Pepinos, ariranhas e mulheres grávidas

por Bruno Coelho
Fotografia: Vista de campo – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

(4 anos e um mês antes da bomba)

Bruno Coelho escreve há uns três anos e em 2021 publicou seu primeiro romance, Alagoas Azul (Editora Reformatório) que foi o ganhador do concurso Caio Fernando Abreu do Festival Mix Literário de 2020. Seu segundo romance Coisas óbvias (Editora Ipêamarelo) foi publicado em 2023. É de Porto Alegre, tem 32 anos, reside em Santos e estuda TI. Ama filmes e, por desfortúnio, é licenciado em filosofia.


A primeira coisa que o sol iluminará hoje é uma silhueta grávida. Ela estará vagando no meio da plantação ilegal de pepinos de Guacira Leocádia, fazendeira caolha. A grávida virá de procedência duvidosa. Guacira não saberá da veracidade de suas palavras e atos. No entanto, Guacira a acolherá. A figura da grávida, nas primeiras horas da manhã, tropeçando por sobre os fios e arames de sustentação das plantas, despertará as memórias de Guacira como o susto de uma batida de carro. A forma oblíqua a levará à forma aquosa — o vivo pelo morto. O motivo de Guacira se compadecer será por causa de que se lembrará da vez em que abortou, em anos passados. O choque se potencializará pelo estômago vazio e o medo de ser presa. As duas iniciarão o estranhamento. Começarão pelos movimentos circulares com os pés. Em seguida, passarão às vozes em gagueira. De um lado, o medo, de outro, a tentativa de compreensão. Quando os três corações ali presentes voltarem ao ritmo de desencanto, os pepinos exalarão a química necessária para a compaixão. E, como num sonho, o tempo parará. Estarão fora do fluxo, longe. É a hora de segredar. As duas conversarão sobre a gravidez. A grávida não revelará porque foge. Guacira não insistirá em saber e dirá que pode confiar nela. A grávida chorará primeiro. E depois Guacira. As duas chorarão juntas, mas Guacira correrá lágrimas de um olho só. As duas entrarão em casa e a grávida dirá seu nome completo — Greta Guajuvira. As duas, com seus corpos, se tornarão três. Guacira Leocádia, fazendeira caolha. Greta Guajuvira, grávida. GLGG, apêndice. Guacira oferecerá suco a Greta. Esta, sem saber o que está tomando, perguntará o que é. Guacirá dirá que é suco de pepino. Greta repetirá baixinho o nome do fruto. As duas se olharão. Greta se surpreenderá com a primeira bebida do dia, pois ela, como quase toda a população ocidental, nunca experimentou pepino. Pepino, repetirá baixinho. Não terá medo de ser presa?, pensará. A grávida se levantará assustada. Pedirá para usar o banheiro. Guacira o mostrará onde é. Lá dentro, olhando o espelho e as paredes verdes, Greta se sentirá apertada, afoita por ter tido a estúpida ideia de ir até o fim do mundo sozinha e ter parado numa plantação de pepinos. Mas eu não sei como cheguei aqui, lembrará. Ao sair do banheiro, encontrará a mesa do café-da-manhã posta. Pão e pepino. Água aromatizada com pepino. Mel e patê de pepino. Torta de banana e pepino. Vela com essência de pepino. Evidências de desordem meliante. O crime à sua cara a assombrará até o fim de sua estadia. A ilegalidade em cada pormenor da residência será o início de outra crise na vida de Greta. Uma crise deflagrada pela ausência de repertório perante o desconhecido. Nunca em sua vida viu algo igual. E nem verá. Não entrará para o crime. Mas confidenciará a seu filho sobre a vez em que esteve numa plantação ilegal de pepinos. Tendo passado o medo sobre as germinações de além-da-janela, Greta aceitará o momento. Não sou bandida, dirá a si mesma. Ela sentará em uma cadeira na sala e diante da fazendeira perceberá algo. O segundo estranhamento de Greta será a voz de Guacira. A fazendeira cresceu com preguiça de falar e todas as suas palavras oxidam assim que sai de sua boca, o choque com o ar as desfaz. No entanto, as correntes de ar continuarão inalteradas e indiferentes apesar do esforço de Guacira para ser entendida. Guacira questionará o quanto. 35 semanas, responderá a grávida, depois de pensar bastante. As mãos de uma, sem se darem conta, imitarão as mãos da outra. O primeiro dia das duas juntas será de cumplicidade. Guacira deixará Greta ficar e, em troca, pedirá que não fale a ninguém sobre ela ou a plantação. A outra dirá o mesmo. Farão almoço juntas. Tomarão o café da tarde juntas. Que fará ela além de cuidar da casa?, correrá à mente da grávida. Não vê ninguém e vive sozinha assim… ela seguirá pensando. À noite, Greta não deixará de se preocupar. Guacira a confortará da solidão das duas. Ninguém vem aqui?, duvidará a grávida. Guacira negará. Na primeira noite, Greta não sentirá nada. Tendo posto Greta para dormir, Guacira irá até a plantação de pepinos repor os fios que a grávida derrubara pela manhã. Ela estará de joelhos no chão, cavocando a terra, quando seu coração pesar. O escoamento do sangue nas veias a fará suspeitar que a criança de Greta é especial. Do sangue fino, uma crença surge. 

