palavras cruzadas

por Luis Filipe Caivano
banquinha com revistas variadas. os títulos são indecifráveis

Luis Filipe Caivano nasceu em São Paulo, é um pouco mais velho do que gostaria e escreve porque não sabe desenhar.


“Primeira vértebra da cervical”, cinco letras, sendo a primeira o “A” de chinchila – “pequeno roedor andino” -, que desce por uma coluna no meio da página e descansa as patinhas sobre a vértebra em questão, vulgo A _ _ _ _. Abona. Abina. Abena. Instintivamente levo a mão ao meu próprio pescoço, ao osso de nome desconhecido, ao leve mas persistente incômodo que vem atrapalhando meu sono nos últimos meses, impedindo-me de encontrar uma posição confortável no travesseiro. Qual é o seu nome?, indagam as pontas dos meus dedos, e a resposta é apenas uma pontada aguda que, assim como a chinchila, escorrega coluna abaixo, a minha, no caso. Arcia. Atola. Ajuna.

Não sabia que vértebras tinham nome, mas a descoberta não me surpreende. É da natureza humana batizar, catalogar, colocar em caixinhas etiquetadas tudo o que vemos pela frente, como se isso nos desse algum tipo de controle sobre o caos do universo. “Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem”, já diria Drummond (“poeta brasileiro nascido em Itabira”). Tudo bem que Deus incumbiu Adão de nomear todos os animais do campo e todas as aves do céu, mas, salvo melhor catecismo, não me lembro d’Ele estendendo a prerrogativa a toda e qualquer miudeza da Criação. Desconfio que a taxonomia tenha se tornado mais um exercício de vaidade do que um trabalho útil ao progresso científico. Não me causará espanto se essa primeira vértebra da cervical tiver um nome próprio, o sobrenome do médico, do cientista ou do açougueiro que vislumbrou na junção da cabeça com o pescoço um espacinho para se enfiar na posteridade. Allia. Almea. Albea.

Paralelamente à (ainda) inominada vértebra, o rio Purus – “afluente do Amazonas” – segue seu implacável curso sem nem reduzir a velocidade para apreciar as loas  – “poemas líricos” (um clássico das palavras cruzadas) – que o margeiam, e deságua na “cidade bíblica destruída juntamente com Gomorra”. Conexão Brasil – Sodoma. Um sutil comentário sobre atual estado das coisas no país? Provavelmente apenas uma coincidência (“tema da sincronicidade de Jung”, lá no topo da página), as revistas de passatempo contemporâneas devem ser todas produto de softwares desenvolvidos por adolescentes cheios de espinha e com conhecimentos básicos de programação. Não tenho provas, mas tenho convicção de que outrora conceber uma cruzada era um gesto de amor ao vernáculo perpetrado com carinho e paciência por enigmatistas (“pessoa que faz ou decifra enigmas”) que aproveitavam o ensejo para incluir mensagens subliminares no aparente caos que resulta do cruzamento entre linhas e colunas, entre verbos, substantivos, adjetivos e siglas (estas últimas sempre me pareceram uma forma pobre de se preencher os espaços que vez ou outra sobram entre palavras maiores).

Apota. Aroma. Abila. Eu costumava ser bom nisso. Será que é a maconha? Minha vó ficaria envergonhada (não tanto pela maconha quanto por ver seu pupilo sucumbir diante de uma mísera cruzada de nível difícil – ela só vê graça da “quebra-cuca” pra cima). Com um pequeno choque meu A _ _ _ _ flagra e condena o movimento de cabeça dissimulado do qual me valho para passar acidentalmente os olhos pelo banco de palavras. Graviola? Ah, sim. “Fruta agridoce cultivada no Nordeste”. Além da graviola o banco me oferece “erro”, “voga” e “ida”, todas devidamente encaixadas em seus respectivos espaços. Aparentemente o meu crédito é insuficiente para o auxílio pleiteado. Bancos, afinal, são bancos, seja nas cruzadas, seja na vida em geral. Resta apenas bater em retirada e conferir a solução ao final da revista. Não há por que continuar sofrendo por tão pouco. É só um passatempo idiota, uma distração barata impressa num papel de jornal vagabundo que a tinta da caneta constantemente atravessa e às vezes até rasga. A ideia é ter alguns minutos de descanso da loucura do mundo, esquecer da morte, da pandemia, do desemprego, de que eu sou brasileiro. É uma coisa trivial, mais até, banal, é a única coisa em que eu achei que eu era bom e ainda assim eu também fracassei. Nessa altura da vida eu já deveria ser um “modelo bíblico de resignação”, como Jó, mas eu insisto em perder como se estivesse habituado a vencer. Alina. Alona. Ah, foda-se.

Tomado pela frustração torço a revista para a seção das respostas, fazendo questão de rasgar a ponta de algumas páginas no processo só para não passar a impressão de que há qualquer elegância ou grandeza no reconhecimento da derrota. Confirmo os acertos e ainda hesito um momento antes de finalmente descobrir como se chama a maldita, a cretina, a infame primeira vértebra da cervical que nem deve ser tão relevante assim dentro da anatomia humana.

A_ _ _ _

A t l a s

Atlas.

Deixo meus olhos repousarem sobre a palavra por alguns instantes enquanto meu cérebro processa a resposta. Atlas. Sem que eu perceba de imediato ou dê o comando para tanto, minhas mãos voltam a revista algumas páginas e grafam as quatro letras faltantes, concluindo o passatempo. Atlas. O gigante da mitologia grega condenado a carregar a Terra nas costas por toda a eternidade. Atlas. A primeira vértebra da cervical, condenada a carregar a cabeça humana por uns 80 anos, se tudo certo. O nome é brilhante, é genial, é perfeito. A pessoa que teve essa sacada e todas as suas gerações vindouras merecem ser sustentadas por um fundo internacional bilionário constituído com este exclusivo propósito. Meus dedos voltam a procurar a primeira vértebra da minha cervical, digo, o meu atlas, não como quem indaga algo, mas com reverência quase religiosa, receosos de perturbar o equilíbrio do Cosmos. Hoje acordei com dor no pescoço e agora, horas depois, descubro que eu na verdade sofro de dor no atlas. A diferença é a que existe entre um desconforto comum e o padecimento de um titã mitológico em cujos ombros (e cervical) repousa o destino da vida no universo. Pasmo diante – diante não, sob – o poder das palavras. Julieta que me perdoe, mas há muita coisa num simples nome. É esse o tipo de emoção que desconhecem os pobres adeptos do sudoku.


Foto de Luísa Machado.

3 Comments

  1. texto sensacional. Adorei

  2. Oi Felipe,
    Sensacional a sua crônica. Parabéns.
    Abraços,
    Raul

  3. Você É brilhante ( e não é só a sua mãe que acha). Bjs

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