Os sentidos

por Cintia Brasileiro
Fotografia: Bifurcação entre as estradas da Posse e de Palmares - Augusto Malta/Acervo Instituto Moreira Salles.

Cintia Brasileiro nasceu no interior de Minas Gerais. Mora em Araçatuba/SP, é redatora publicitária e mediadora de leitura. Pesquisa literatura feminina brasileira desde 2011. Lançou de forma independente seu primeiro livro infantil, Versinhos Doces, em outubro de 2021. Acredita que os livros e a escrita libertam.


Ouvi um choro fraco vindo da boca de lobo. Ela era careca, tinha cílios pretos longos, estava toda suja e era meio desengonçada. Tive que puxá-la pelo braço, o buraco era estreito, ela parou de chorar e saí com a pequena no colo. Em casa, peguei a bacia de alumínio embaixo do tanque, tirei sua roupinha encardida e, com muito cuidado, dei-lhe um banho de caneca. Morno, é claro! Escolhi para ela um vestido (com cheiro de talco) que mamãe guardava no fundo da gaveta da cômoda. A troquei em cima da bicama. Depois, escovei os dois dentinhos da frente, estavam bem amarelados. Pedi um laço e um sapatinho de lã para minha irmã caçula; trocar e destrocar coisas era nosso passatempo favorito. No final da tarde, quando a bebê estava toda arrumadinha, dei-lhe um nome, Duda. A coloquei no carrinho e fomos dar um passeio pelo quarteirão. Encontrei mamãe voltando do trabalho na rua Três e ela nos fez retornar para casa. Mal entramos, a vizinha e sua filha vieram também. Dona Lourdes queria encomendar um bolo de aniversário para o filho mais velho. Durante a semana, mamãe trabalhava na fábrica de bolas; aos sábados, ela confeitava bolos para festas. Os melhores do mundo! Na cozinha, mamãe anotava o sabor e a data no caderninho quando a confusão começou. Dayene, a filha da vizinha, queria porque queria tomar a Duda de mim. É minha! Ela é minha! Me devolve! Aos berros, ela tentava tomar a Duda de mim, mas… Achado não é roubado! E eu achei a boneca (abandonada) na boca de lobo da rua Dois. Lourdes só olhou para minha mãe. Em silêncio, mamãe me lançou só UMA ordem. Dayene apertou o peito da boneca. Duda chorou. Não tive tempo de devolver os acessórios da minha irmã, nem de me despedir da minha filha. Não chorei, 

mas no meu peito
[apertado]
surgiu um buraco.


Fotografia: Bifurcação entre as estradas da Posse e de Palmares – Augusto Malta/Acervo Instituto Moreira Salles.

1 Comment

  1. Mãe,querendo acertar erra,machuca e não percebe,mas e a outra menina? Era mesmo dona da boneca? …
    Fiquei curiosa.

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