No dia seguinte, o sol iluminará duas silhuetas grávidas na fazenda ilegal de pepinos de Guacira. O movimento irregular da normalidade atrairá as ariranhas. Em breve, a casa estará cercada delas. Seus calcanhares e guinchos serão escutados da cumeeira. Ninguém sabe ainda, mas as recém-chegadas parturientes comerão seus miúdos, quando a hora chegar. Assim como Greta, Graça Cora e Geodésia Bauxita também não saberão como se embrenharam nas terras cultivadas de Guacira. Estarão atordoadas pela exaustão. As roupas, em recortes. Guacira e Greta as encontrarão se arrastando sem forças, quase caindo. Com muito esforço as colocarão para dentro de casa. As porão no sofá e na poltrona da sala. As quatro, com seus corpos, se tornarão seis. Guacira Leocádia, desconfiada. Greta Guajuvira, lisérgica. GLGG, ariranhaforme. Graça Cora, desconhecida. Geodésia Bauxita, desconhecida. GLGGGLGGGCGB, massa espezinhada. Guacira e Greta discutirão a manhã inteira o que fazer. Não podemos viver só de pepinos, dirá a grávida. E se precisarmos de… ajuda?, perguntará. A fazendeira escutará e, com relutância, anuirá. Guacira dirá que conhece alguém. Por fim, deixará as duas grávidas sob os cuidados de Greta enquanto for à cidade comprar comida como também suprimentos pré e pós-natal. Greta e Guacira trocarão olhares. Da soleira de entrada, a grávida verá a camionete verde riscar a estrada de terra, levantando poeira. De trás do volante, a fazendeira emudecerá as vozes de dentro com a imagem da casa diminuindo no retrovisor. A ida à cidade sempre será um pesadelo. Como de costume, nos arredores do povoado, Guacira rezará para não ser atingida por um drone. Sairá incólume da encruzilhada que liga o interior ao Inferno. Suas mãos tremerão. Na casa, Greta afastará as moscas do rosto das recém-chegadas. Na estrada, Guacira encontrará as tropas paramilitares marchando no acostamento. Os coturnos estremecerão o asfalto. Greta porá a bochecha contra a testa das outras grávidas. Não haverá febre. Guacira, de trás do volante, observará o brilho do ódio no suor empapado dos meninos fascistas. Greta servirá suco de pepino, esperando as duas despertarem. Estão adormecidas, torpes. Sentirá vontade de furtar um item possível do bolso de alguma das duas. Tão logo desistirá da ideia, assim que Graça Cora piscar a pálpebra e sua barriga tremer. Geodésia Bauxita permanecerá imóvel, em posição de ângulo gracioso. Não fosse as duas grávidas recém-surgidas e quase-cadavéricas, Greta já teria ido embora. Aproximando-se da rua principal, Guacira suspirará. Em breve, entrará numa farmácia e será testemunha de um assassinato. Orquestrado pela polícia, sussurrará uma voz que sai do beco aos fundos. No sinal, enquanto os carros não se mexem, Guacira contará a si mesma, em imagens recriadas, o desenrolar de sua gravidez indesejada até a sua interrupção. Greta abrirá gavetas. Guacira contará quantos carros têm rodas tortas. Greta passará a mão pelos vestidos guardados, empoeirados. Guacira dará o dedo do meio às crianças no bagageiro do carro em frente. As moscas que agora remexem a pele das grávidas em repouso na sua sala sofrerão a mutação genética que dará início ao desencadeamento de uma nova espécie de moscas. As moscas testa-de-ferro. Nem todos os animais sofrerão alteração. Mas isso não é dizer que a vida alcançará estase. As relações macroscópicas que normalmente ocorrem dentro de um período ínfimo sofrerão a inversão diametralmente oposta. A comunicação orgânica dos microcosmos terrenos se dará pela eternidade. O pequeno será ínfimo. O grande será infinito. O múltiplo será laranja. Cinzas de cigarro deixarão de se associar pelo peso do tabaco queimado. As regras de preguiça dos objetos não se responsabilizarão mais. No entanto, uma única exceção ainda se fará. O pepino continuará sendo ilegal. 

