Os Catadores e Eu (e Agnès Varda e Jorge Furtado)

por Luis Filipe Caivano
Ilustração de Gabriela Caivano para a crítica "Os Catadores e Eu (e Agnès Varda e Jorge Furtado)", de Luis Filipe Caivano.

Luis Filipe Caivano nasceu em São Paulo, é um pouco mais velho do que gostaria e escreve porque não sabe desenhar. Foi quarto colocado na categoria crônica e finalista na categoria poesia do Prêmio Off Flip de Literatura 2021. Escreve mensalmente para a Aboio.

Gabriela Caivano mora em São Paulo e estuda psicologia. Desenha desde pequena e na pandemia começou a se dedicar mais à ilustração para se distrair do fato de que mora no Brasil.


Os leitores que me acompanham com alguma frequência (recentemente descobri para minha surpresa que eles existem) provavelmente já terão notado um certo padrão nos meus textos – e não me refiro às piadas sem graça ou à revolta impotente e mal elaborada com a situação do país. Estou falando do fato de que todas as minhas “críticas” [1] publicadas até agora pela Aboio (sete sem contar com esta) foram de filmes de ficção em inglês dirigidos por homens cis, heterossexuais e brancos e cujos protagonistas também são – não por coincidência – homens cis, heterossexuais e brancos. Isso não significa que eu assista somente a filmes que tenham este perfil sociodemográfico (apesar de eles ainda infelizmente constituírem o grosso da minha experiência enquanto espectador), mas é certamente um sintoma de questões pessoais e estruturais que merecem alguma reflexão.

Se por um lado eu, enquanto homem cis, heterossexual e branco, provavelmente tenho mais facilidade em me identificar com outros homens igualmente cis, héteros e brancos, também é verdade que os filmes produzidos por pessoas com este perfil receberam historicamente – e ainda recebem – uma quantidade desproporcional de recursos e, portanto, de visibilidade. Colocando em outras palavras, até para tentar pegar o jeito da coisa, as sete “críticas” anteriores foram escritas de dentro do calor e da segurança da minha zona de conforto. Estando preparado para sair ou não, o fato é que já passou da hora de trazer visões um pouco fora deste padrão. Assim, o texto deste mês é sobre o documentário “Os Catadores e Eu”, de Agnès Varda (2000), que, apesar de ser heterossexual e branca, é mulher e francesa. Já é um grande avanço.

Única mulher entre os lendários diretores da Nouvelle Vague francesa, Varda vivenciou e documentou em primeira mão a efervescente década de 60 na França e no mundo. Políticos, mas nunca panfletários, seus filmes documentais e ficcionais (separação que ela própria rejeitava) tinham em geral como protagonistas pessoas marginalizadas e destituídas de poder. Ainda que alguns deles abordem mais diretamente a questão da mulher na sociedade, o que harmonizaria melhor com os parágrafos acima, escolhi “Os Catadores e Eu” por algumas razões. 

Esta postura de “não querer espiar, mas de querer ser amiga” das pessoas que filma permite que Varda estabeleça com elas conexões rápidas e honestas que dão ao filme uma dimensão verdadeiramente humana.

A primeira, sendo totalmente honesto, é que senti vontade de escrever sobre o filme antes mesmo de pensar sobre o conteúdo do texto. Mas, como sempre tive mais sorte do que juízo, após começar a escrever, percebi que minha escolha na verdade condizia perfeitamente com a introdução deste texto. Isso porque o fato de ser mulher (e francesa e heterossexual) não determina, mas atravessa todas as esferas da vida e do trabalho de Varda, seja numa ficção sobre uma cantora que espera o resultado de uma biópsia, seja num curta sobre a revolução cubana, seja num documentário sobre catadores. Parafraseando a própria, um fazendeiro não precisa apenas falar sobre ser um fazendeiro, um operário não precisa apenas falar sobre ser um operário e uma mulher, evidentemente, não precisa falar apenas sobre ser mulher.

O que me atraiu logo de cara em “Os Catadores e Eu” foi a postura quase infantil [2] de Varda com a câmera na mão. A alegria, a ternura e o frescor do olhar da diretora transparecem em cada cena do documentário, das conversas com os entrevistados às tentativas de “capturar” os caminhões da estrada com os dedos. A edição do filme também reproduz o que só consigo definir como o olhar de uma criança curiosa que se maravilha com tudo o que encontra pelo caminho. Objetos, pessoas e situações que a maior parte de nós não pararia para olhar uma segunda vez são tratados por Varda como as maravilhas que de fato são, porque tudo o que existe tem uma história por trás, e todas as histórias merecem ser contadas. O que em outro contexto seria ausência de foco é, em “Os Catadores e Eu”, o próprio tema do documentário, posto que a diretora é ela própria uma catadora, abaixando-se para pegar as coisas que ficam pelo caminho de uma colheita, de uma sociedade, de uma vida.   

Esta postura de “não querer espiar, mas de querer ser amiga” das pessoas que filma permite que Varda estabeleça com elas conexões rápidas e honestas que dão ao filme uma dimensão verdadeiramente humana. Pra mim foi difícil não compará-lo o tempo todo com o célebre curta “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado (1989). A semelhança mais direta entre as obras, e que me pegou em primeiro lugar, é o fato de que o tema de catar coisas do lixo é estruturante em ambas [3] – as imagens de mulheres e crianças pegando restos da comida dos porcos me marcaram profundamente quando assisti ao curta pela primeira vez na escola. Contudo, após pesquisar um pouco sobre o curta brasileiro e o longa francês, me dei conta de que as semelhanças são apenas superficiais e que entre um filme e outro existe um abismo profundo.

