olhos afetuosos dois ligeiros, dois forasteiros, cheios de pressa e outras vontades, e que passam a repousar atraentes sobre outras rameiras, sobre outras gramaturas. Olhos infames como roedores pestilentos, endiabrados, em busca do queijo fúngico na ratoeira. Regressam, inconsistentes, capoeiras depois, vagueando dormentes e despropositados, quando, subitamente, são convocados pela memória esguia, paralela, paralítica, sem cheiro ou austeridade, que se pousou sobre aquela mancha estoica represada na madeira; aquela que vemos com olhos fracos na fotografia de cabeceira.

Os olhos, quando retornam, evocam um sorriso furioso e uma gagueira repentina ao reivindicar aquilo que vê tardiamente: as rugas do tempo, os vincos e trincos dos afetos estampados em papel e vidro; a pausa e a captura daquilo que se perdeu de vista, que se vedou no preâmbulo e que nunca permitiu sequer começar. 

Afundei, pois, meus olhos, uma terceira vez, entediados pela repetência, anunciando um valor ambíguo para o objeto antes inteiramente condenatório. A solidão pode ser fascinante, pensei. Aqui, as mãos desertoras já não me alcançavam justamente pelo fervor do desgosto e, sem a trama, renunciou também sua fala. Salve a si mesma, considerei no instante em que meus pés se aterraram fundo em repúdio, em gangrena. Com os pés plantados e os olhos afundados, não restava corpo a florir. Senti a dormência tomar conta dos restos, o torpor dos órgãos apressando seu impacto, a carne deteriorada se descosendo… 

Eu sabia! Eu sabia! Era o corpo em processo de embalsamento.


Fotografia: Obras de aterramento na região portuária – Demolição do Morro do Castelo – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

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