Recuo da imagem. Pisca. Quadriculado. do not engage, over. As granulações cedem e concorrem com o contraste. Falatório inglês no fundo da sala. Cheiro de ar-condicionado militar. Roupas em escala de cinza. Bipe. Café preto. Alguém abre a porta. A luz reflete na tela grande. close that fucking door, alright? Recuo da imagem. Guacira, dedo médio em riste. Recuo da imagem. Fila de carros. nothing to see here, go to Buriti Pequeno. A máquina irá. Guacira não verá o drone. Nem saberá de sua existência. A tecnologia que cruza os céus será teleguiada por mãos estadunidenses, um coração bitolado e miolos mexidos. O típico norte-americano médio. O capitalismo realista não será capaz de dar forças a este autor para matá-lo, infelizmente. Tudo o que posso fazer é falar sobre ele. Ele estará situado a aproximadamente 7.000 quilômetros de Guacira. Transará mal. Ficará calvo antes dos 30. Acreditará não apenas na subserviência ao seu deus cristão e aos Estados Unidos da América como também acreditará que as duas são coisas distintas. Cumprirá ordens durante a guerra com galanteio. Será traído e saberá. Não fará nada sobre isso. Terá muitos sonhos com objetos fálicos como rifles, bazucas e fórceps. Chorará em média 109 vezes ao ano, secretamente, em seu gabinete pessoal ou no banheiro de Guantánamo. Mas morrerá de velhice. E nunca mais verá o rosto de Guacira. Assim que colocar a face no travesseiro ao fim do dia, o operador de drone terá esquecido dela para sempre. Guacira, no entanto, tremerá do calafrio que lhe corre toda vez que descer até o povoado. O último pensamento de sua vida será decorrente desta assombração. O invisível também é concreto. As crianças no bagageiro do carro da frente, ao crescerem, não chegarão perto de tal metafísica. Se surpreenderão, no máximo, com o corte de cabelo da vizinha pelada que cada um terá em seu respectivo condomínio. E só. Se afugentarão em suas redes sociais de preferência e morrerão com os efeitos secundários da bomba. Elas, assim como o operador de drone a 7000 quilômetros de distância, quando puserem seus dóceis rostos no travesseiro à noite, esquecerão de Guacira para sempre. Mas Guacira não esquecerá. Se lembrará delas toda vez que descer ao povoado e não as encontrar uma segunda vez. Pensará se foram embora ou não. De fato, logo mais irão. Guacira abaixará a mão. Ela se concentrará no trânsito outra vez e seguirá rumo à farmácia. Não haverá nada fora do normal, exceto o influencer na quina da esquina. Um menino mirrado, de tez interrogativa. Estará fazendo uma selfie, um vídeo, no qual, aos 54 segundos, ao fundo da imagem, veremos Guacira subindo a rampa em direção à farmácia. O título do vídeo, se fosse colocado na internet, seria: 🚨🚨🚨Visitei a cidade onde encontraram o corpo do médico na lagoa!!!!1 Babado BRABOOO🚨🚨🚨 Guacira escutará restos de frases ao passar por trás dele. …eram amantes!! …ninguém sabia!! … por ciúmes!! Sem ver por onde anda, o influencer atravessará a rua. Seu corpo se encontrará com uma carreta. E sua coluna vertebral se deslocará para além do ponto saudável. O celular será destruído no impacto. Guacira verá tudo. Após testemunhar o assassinato na frente da farmácia, Guacira pensará em outra forma de ajudar as grávidas deixadas em sua casa. As gêmeas Abya e Yala, que moram do outro lado do povoado e sabem o que fazer, já a aguardam. A estarão esperando desde ontem. Guacira nem precisará dizer uma palavra sequer. As duas subirão na sua camionete e partirão para a fazenda. As três, com seus corpos, se tornarão quatro. Guacira, espionada. Abya, lesionada. Yala, sequelada. GAY, em trânsito do silêncio para o absurdo.