Antes de qualquer outra coisa, é importante deixar claro que “Ilha das Flores” nunca pretendeu ser um documentário no sentido estrito, e isso fica claro não apenas na linguagem, mas também nos créditos do curta [4]. A despeito disso, as pessoas e os locais retratados foram profundamente impactados pelo lançamento do filme e até hoje se mostram ressentidas pelo tratamento que receberam de Furtado e de sua equipe [5]. Há quem diga que a revolta dessas pessoas é mal direcionada, uma vez que ela é dirigida contra quem mostrou (com certos exageros, é verdade) as condições degradantes às quais elas estão submetidas, e não contra as pessoas e o sistema que as colocou ali em primeiro lugar. O fato, porém, é que muitos dos homens, mulheres e crianças que fizeram “Ilha das Flores” se sentiram usados e desrespeitados pela produção. Houve, no mínimo, uma grave falha de comunicação entre as partes envolvidas.

Talvez até como forma de amenizar esta situação, em 2004 (ou seja, 15 anos após o curta) Jorge Furtado voltou à Ilha dos Marinheiros (nome real do local onde o curta foi filmado) para documentar a construção de uma quadra poliesportiva feita com parte do orçamento que o diretor recebeu do Banco do Brasil para fazer uma propaganda de três minutos sobre o tema “fraternidade” [6]. Em certo momento do comercial, o próprio Furtado assume sem remorsos acreditar que “Ilha das Flores” ajudou pouco as pessoas que moram na Ilha. “Não sei, nunca mais voltei lá”, admite o diretor gaúcho.

[…] enxergar o todo naquilo que a sociedade qualifica como resto requer um certo olhar, uma certa postura, digamos, vardiana.

Em contrapartida, em 2002, dois anos após “Os Catadores e Eu”, Varda filmou o apropriadamente nomeado “Os Catadores e Eu: Dois Anos Depois”. Na atípica sequência, a diretora conversa com pessoas que foram afetadas pelo primeiro filme, tanto na qualidade de espectadores quanto na de participantes. Com o mesmo cuidado do primeiro filme, Varda retraça seus próprios passos e reencontra pessoas que, graças a ela, tornaram-se quase celebridades do dia para a noite, ao menos dentro do microcosmo de cinéfilos franceses. Contagiado pela ternura de Varda, fiquei verdadeiramente feliz em ver que alguns dos entrevistados do primeiro filme, se não deram exatamente a volta por cima, ao menos estavam em um lugar melhor dois anos depois. Mesmo aqueles que estavam na mesma ou até piores do que antes tratam a diretora com os mesmos respeito e afeto que dela recebem.

À pergunta feita por Varda no início de “Os Catadores e Eu: Dois Anos Depois”, “qual é o efeito de um filme?”, podemos responder com segurança que, no caso de “Os Catadores e Eu”, o efeito é positivo. Pode-se dizer o mesmo de “Ilha das Flores”? Depende de quem estamos falando. Por um lado, o curta viajou o mundo e retrata de forma brutal a questão da desigualdade no Brasil. Se o local não era exatamente a Ilha das Flores, e se as pessoas que ali vivem não precisavam literalmente lutar com os porcos pela comida, o resto, citando o próprio filme, é verdade.

Acontece que o resto, na verdade, é composto daqueles que já são habitualmente tratados como sobras – e enxergar o todo naquilo que a sociedade qualifica como resto requer um certo olhar, uma certa postura, digamos, vardiana. Parando para pensar, a frustração destas pessoas pode ter vindo justamente de uma quebra de expectativas. Quem sabe o que elas sentiram ao serem convidadas para participar de um filme? Provavelmente esperavam ser tratadas com alguma dignidade, serem mostradas de uma forma humanizada, para variar. A câmera tem dessas promessas.  


[1] Escrevo “críticas” entre aspas porque para mim estes textos são mais crônicas ou ensaios-mirim do que qualquer outra coisa. Na intimidade as chamo de “croníticas”. Grato pela atenção.

[2] A postura de Varda me lembrou do seguinte trecho do livro “JGR: Metafísica do Grande Sertão”, de Francis Utéza: “[Guimarães] Rosa subentendia que, se a criança é inocente por natureza, o sábio atinge este nível graças à progressão espiritual”.  

[3] No caso de “Os Catadores e Eu”, ainda que “catadores” também indique pessoas que pegam coisas do lixo, o termo é usado de forma muito mais ampla e poética. 

[4] Apesar de começar com o aviso “este não é um filme de ficção”, o curta faz um jogo ambíguo entre realidade e ficção que é bastante interessante mas que, justamente por ser atípico, pode acabar passando batido para alguns.

[5] Alunos de jornalismo da PUCRS fizeram em 2011 uma reportagem que evidencia os impactos do curta de Furtado na comunidade. Alguns dos moradores da Ilha foram discriminados e tratados como “comedores de lixo”, inclusive chegando a perder seus empregos, mas o maior estrago foi no emocional e no senso de dignidade destas pessoas. A reportagem pode ser assistida neste link:  https://www.youtube.com/watch?v=Ch-LIsnG9Wc

[6] A propaganda intitulada “Fraternidade” também está disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=q3kw0Z_rJbw


Ilustração de Gabriela Caivano.

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