Prosas Apátridas – #5

por Julio Ramón Ribeyro
Julio Ramón Ribeyro

Tradução: Anna Carolina Rizzon

Conhecer o corpo de uma mulher é uma tarefa tão lenta e tão louvável quanto aprender uma língua morta. A cada noite, uma nova comarca é acrescida a nosso prazer e um novo símbolo, a nosso já vasto vocabulário. Mas sempre haverá mistérios a serem desvelados. O corpo de uma mulher, todo corpo humano, é, por definição, infinito. Começa-se tendo acesso à mão, esse apêndice utilitário, instrumental, do corpo, sempre à mostra, sempre disposto a se entregar a quaisquer, e que adquiriu, por força da sociabilidade, um caráter quase que impessoal e paliativo, como o de um funcionário, um porteiro do palácio humano. Mas é o que se conhece primeiro: cada dedo vai se individualizando, adquirindo um nome familiar, e então cada unha, cada veia, cada ruga, cada pinta imperceptível. Aliás, não é só a mão que conhece a mão: também os lábios conhecem a mão, e eis que se somam um sabor, um cheiro, uma consistência, uma temperatura, um grau de suavidade ou de aspereza, uma comestibilidade. Há mãos que são devoradas como a asa de um pássaro; outras travam à garganta como um eterno cadafalso. E o que se pode dizer do braço, do ombro, do seio, da coxa, da…? Apollinaire fala das Sete Portas do corpo de uma mulher. Apreciação arbitrária. O corpo de uma mulher não tem portas, como o mar.


Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) estudou letras e direito na Universidade Católica de Lima. Em 1960, emigrou a Paris, onde trabalhou como jornalista na France-Presse e, posteriormente, como conselheiro cultural e embaixador na UNESCO. Suas obras foram traduzidas a vários idiomas e foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura em 1983, o Nacional de Cultural em 1993, ambos no Peru, e o Prêmio Juan Rulfo em 1994. Dono de uma obra que toca uma gama imensa de registros, sua produção como contista é uma das mais fecundas e significativas do século XX, editada pela primeira vez na integra em La palabra del mudo (Seix Barral, 2010, 2019) – inédito no Brasil.

Anna Carolina Rizzon nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em Teresópolis e se exilou em São Paulo. É incompetente em diversos segmentos artísticos, mas insiste mesmo assim. Especialmente na escrita. Colabora com a Fazia Poesia e a Revista Úrsula e posta aleatoriedades nos blogs vOltas h a v e r e s.

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