A falta de surpresa de Abya e Yala surpreenderá Guacira. O quebra-cabeças: Graça Cora com um sorriso vermelho, mãos ensanguentadas, Geodésia Bauxita vomitando miúdos, ariranhas despedaçadas pela plantação de pepinos, Greta chorando. Guacira correrá até Greta. Abya e Yala se dirigirão a Geodésia e Graça. As gêmeas tomarão a mão das últimas duas grávidas e as afastarão para longe dos corpos das ariranhas. Guacira e Greta observarão. As gêmeas se aproximarão do ouvido das grávidas e cochicharão algo nele. Após as instruções, as duas grávidas e as gêmeas entrarão em casa. De lá, sairão apenas Abya e Yala. Elas virão até Guacira e Greta para mais instruções. É hora de enterrá-las, dirão. O quê?, perguntará Greta. Elas, responderão e voltarão para dentro. Elas querem que nós enterremos as ariranhas sozinhas?, perguntará Greta. Guacira anuirá. As duas abrirão a terra. Sentirão os odores de outro patamar geológico e a fadiga se abaterá. Elas estavam dormindo, Greta contará. Estavam dormindo quando começou um barulho, continuará. Como um barulho de alguma coisa sendo roída, e aos poucos foi aumentando, e quando eu olhei para fora vi aqueles olhinhos me olhando, milhares deles, e foi aí que elas acordaram e sem pensar duas vezes saíram de casa e… e… começaram a comer as ariranhas sem dó, apenas… tiravam pedaços delas… eu não entendo, não entendo, Greta confidenciará. Guacira escutará e abraçará Greta. Respirarão e continuarão a cavar. Conforme adentram a terra, suas vidas se tornarão mais opacas. Seus símbolos culturais e artefatos antropológicos não mais caberão em conceitos. Devido a experiência de vigor com o absurdo suas membranas plasmáticas se dissolverão em uma nova ideologia. Aos sentidos, uma nova forma de totalitarismo. O feixe de todas as concepções. A vida real não existe. Greta e Guacira, do fundo da cova comum, se olharão e entenderão a mesma mensagem. A vida real não existe. Mas uma gota de dúvida permanecerá no coração de Guacira. É ao bebê de Greta que ela se refere. Quando nascer será o quê? Terá futuro? Será mesmo especial? Essas palavras nunca sairão da boca de Guacira por causa da preguiça de falar que a fazendeira tem. As duas pararão para tomar suco de pepino e descansar. Encontrarão a casa em silêncio. Abya e Yala estarão fazendo algo com Graça Cora e Geodésia Bauxita na sala. Greta e Guacira não conseguirão ver o quê. Após descansarem, as duas catarão os restos de ariranha espalhados pela plantação de pepinos e os jogarão na cova. Suas mãos ficarão vermelhas de sangue. Seus olhos ficarão vermelhos de nojo. Ao pôr do sol, Greta e Guacira entrarão na sala. As gêmeas estarão segurando as mãos de Graça Cora e Geodésia Bauxita. Greta e Guacira prepararão o jantar para todas. O principal prato da noite será abóbora e ovos com pepino e canela. Todas jantarão sem palavras trocadas visto a fadiga das grávidas recém-chegadas. Greta se incomodará pelos talheres serem a principal fonte de som da refeição. Após terminarem, o silêncio continuará. As gêmeas dormirão na sala junto com Graça Cora e Geodésia Bauxita. Guacira e Greta dormirão na mesma cama. Seus cabelos se entrelaçarão e seus segredos voltarão à superfície. Suas vidas se tornarão ainda mais opaca. Por algumas horas não dormirão. Quem são elas?, Greta perguntará. Guacira responderá que as gêmeas são doulas, as melhores que já conheceu. Elas são estranhas e olham de um jeito estranho, Greta pensará em voz alta. Na cama, suas mãos se tocarão. Guacira acariciará a barriga de Greta. Seus cabelos estarão encaracolados um no outro. Eu não gosto delas, dirá a grávida. Guacira dirá que não há com o que se preocupar, elas sabem o que fazer, sempre souberam e seu jeito de ser é assim mesmo, distante e ilógico, apenas confie nelas. Na segunda noite, Greta sentirá a vibração dos pensamentos de seu filho. Guacira porá sua cabeça na barriga de Greta para escutar os batimentos do bebê. Será a última vez que ela ouvirá os sons internos da grávida. A memória sonora desta noite virá em sonhos nos meses pares. Após alguns anos depois da ida de Greta, Guacira notará o padrão e iniciará um ritual para se preparar e receber os sons dos sonhos de cada noite. 

Na próxima manhã, Guacira acordará sem ninguém do seu lado. O travesseiro vizinho estará frio. Ao sentar na cama, lembrará que nunca se deu mais do que três segundos para relaxar depois do despertar. O cuidado dos pepinos não deixa tempo suficiente para o ócio matutino. Eis que com os raios de sol penetrando o fundo do quarto uma configuração de iluminância do aposento se apresentará de forma inédita. Guacira nunca observou como a luz recorta e clareia os lençóis a essa hora do dia no quarto. Tomará tempo esquadrinhando as linhas na madeira da cabeceira e contando as cabeças dos pregos no assoalho. Seu corpo pesará como nunca. Sua única visão será embaçada por causa da pressão craniana, vestígios do estresse do dia anterior. Pelo resto do dia achará que é a idade. Ainda na cama, alisará a colcha e cheirará o travesseiro onde Greta dormiu. Seu pulmão se aquecerá. Mas a imagem de um pepino podre em sua mente congelará o sangue do ventre. O circuito das veias interpretará a dissonância calorífica como sinal de perigo e seu corpo será ejetado para cima. Guacira tentará enxergar a plantação pela janela, mas a vista ruim não permitirá. São dois dias sem cuidar dos pepinos. As pernas tremerão para correr, sem obedecerem os impulsos de cuidado, e tropeçarão. Guacira nunca viu o chão do seu quarto tão de perto antes. Apesar da vista embaçada, o verde da madeira é verde. Guacira passará o dedo pelas linhas fora de foco. Algumas tábuas estarão quase soltas. Ao se arrastar para perto da parede, Guacira encontrará um desnível no piso. A madeira estará solta. Há um buraco embaixo dela. Não será possível enxergar se há algo nele e o medo de pôr a mão lá dentro fará com que Guacira se levante. Ela colocará a tábua de volta e sairá do quarto. O corredor estará em silêncio. As escadas estarão em silêncio. O corrimão estará em silêncio. O tapete da sala estará em silêncio. As janelas estarão em silêncio. Todos os olhos estarão em Guacira. Três grávidas e duas gêmeas. As formas desfocadas não se levantarão. Venha, dirão as gêmeas. Chegou a hora, estávamos esperando você. Guacira perguntará se gostariam que ela fizesse alguma coisa para o café-da-manhã. Depois, responderão. Agora precisamos conversar. Elas querem saber os nossos sonhos, dirá Greta. Guacira perguntará que horas são. Não importa, dirão as gêmeas. Precisamos falar os nossos sonhos, só assim poderemos saber o que fazer. Guacira levará alguns segundos pensando. Tentará olhar sua plantação pela janela. Por fim, sentará no tapete ao lado de Greta e das gêmeas. Por que você não começa?, perguntarão elas. Guacira afastará o sono de seu corpo para pensar melhor. A única coisa que ocupará seus pensamentos será a imagem de um pepino apodrecendo. Após alguns minutos, responderá que não se lembra, o que será verdade. Não tem problema, tente lembrar ao longo do dia, dirão as gêmeas. Greta esconderá seus sentimentos atrás de um pequeno sorriso. Que perda de tempo, pensará. A vez da contação recairá com as outras grávidas. Que tal você, Geodésia? Ela abrirá a boca enquanto pensa e levará em torno de dois minutos elaborando o que falar. Meu sonho…, deixará a frase se agarrar às paredes. Será a primeira vez que Greta e Guacira escutarão sua voz. Greta se incomodará com o jeito como pronuncia as vogais. Guacira, não. Para melhor análise, destacaremos os relatos oníricos a seguir. 

