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Não tem como se perder

por Renata Meffe
Desenho de Ariyoshi Kondo ilustra a crônica de Renata Meffe.

Renata Meffe é jornalista, fotógrafa e documentarista. Cronista da Revista Mirada. Escreve ensaios que nunca estreiam.


Às vezes, gosto de me imaginar ainda a bordo do velho Corcel II cor de creme e, tal qual nossos ancestrais, saio por aí pedindo informação na rua. Creio que brasileiros são mais interativos que outros povos no quesito ensinar caminhos, só que o GPS vem contribuindo para o fim de uma arte por meio da qual a alegria e prestatividade de nossa gente se manifestavam. É inegável que o advento de Google Maps e Wazes da vida tem seu valor do ponto de vista ambiental. Com o fim dos guias de ruas impressos, que em cidades como São Paulo superavam em volume de papel as enciclopédias Barsa, incontáveis árvores puderam seguir vivas. Porém, a que preço? A cultura de narrar como se chega do ponto A ao ponto B está morrendo.

A comunicação nas vias urbanas aproximava forasteiros de nativos, motoristas de pedestres e, não raro, pessoas desorientadas de pessoas desprovidas da mais mínima noção geográfica. Me encaixo nas duas últimas categorias, o que nunca foi empecilho para que desde criança ajudasse meu pai, homem também pouco dotado de inteligência espacial, a se localizar: “Filha, você acha que na ida a gente tinha vindo da direita ou da esquerda?”. “Da esquerda, papai”. Ele então girava confiante à direita, me usando como uma bússola às avessas. Quase sempre dava certo.

O fator direita/esquerda costuma aparecer bastante quando, sem rumo, abordamos desconhecidos em busca de direcionamento. O sujeito — chinelo de dedo nos pés, pacote de pão debaixo do braço, claramente um morador do bairro — se entusiasma ao dissertar sobre o caminho até a avenida, concluindo com propriedade: “E aí, no farol, você dobra à esquerda”. Seu dedo indicador, porém, o contradiz e aponta resoluto para a direita. Dilema cruel: confiar nas palavras categóricas ou no movimento instintivo do gesto?

Numa das últimas vezes em que me informei na rua, me deparei com outro clássico: o “Não tem erro”. A frase encorajadora costuma anteceder explicações complexas, que podem incluir viadutos, linhas de trem e a quarta saída da rotatória. Faço questão de sempre deixar bem claro para o gentil interlocutor que não convém subestimar minha desorientação, pois se há uma coisa que tem sim como acontecer é eu errar. Nesses casos, a pessoa geralmente opta pela prudência (ou seria uma tática para eximir-se da responsabilidade?): “Faz assim então, moça: cruza a linha do trem logo depois da caixa d’água, segue reto toda a vida e lá na frente você pergunta de novo¨.

Mas ontem vivi a experiência mais radical em se tratando de buscar informação na rua: o pedido de indicação com emoção. Ele acontece quando, nos exíguos três segundos antes do semáforo abrir, o motorista do carro ao lado, interpelado sobre determinado destino, lança o desafiador ¨Me segue¨. Além da adrenalina demandada na perseguição automobilística, que faz a gente se sentir em Hollywood (“Táxi, siga aquele carro!”), vem o temor. Será uma emboscada? Esta senhorinha, aparentemente tão solícita, está me conduzindo a um beco onde terei pneus — ou olhos — furados? Ela quer meu bem ou meu rim? Deixa eu pelo menos memorizar a placa do carro: BST 0666. Ok, tá tranquilo, BST 0666. BST 0666. Me distraio um segundo. Opa, cadê ela? Me perdi.


Desenho de Ariyoshi Kondo.

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