Pulsação d’água

por Rodrigo Cabral
Fotografia: Praia de Santa Luzia; à direita, o Passeio Público – Torres (Acervo Instituto Moreira Salles).

Rodrigo Cabral nasceu no verão de 1990. É jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio). Trabalha como editor de jornal e de livros. Em Cabo Frio (RJ), fundou a Sophia Editora. Em 2022, foi finalista do prêmio OFF Flip de Poesia. Em 2023, teve um poema publicado na antologia do Festival de Poesia de Lisboa.


pulsação d’água

a pulsação d’água 
contrai e expande 
o que a palavra refina
nos batimentos 
das remingtons 
debulhando botões
verdejando espasmos
na restinga das paráfrases
dos átrios e ventrículos 
para os vasos de alta salinidade 
onde ovos chocam
onde vogais e camarões 
ruborizam
onde aspas rebentam
no íntimo dos glóbulos 
n’aorta das sílabas 
enquanto o hífen-cateter 
           da célula-máter
mantém o ritmo da criação
em gênese: arritmia 

esta é
a pulsação d’água,
sempre que vida,
a pulsação d’água,
ante ao espasmo,
sangue geológico
bombeando prelúdios
epílogos renascimentos
e na operação da palavra
um transplante cardíaco
de poeta para poeta
de peito para peito
para que a poesia
continue batendo
no berçário de aves migratórias

esta é
a pulsação
d’agua nascente


malditas casuarinas

e se acaso a gramática do solo fosse
invadida por sementes estranhas que
desabrochassem sotaque d’outra terra?
e se acaso nascesse nesta terra a forasteira
humilhada cujos fonemas carregam
nada mais do que a ambiguidade?
e se acaso a invasora sufocasse as vogais
d’outras espécies, mas gemesse 
solidão sob a lestada das madrugadas?
e se acaso sua exótica poética 
predominasse no horizonte
em consequência da míngua
das metáforas lunares? e se regenerasse
contudo os solos esgarçados
das salinas abandonadas?
e se fosse 
como tudo 
um contudo?
ainda optaríamos pela poda
de sua espécie? pela reedição
de suas trovas carcomidas? pela
condenação do seu choro
derrubado nas páginas dos
nossos livros? e se descobrirmos 
em nossos gestos os
ramos da forasteira? qual seria
o veredicto dos gramáticos?
haveria um acordo ortográfico?
ah, malditas casuarinas
!


banho de sal grosso

só ponho este
livro na rua depois
de um banho de sal grosso
em cada poema em cada página
epígrafe colofão orelhas
capa folha de rosto e tudo mais
só ponho este 
livro na rua depois
de um banho de sal grosso
proteger 
poesia com poesia
fogo com fogo
faca com faca
só ponho este 
livro na rua depois de
riscar as pedras da
ancestralidade
e decifrar
as letras cursivas em cadernos caligráficos
onde leio a 
lua
bem traçada
luzindo tudo
os muros de pedra e tinta branca 
as rendas escapando entre as janelas
as ruas franzinas em linhas e linhas e linhas
                                     em folhas 
                                     esgarçadas 
                                     amareladas
                                     suas pontas 
                                     comidas
                                     pelas traças 
                                     dos sebos
                                     e arquivos 
                                     públicos


Fotografia: Praia de Santa Luzia; à direita, o Passeio Público – Torres (Acervo Instituto Moreira Salles).

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