Geodésia Bauxita

Meu sonho… aaaaaa… Com o que eu sonhei? A primeira coisa que vale ser dita é o estranho sentimento de achar que nada foi novo, como uma experiência nova. Pelo contrário. Eu sinto como se já havia sonhado com isso antes. Meus dedos ficam até coçando só de pensar. Mais alguém tem isso? Que aflição. Dedo não costuma coçar por nada, minha mãe dizia. Uma vez, num sonho também, eu sonhei que meus dedos coçavam e quando eu acordei minha casa pegava fogo… pela segunda vez… Na primeira eu não estava em casa. Mas e se estivesse? Tenho certeza que sonharia que meus dedos coçavam. Não que essa casa vá pegar fogo, pelo amor de Deus, desculpe. Eu acho. Mas se pegar, sonharei com isso antes, definitivamente. Espero. Com coceira ou não, a verdade sempre vem. Mas, o sonho. Do que eu lembro? Tinha… Tinha uma casa. Uma casa bonita… com pátio, fundos, parede amarela e um pequeno riozinho, um filete de água correndo até outra casa pequena, uma casinha de madeira com uma janela que ficava na parte de trás. Eu lembro de livros espalhados por toda parte, por cima das estantes, por dentro das gavetas, pelo chão e até na pia. Sussurros saíam dos livros. Amontoados de frases soltas. Coisas como… “paredes de madeira roubadas do seu subsolo”… se isso faz algum sentido. Cada livro tinha uma temática diferente. Alguns falavam de coisas banais, do dia-a-dia. Outros, como esse, coisas que eu não entendia. Não havia ordem ou padrão para a disposição dos livros e o seu conteúdo sussurrado. Alguns estavam abertos em uma página e outros fechados. Os que estavam abertos tinham um pequeno vídeo sendo tocado na página. Vi uma cena de dentro de um carro numa estrada, vi uma pessoa fazendo polichinelos, num outro, vi vários psicanalistas num corredor sem saber o que fazer. Subi para o segundo andar. A casa estava vazia? Eu acho que não. Alguém morava lá. Uma pessoa ou pessoas? Alguém morava na casa, com certeza. Mais de uma pessoa. Não acho que eram pessoas que eu conheço. Mas elas se conheciam. Um grupo. Duas… três… quatro? O que mais? Isso é importante mesmo? [as gêmeas pedirão que Geodésia Bauxita continue] Casa, pessoas, livros, sussurros… Alguém sentado numa roda. Uma troca? Uma mudança. Algo mudava na casa. Alguém…? Era um segredo. Só uma pessoa sabia disso. E essa mudança trouxe muita perturbação para a pessoa em questão, uma grande dor de cabeça. Mas eu não sei porquê. A mudança era segredo. Aos poucos todo mundo foi embora. E eu segui a pessoa que carregava o segredo. Ela pegou um avião para uma cidade grande. Chegando no aeroporto não sabia para onde ir. Consultou o mapa diversas vezes e por fim pegou um táxi. Foi parar num apartamento vazio e sem graça. No quarto, havia uma mesa muito espaçosa com várias gavetas. E em cada gaveta, folhas se avolumavam para fora. Não havia mais nada de muito especial a não ser um caderno-livro com páginas rosadas. Ao entrar no quarto, a pessoa foi direto ao caderno-livro e passou a mão pelas páginas. Ela então o fechou e eu pude ler a etiqueta escrita à mão na capa. Estava escrito “Pornológicas”. Depois disso, ela saiu. Continuei a segui-la pela cidade. Já estava escuro quando chegamos num restaurante. A cuidei pelo lado de fora, pela janela. A vi numa mesa, esperando alguém. Depois de muito tempo a outra pessoa chegou. E… Meu Deus. Essa outra pessoa… Ela… ela era você. Era você. [Geodésia apontará para Greta] Vocês se abraçaram como se não se vissem há muito tempo. Muito tempo mesmo. E ficaram felizes ao se verem. Não me lembro mais nada depois disso.      

[Greta Guajuvira não saberá como reagir e as gêmeas Abya e Yala convidarão Graça Cora para relatar seu sonho]

Graça Cora

Antes disso que tal comermos alguma coisa primeiro? Alguém mais está com fome? Não consigo pensar de estômago vazio. Ninguém? Antes de tudo, aquilo lá fora é o quê? É o que eu acho que é? É pepino, não? Já vi fotos disso. Tenho certeza que é pepino. Vocês viram também, não viram? Pois olhem, olhem pela janela, logo ali. Por que você tem isso aqui? Eu não gosto disso, nem um pouco. Não, não, não, não. E se formos presas? E se nos botarem na cadeia por causa disso? Imaginem vocês. Grávidas e presas por posse de pepino. Ou tráfico, ora diabos! E então, por que você planta isso, hein? O que isso te traz? Dá dinheiro? É isso? Bem, eu não quero fazer parte desse esquema. [Greta dirá que é tarde para se sentir incomodada porque a janta de ontem foi feita com pepino] Eu… comi… pepino? Não, não, não. Por favor me diga que isso é mentira. Quem são vocês? Onde estão com a cabeça? Tudo o que eu mais quero é ir para casa. Por que não posso ir? Por que temos de fazer esse joguinho imbecil? Vocês querem meu sonho? Querem? Se eu contar, vocês me deixam ir embora? Me respondam. Ora, danem-se. Eu estava muito fraca para qualquer coisa ontem. Se não fosse os restos daquele bicho que me ziguezagueavam no estômago e a cabeça pesada e esta criança e as coisas que vocês duas me disseram ontem… Eu só lembro de dormir. Eu estava muito cansada. Fechei os olhos e… nada. Acordei hoje sem nenhum… nada de… Espere. Teve algo. Sim! Uma pressão diferente subindo e descendo pelo meu corpo. Como num avião. Sim! Foi isso. Foi um avião, um voo. Pela janelinha se via um monte verde e o céu azul. Mas eles estavam invertidos no horizonte. A minha atenção se voltou para quem estava sentado no outro lado do corredor. Eram duas mulheres. Não notei nada de especial a não ser o cabelo azul de uma delas. Esta, me olhou de volta, um pouco com medo e um pouco com uma aceitação triste. O avião rodopiou algumas vezes antes de cair no chão e logo mais estávamos no hospital, onde a moça de cabelo azul esperava deitada numa cama, sem uma parte do braço. Agora ela estava com uma barba e os cabelos arrepiados. Sua cama tremia. Sua barriga lhe era estranha. E os vizinhos de quarto não escondiam o espanto com a sua imagem, até a chegada de um homem que a levava embora de carro, cortando a estrada. Não sei para onde foram. Isso significa alguma coisa boa?    

[As gêmeas pedirão para que Greta conte seu sonho]

Greta Guajuvira

Ainda estou pensando no que Geodésia falou. Porque… Não importa. Mas sim, sonhei com algo também. Com uma casa flutuando sobre um rio. Nesse rio, duas pessoas iam em um pedaço de madeira descendo a correnteza, como uma embarcação. O que me intrigou mais foi a casa e, por isso, me aproximei dela lá no alto. Era uma casa que misturava pedra e madeira, pra cima e pra baixo, de um lado ao outro. Parecia que a casa seguia as duas pessoas lá embaixo no rio, como se estivesse observando elas. Alguém morava dentro dela. Algo respirava e eu sentia. Por um tempo a minha conexão com essa pessoa ou coisa que morava lá dentro foi se aquecendo e a partir de então o céu foi ficando mais azul e o rio mais forte. As paredes de madeira e pedra se mexiam conforme a minha vontade. Esticavam-se daqui e protuberavam de lá. Por mais que a plasticidade da casa se fizesse experimentar não havia nada no mundo que fizesse aquela coisa sair de lá de dentro. Foi então que eu decidi olhar por baixo da casa e vi que na verdade ela não tinha piso nenhum. Era aberta embaixo. Uma escada de madeira e pedra se estendia até o andar térreo. Fui até ela e subi. A casa estava escura mas era possível ver farpas e tábuas por toda parte, pilhas de madeira, serragem pelo chão, e outras coisas. Vi várias formas em madeira. Sapo, livro, modelo de célula humana, mão, bicicleta, árvore. Coisas, só coisas espalhadas. Ao pé da escada para o segundo andar pude ouvir um barulho abafado. Uma batida que vinha lá de cima. Com cuidado, subi. No andar de cima o som estava mais alto e não consegui ver ninguém no corredor. Calculei que o som viesse de um dos quartos, tá-tá-tá-tá, bem espaçados entre um e outro, tá-tá-tá, queria ir embora e também não. Tá-tá-tá ficando mais forte. Abri a porta e vi um homem sem camisa empunhando um machado e cortando ripas de madeira. Ele não se importou comigo. Nem pareceu saber que eu estava ali. Fora ele, a coisa que mais me chamou a atenção foram as facas, canivetes, machados e espadas de todos os tamanhos espalhados ao longo das paredes daquele quarto. Era como um museu de coisas cortantes. Lâminas em tudo que é canto. Os fios das navalhas sopravam um ruído mínimo, quase sumindo, que dizia Quinga Tós sem parar. Quinga Tós, foi o que eu sussurrei. E então, o homem sem camisa se virou para mim. Ele pegou uma faca e começou a correr atrás de mim. Eu corri escada abaixo, até o térreo e depois até o subsolo mas quando a escada acabou e vi o clarão do sol, caí. Não consegui parar de cair até mergulhar no rio e… Foi isso.  

O sonho de Greta incomodará as gêmeas. Suas bocas e olhos idênticos conterão fragmentos da surpresa primordial. Estarão escancarados, aventados com puro terror. Suas orelhas acolherão a sensação horrível de ter que escutar o oco de si mesmas. Serão duas lesmas no Tao. Embargadas em profunda desolação, mal terão voz, pois o segredo que os outros criam sempre assusta mais. Objetos cortantes, elas dirão por fim, com tom ameaçador. Geodésia e Graça não prestarão atenção. Guacira colocará sua mão sobre a mão de Greta e as gêmeas cochicharão entre si. Após breve deliberação, Abya e Yala darão sua palavra. Ninguém poderá sair hoje, dirão. De casa?, perguntará Greta. Isso, responderão. O que faremos, então? Ficaremos aqui paradas, presas?, Greta retrucará. Sim, até amanhã de manhã, responderão as gêmeas. Guacira pensará nos seus pepinos de além-da-janela e no que fará com eles se começarem a apodrecer. Geodésia e Graça sentarão juntas perto da TV e a assistirão o resto do dia. Abya e Yala sentarão perto da porta e farão brincadeiras com as mãos. Greta se afastará para a cozinha e Guacira irá com ela. As duas vasculharão os armários à procura do que ainda resta de alimentos para um café-da-manhã. Analisando a textura dos pepinos na gaveta de baixo, Guacira chamará Greta para perto, a fim de segredar. A fazendeira dirá que sabe de algo estranho, de algo cadente na voz da grávida — uma sinfonia medrosa. Não posso dizer do contrário, Greta responderá. Aquilo que ela disse era verdade, a grávida falará. O sonho de Geodésia. Não foi um sonho, aconteceu mesmo, ela estava falando sobre o pai da minha criança. As mãos de Greta tremerão junto com um princípio de choro frêmito. Eu não sei porque fui embora, nada faz sentido aqui, ela dirá. Pelo espanto e nervosismo, os dedos de Guacira afunilarão a ponta do pepino que segura. Seu suco escorrerá e manchará o piso de madeira, mas só será notado por alguém muitos anos após a bomba. Com o passar do tempo, a mancha receberá sua erosão, danificando as pontas da estampa amorfa até formar uma frase. E a frase que será lida no futuro por um ex-doutor diz: só o sonho ensina. Quando a hora chegar, nem um nem outro saberá interpretá-la. Guacira nunca verá a frase se formar em sua vida. Contudo, junto à gaveta de baixo, segurando o pepino para o café-da-manhã, se incomodará com a pressão craniana novamente. Ela estará de joelhos no chão, segurando a parte de trás da cabeça, quando sua córnea expandir. O escoamento do sangue nas veias a fará suspeitar que Abya e Yala escondem algo. Do sangue fino, uma desavença crepita. A fazendeira contará dos seus mais novos sentimentos a Greta. A grávida se sentirá aliviada por não estar pensando nisso sozinha. Elas se olharão profundamente e acreditarão (sem dizer) que foram mãe e filha em outra vida.

A mesa posta, diminuta pela escassez das provisões, será o ponto de encontro dos seis corpos incômodos na terceira manhã desde a instituição do novo normal. Ninguém confiará em ninguém. Muito provavelmente pela constipação de todas. Os pepinos comidos por Graça Cora serão analisados um por um. Sua desconfiança com o produto ilícito será objeto de aproximação entre ela e Geodésia Bauxita, que também sente-se nervosa pelo simples fato de estar no mesmo ambiente que algo ilegal. Greta, apesar de sua aversão pela leguminosa, relevará o alimento dado seu novo laço pseudo-maternal e cairá nas boas-feitas de Guacira, seu mais recente calor postiço. Graça e Geodésia servirão como exemplo de ingratidão. Durante sua estadia não agradecerão por nada. Imputarão seus prazeres aos prazeres alheios. Reclamarão por dormirem mal. Deixarão a porta do banheiro aberta quando o usarem. Mas estes atos ainda não se manifestarão nesta manhã. Não. O que é pertinente saber transcorrerá numa forma audiovisual desde então oligárquica e cada vez mais popular nos tempos do pós-bomba. A única verdade propagada é a propaganda. Os comerciais serão obsoletos. As marchas de carnaval, anacrônicas. E por muito tempo, radiação será a palavra mais frequente da boca dos tele-jornais. Mas estes fatos também não se manifestarão nesta manhã. Não. Precisamos saber o que é pertinente mesmo. São os olhos que se encontram em volta da mesa olhando o que cada uma come. Um pedaço de pão com pepino e um gole da batida de pepino com açaí. Nervos do bíceps saltando em espasmos pela ausência de exercícios. Narinas se abrindo em intervalos irregulares. Pés inquietos. O relaxamento de Guacira ao escutar as gotas da chuva batendo contra a janela e a certeza de que essa manhã os pepinos serão aguados. A luz vindoura da caixa de luzes e sons com sua semiótica acrítica. A televisão estará ligada e nela veremos uma reportagem especial sobre “O Octagenário Da Grande Luta Histórica: Levitares Té vs. Jiri Chytilová” na República Oriental do Uruguai, a famosa briga em que um lutador levitou para fora do ringue e nunca mais foi visto. Todas verão a história de Levitares Té despontar de seus 3 anos de idade até seu desaparecimento. Todas escutarão os depoimentos de familiares, da filha pequena e da esposa do pugilista. Após dezoito minutos de apreciação pelo passado, as grávidas, as gêmeas e a fazendeira caolha sentirão o peso dos mortos sobre seus ossos e ficarão em silêncio por outros dezoito minutos, após desligarem a televisão. Espalhadas pela sala, discutirão o que pode ter acontecido a Levitares. Com o terno medo da chegada do tédio Graça Cora se prevenirá ligando o aparelho outra vez. O que verão a seguir na televisão determinará o resto do curso de suas vidas.

O semi-círculo disposto sobre o tapete e as poltronas contará com estômagos à metade da capacidade total. As mulheres não saberão dizer se estão com fome ou não. Tal pensamento será ignorado após as primeiras palavras do noticiário televisivo. O desjejum será abandonado para dar lugar aos picos de cortisol. Gráficos econômicos e mapas geopolíticos se confundirão com gestos agressivos e olhares medrosos. Serão mais de 60 correspondentes internacionais ao vivo em todos os países da América Latina. Orações subordinadas se cruzarão e os adjuntos plantarão raízes nos ouvidos dos telespectadores. O impensável acontecerá. Depois de um século financiando operações externas, o terror finalmente chegará no seu quintal. Os Estados Unidos da América entrarão em guerra com si mesmos. O país mais livre do mundo se dividirá em dois. De um lado teremos os republicanos e do outro, os democratas. Como sempre foi. Não haverá estadunidense sem arma. Como sempre foi. Não haverá estadunidense que não seja paranoico. Como sempre foi. Nas primeiras horas da sua segunda guerra civil aquele país servirá de dubiedade ao resto do planeta. Pela primeira vez na história contemporânea os chefes colonizados de governo serão obrigados a tomar uma decisão sem poder consultar o líder supremo. Qual lado apoiar? Guacira, Greta, Graça, Geodésia, Abya e Yala olharão incrédulas para as primeiras imagens que entrarão na história mundial. Em Wyoming, cavalos terão suas cabeças decepadas. Em Nevada, as bases militares serão abandonadas. Em Manhattan, Wall Street será lavada a sangue. Ao longo do dia os doze olhos se acomodarão com o vermelho corrente da tela. No cair do sol, o exército terá se dividido em dois e o presidente será sequestrado. As bases militares estadunidenses ao redor do mundo sofrerão influência da guerra civil para criar alianças entre elas. Algumas serão cooptadas por um lado e outras entrarão em complô para se tornarem uma nova nação independente formada por homens belicosos, sem vínculos com os acontecimentos da agora ex-pátria. Nenhum homem será indiferente ao conflito. Contudo, a guerra será caracterizada pela dúvida mundial. Não restará povo sem sua própria divisão interna, pois a imagética da guerra só fere sob aval de um consenso e na falta de uma régua una a sequência malsã da história julgará necessária o poder central. Quando a cabeça se parte, o resto do corpo não funciona mais. Assim são os povos colonizados. Assim são os povos partidos. Na falta de pipoca, nenhuma das mulheres se importará de julgar a procedência ilegal do alimento de Guacira para acompanhar as notícias. A chuva não participará dos sentimentos despertados naquele dia. Ela apenas molhará os pepinos de Guacira Leocádia, fazendeira caolha.      


Fotografia: Vista de campo – Autoria não identificada (Acervo Instituto Moreira Salles).

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